Isolado por pressão interna e externa, Brasil vai pedir dinheiro na COP26

Governo brasileiro mantém discurso de que é um dos países que mais protege o meio ambiente e assume postura de embate com nações mais ricas

atualizado 18/10/2021 7:06

sistema de combate de focos de incêndios na amazonia bombeiros sobrevoam áreas de queimadas próximo a Porto Velho em RondoniaIgo Estrela/Metrópoles

A próxima Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP26) começa em menos de duas semanas, na Escócia, e deverá ter o Brasil como vidraça – alvo de governos estrangeiros, de ONGs ambientalistas internacionais e de críticos internos, que vão dos povos indígenas até setores do agro que não acham um bom negócio o país ser um patinho feio da agenda ambiental mundial.

Tendo de lidar com esse isolamento sem fazer concessões a todas essas pressões, a delegação do governo brasileiro pretende insistir na tentativa de cobrar dos países ricos recursos financeiros para perseguir metas de redução no desmatamento e de emissões de gases do efeito estufa mais ousadas do que as do Acordo de Paris, de 2015.

Após o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) ter negado o pedido de seu vice, Hamilton Mourão (PRTB), para liderar essa delegação, o responsável por repetir a mensagem que o próprio mandatário do país reforçou na Assembleia da ONU, em setembro, será o ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite, que insistirá no discurso de que o Brasil tem apostado com vigor na proteção da natureza. O problema é que dados acessíveis a todos jogam contra essa versão.

“O governo Bolsonaro adota a estratégia de falar uma coisa e fazer outra, mas a comunidade internacional percebeu e isolou o Brasil de uma maneira que não pode ser revertida por mais discursos na COP26. Esse isolamento só será vencido com ações concretas, o que dificilmente vai acontecer nesta gestão”, avalia o ambientalista Marcio Astrini, que é secretário-executivo do Observatório do Clima e vai acompanhar presencialmente o evento em Glasgow, na Escócia, entre 31 de outubro e 12 de novembro.

“O Brasil não tem o que apresentar na COP. Todos os números são negativos, temos um ciclo fechado de anos de dados negativos, cujo principal é o do desmatamento, que é 46% maior do que era em 2018, numa ascensão que só pode ser explicada pela existência do governo Bolsonaro e de sua vontade de destruição do meio ambiente”, critica ainda Astrini, que não acredita que as pressões possam mudar a perspectiva a curto prazo. “É um governo que lucra politicamente com a destruição e que não vai mudar, porque o presidente está preso nessa agenda visando a reeleição”, afirma o ambientalista em entrevista ao Metrópoles.

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Os números

Cada novo levantamento sobre a destruição florestal é mais um golpe na reputação ambiental que o Brasil levara à Escócia. Em setembro, o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) divulgou que a Amazônia Legal perdeu 10.476 km² de floresta entre agosto de 2020 e julho de 2021. A taxa é 57% maior do que a da temporada anterior de desmatamento, e a pior dos últimos 10 anos.

Pressão do agronegócio

Parte da pressão interna sobre o governo na área ambiental vem de um setor que faz integra a base de apoio a Bolsonaro, os empresários do agronegócio. Na última semana, uma coalizão de empresas que representam quase metade do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds), pediu que o governo seja menos inflexível e faça concessões na COP26 para destravar a negociação das regras do mercado de carbono – o que é, teoricamente, o objetivo da gestão do atual mandatário da República.

Pelas contas do grupo, o crédito de carbono pode gerar entre US$ 16 bilhões e US$ 72 bilhões anuais até 2030, se o Artigo 6 do Acordo de Paris, que trata do mercado de carbono, for regulamentado. Essa regulamentação é bandeira brasileira desde a gestão do ex-ministro Ricardo Salles, mas está travada porque o Brasil quer que a comercialização dos créditos seja contabilizada tanto pelo país vendedor quanto pelo comprador.

A comunidade internacional resiste porque nesse modelo não se atinge o objetivo de reduzir as emissões globais de carbono, com perdas anulando os ganhos. “Não vamos brigar por isso, porque temos muito mais a ganhar nessa história com o Artigo 6 sendo aprovado do que se a gente continuar a bater o pé”, disse a economista Marina Grossi, presidente do Cebds, ao jornal O Globo.

Pressão externa e resposta do governo

Às vésperas do início da COP26, o governo brasileiro não está fazendo grandes esforços para dialogar com os críticos. O Metrópoles pediu ao Ministério do Meio Ambiente uma entrevista com o ministro Joaquim Leite para falar sobre os temas tratados nesta reportagem, mas não recebeu nenhuma resposta. Em artigo publicado na Folha de S.Paulo no último dia 14 de outubro, porém, o titular da pasta mostrou que está disposto a se contrapor às pressões das nações mais industrializadas.

Leite atacou abertamente a criação de uma taxa de carbono sobre produtos importados que os países europeus estão discutindo. Para o ministro, o mecanismo servirá para “proteger as indústrias europeias de concorrentes estrangeiros que não cumprem os mesmos padrões de redução das emissões de gases de efeito estufa”. Pontuou ainda que, com isso, “o bloco europeu, de forma unilateral, tenta impor a criação de um mecanismo de cobrança indireta e não transparente, o que pode desencadear controvérsias comerciais induzidas pela pauta ambiental, criando assim um protecionismo climático”.

E o ministro adiantou o tom que deverá adotar em suas falas na COP. “Os países que se industrializaram com base em combustíveis fósseis, neste caso a União Europeia, têm uma responsabilidade maior e diferenciada em relação aos países que não o fizeram — ou por serem pouco industrializados ou por nunca terem emitido grande quantidade de gases de efeito estufa e ainda carecerem de desenvolvimento econômico para garantir qualidade de vida para a sua população”, assinalou Leite.

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