Isolamento desigual: a cada 10 inscritos no Enem sem internet, 7 são negros

Em casa e sem conexão, alunos não podem se preparar para a prova que dá acesso ao ensino superior gratuito

Alunos estudando para o EnemRafaela Felicciano Metrópoles

atualizado 21/05/2020 13:47

Os alunos pretos e pardos são desproporcionalmente afetados pela pandemia de coronavírus na preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). De acordo com os microdados da prova realizada em 2018 – última com informações disponíveis –, 73,21% das pessoas que realizaram o concurso e não tinham internet em casa eram afrodescendentes.

A proporção não é a mesma em relação ao total de inscritos. Nesse caso, pretos e pardos representam 59,13% do total. A diferença mostra que o grupo sofre mais para se preparar para o exame enquanto as aulas presenciais estiverem suspensas. Sem internet em casa e com os deslocamentos restritos, esses alunos não têm como assistir às aulas.

As informações são do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e foram analisadas pelo (M)Dados, núcleo de jornalismo de dados do Metrópoles.

Ao todo, o Enem de 2018 teve 5,5 milhões de participantes. Desse total, 4,086 milhões declararam ter internet em casa enquanto 1,427 milhão afirmou não tê-la em sua residência. Ao passo que entre brancos o percentual de inscritos sem internet é de 15,59%, a mesma relação é de 32,06% para os afro-brasileiros.

“Os mais pobres costumam ser os negros e aqueles que tiveram menor acesso à escolarização na idade apropriada. A questão de cor é fundamental para compreender os processos de exclusão”, apontou o professor da Universidade de Brasília (UnB) e especialista em educação Cleyton Gontijo.

Segundo o docente, desde a implementação do Sistema de Seleção Unificada (Sisu), o Enem ampliou o acesso ao ensino superior, especialmente para as classes menos favorecidas. “Precisamos garantir que todo mundo possa realizar a prova de maneira igual, caso contrário vamos menosprezar uma parte significativa de jovens brasileiros”, acrescentou.

Para realizar um diagnóstico de exclusão preciso, é necessário analisar fatores que medem a qualidade do acesso à internet. “O computador funciona adequadamente? A conexão é boa? O serviço precisa ser de qualidade razoável para o aluno ter condições de se preparar minimamente”, apontou.

O Enem estava previsto para os dois primeiros fins de semana de novembro. O governo federal não sinalizava vontade de remarcá-lo, mas precisou ceder após o Senado Federal aprovar um projeto determinando a postergação da prova. Na quarta-feira (20/05), o ministro da Educação, Abraham Weintraub, sugeriu que o exame fosse adiado em 30 e 60 dias.

Além disso, ele propôs uma consulta a ser realizada em junho com os mais de 4 milhões de inscritos. Os alunos poderão opinar  sobre a nova data da prova em uma enquete postada na internet, pela qual também é feita a inscrição. Gontijo critica a medida, que restringe o processo decisório àqueles que menos sofrem com a falta de aulas presenciais.

“Quem não tem acesso à internet não vai ter oportunidade de opinar. Segundo o ministro, o Enem não existe para corrigir injustiça social. Ou seja, ele só vai consultar aqueles que já têm mais oportunidade de entrar no ensino superior”, afirmou. Para o professor, o Enem deveria ficar suspenso de forma indeterminada até que a população tenha clareza sobre as condições sanitárias para que a prova seja realizada de maneira segura.

 

Últimas notícias