Insegurança alimentar afeta 31,9% da população feminina no mundo

No Brasil, seis em cada dez lares chefiados por mulheres são afetados pela insegurança alimentar

atualizado 11/07/2022 8:11

Igo Estrela/Metrópoles

O relógio marcava 14h30 quando Ana*, de 58 anos, conversava por telefone com a equipe do Metrópoles. Ela ainda não havia feito nenhuma refeição no dia. “Para não dizer que não comi hoje, tomei um cafézinho de manhã”, conta.

Moradora de uma ocupação nas proximidades do centro de Brasília, no Distrito Federal, Ana faz parte da parcela de 31,9% das mulheres do mundo que enfrentam insegurança alimentar moderada ou grave.

A mulher vive em situação de rua há quase 30 anos e pediu para não ter seu nome verdadeiro divulgado. A única renda que recebe é a do benefício social Auxílio Brasil, de R$ 400. Ana tem problemas cardíacos e não pode trabalhar.

Ela, o marido, duas filhas e sete netos guardam os pertences perto de uma árvore na ocupação. Entre os objetos, estão alguns utensílios de cozinha, como pratos e panelas, que passam a maior parte da semana vazios.

“Aqui, pra gente se alimentar é na quinta, sexta, sábado e domingo. De segunda a quarta a gente já não tem o que comer. Às vezes a gente ganha marmita. Cesta é difícil aparecer, é gente demais que mora nessa redondeza”, conta.

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De acordo com relatório Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo, divulgado nesta semana pela Organização para Alimentação e Agricultura das Nações Unidas (FAO), 31,9% população feminina do mundo vive nessas condições. Entre os homens, a porcentagem é de 27,6%.

Segundo a FAO, nas situações de insegurança alimentar moderada, a pessoa é obrigada a reduzir, em alguns momentos do ano, a qualidade ou quantidade dos alimentos consumidos, por falta de recursos para custear a comida. O quadro de insegurança alimentar grave ocorre quando o indivíduo não tem acesso regular e permanente à alimentação.

“Historicamente, mulheres apresentam tendência a serem desproporcionalmente afetadas por crises econômicas e de saúde de diversas formas. A pandemia de Covid teve um impacto desproporcional nas oportunidades de acesso econômico e à alimentação das mulheres”, consta no relatório.

“Às vezes me sinto muito triste. Tem dias que olho para um lado e para o outro, não vejo um pão, um leite para dar para os meus netos. Às vezes entro em desespero, começo a chorar, ficar desesperada. Dói muito quando a gente vê um filho, um neto chorar com fome e a gente não ter de onde tirar para alimentar”, lamenta Ana.

A fome tem gênero e cor

Segundo o relatório da FAO, a América Latina e o Caribe são as regiões com mais discrepância entre homens e mulheres quando o assunto é insegurança alimentar. Nesses locais, 45% da população feminina vive nessas condições, ante 33% da população masculina.

O 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil mostra que, atualmente, 33,1 milhões de brasileiros não têm o que comer, e que 58,7% da população brasileira convive com insegurança alimentar em algum grau. Em 2020, a porcentagem era de 55,2%.

De acordo com o estudo, elaborado pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan) com dados de 2021 e 2022, seis em cada dez casas chefiadas por mulheres (63%) são atingidas por algum tipo de insegurança alimentar.

Entre os homens, o índice foi de 56,6%. Além disso, 65% dos lares comandados por pessoas pretas ou pardas enfrentam algum grau de insegurança alimentar.

Políticas Públicas

Professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e vice-presidente da Rede Pessan, a pesquisadora Sandra Chaves explica que os indicadores são espelho do racismo estrutural e do sexismo no Brasil e no mundo.

“Quando falta comida, falta muito mais na vida das pessoas. A gente vai pensar em todas as desigualdades que marcam a nossa sociedade”. explica.

Ela pontua que mulheres, especialmente as negras e pardas, têm menos oportunidades de emprego e menores rendimentos — mesmo quando têm os mesmos índices de escolaridade que homens e mulheres brancas.

“O que esses dados deixam claro é um racismo estrutural que vem se acumulando na nossa sociedade. Em situações de crise exacerbada, como a pandemia, a situação piora. O feminicídio aumentou, a violência contra a mulher aumentou. Vem no conjunto das desigualdades estruturais”, explica.

Para a pesquisadora, é importante que os governos invistam em políticas públicas para resolver o problema a curto e a longo prazo.

“Quem tem fome tem pressa. Precisamos de criação de restaurantes populares, entrega de cestas básicas, programa de transferência de renda. E também precisamos de políticas estruturais, geração de emprego e renda, qualificação para o trabalho, alimentação para todos e, principalmente, políticas que aumentem a empregabilidade da mulher”, avalia.

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