Itamaraty: EUA não seguiu “boa prática diplomática” com delegado da PF
Itamaraty diz que decisão do governo dos Estados Unidos foi unilateral, sem diálogo prévio e fere acordo de cooperação policial
atualizado
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O Itamaraty criticou, nesta quarta-feira (22/4), a decisão do governo de Donald Trump de expulsar dos Estados Unidos o delegado da Polícia Federal (PF) Marcelo Ivo de Carvalho, que atuava na Flórida. Segundo o órgão, a medida não seguiu a “boa prática diplomática” nem respeitou regras de cooperação entre os dois países.
Em nota, o Itamaraty expôs que o agente brasileiro atuava como oficial de ligação junto ao Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE), com base em um memorando bilateral. O órgão afirma que a interrupção das atividades ocorreu de forma imediata, sem comunicação prévia ou pedido de esclarecimentos ao governo brasileiro.
Diante disso, o Brasil decidiu aplicar o princípio da reciprocidade, que prevê a adoção de medida equivalente: a interrupção imediata das atividades de um agente norte-americano em função similar em território brasileiro.
“A representante da embaixada norte-americana foi informada, também verbalmente, de que o governo brasileiro aplicará o principio da reciprocidade diante da decisão sumária contra o agente da Policia Federal, que não foi precedida de qualquer pedido de esclarecimento ou tentativa de diálogo sobre o caso. A medida tampouco observa a boa prática diplomática de diálogo entre nações amigas, como o Brasil e os Estados Unidos, ao longo de mais de 200 anos de relação”, diz o Itamaraty.
Entenda o caso
- O episódio está ligado à detenção, na semana passada, do ex-deputado federal Alexandre Ramagem nos Estados Unidos.
- Considerado foragido pela Justiça brasileira, ele havia sido alvo de um pedido de extradição.
- A Polícia Federal afirmou que a prisão ocorreu com base na cooperação entre os dois países.
- Já os EUA sustentam que a abordagem ocorreu após verificação do status migratório.
- Ramagem foi liberado dois dias depois, sem aviso prévio às autoridades brasileiras.
- Segundo os EUA, o ex-deputado poderá permanecer em solo norte-americano, enquanto aguarda resposta ao pedido de asilo.
- Ao justificar a expulsão do delegado da PF, o Departamento de Estado norte-americano acusou o brasileiro de tentar “manipular o sistema de imigração” para contornar procedimentos formais de extradição.
- A medida foi interpretada pelo governo brasileiro como uma quebra de confiança na cooperação bilateral, ponto que agora está no centro da tensão diplomática.
Nova delegada da PF nos EUA
O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, nomeou a delegada Tatiana Alves Torres para substituir o delegado Marcelo Ivo de Carvalho como oficial de ligação junto ao Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos Estados Unidos (ICE).
Tatiana é delegada de carreira desde 2002, já foi superintendente da PF em Minas Gerais e, desde dezembro do ano passado, estava na função de coordenadora-geral de Gestão de Processos da Diretoria de Gestão de Pessoas (DGP).
A nomeação dela ocorreu no mês passado, antes da expulsão do colega. A mudança de quem representaria a PF nos EUA já estava acordada pela direção da corporação desde fevereiro deste ano. O prazo para que Tatiana permaneça em solo norte-americano é de dois anos.
Quem é o delegado expulso dos EUA
O comunicado de saída de Marcelo Ivo do país foi publicado pelo Departamento de Estado norte-americano na segunda-feira (20/4).
O delegado está na Polícia Federal (PF) há 22 anos. Ele ingressou na corporação como delegado, função essa que cumpre até os dias atuais. De fevereiro de 2022 até janeiro de 2023, Ivo foi superintendente da PF na Paraíba. Entre março de 2018 a maio de 2021, o agente cumpriu a função de delegado regional de investigação e combate ao crime organizado em São Paulo.
Nos EUA, Ivo era oficial de ligação da Polícia Federal em Miami desde agosto de 2023.
Lotado desde agosto de 2023 no escritório do ICE em Miami (Flórida), Ivo era o único delegado federal brasileiro designado para atuar diretamente nas dependências da agência norte-americana, coordenando a cooperação em investigações transfronteiriças e operações migratórias na região, incluindo a Flórida.
A Polícia Federal informou que o delegado estava nos EUA em missão oficial de colaboração com as autoridades estadunidenses. A expulsão ocorreu de forma compulsória, sem que tenham sido informados os motivos exatos pela parte norte-americana.
