Haddad é único nome da esquerda capaz de vencer em SP, diz presidente do PT paulista

Luiz Marinho garante Haddad como candidato ao governo paulista, e descarta chance de PT deixar disputa para apoiar Boulos

atualizado 18/10/2021 20:25

Fábio Vieira/Metrópoles

São Paulo – “O desejável nem sempre é possível”. É o que diz Luiz Marinho, presidente estadual do Partido dos Trabalhadores (PT), sobre uma união entre Guilherme Boulos, do PSol, e Fernando Haddad para uma candidatura única de esquerda na disputa para o governado de São Paulo em 2022. A vontade de muitos é que os dois se juntem já para o primeiro turno, mas isso parece cada dia mais difícil de prosperar.

Para o dirigente do PT paulista, que já foi ministro do Trabalho no governo Lula e prefeito de São Bernardo do Campo, o PSol tem todo o direito de lançar candidato próprio, mas reforça que Haddad é o único postulante da esquerda que possui condições de quebrar a hegemonia do PSDB em São Paulo.

“Qual é a pré-candidatura que tem a maior possibilidade de chegada? É a candidatura do PSol, do PT? Hoje, o que está muito claro é que o Haddad tem maior possibilidade. Então se alguém tem que retirar para alguém, não seria a candidatura do Haddad”, afirma. E não deixa de criticar: “O PSOL nunca nos apoiou”.

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Em setembro, o PSol paulista aprovou a pré-candidatura de Boulos para a disputa a governador em 2022. Já no PT, Haddad tem intensificado a agenda pela Grande São Paulo e o interior e se reunido com prefeitos e empresários a fim de “furar o bloqueio” tucano no estado.

Em entrevista ao Metrópoles, Luiz Marinho falou com otimismo sobre as próximas eleições, destacou as “chances reais e concretas” de Lula se eleger – mas diz que pleito só se ganha no dia – e debateu sobre como o PT prepara o terreno para disputar “para valer” o estado de São Paulo no ano que vem. Contou que vai concorrer a deputado federal pela sigla, e o perfil que deseja para o candidato paulista ao Senado.

Explicou ainda que os diálogos com partidos da esquerda e centro-esquerda são constantes e que espera uma frente única, sem abrir mão de Haddad. Seu vice está aberto a discussões – e a ideia é um outro nome de siglas do mesmo viés na chapa. Leia a entrevista abaixo:

O ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad vai realmente disputar o governo do estado de SP em 2022?

Certamente, Haddad será o nosso candidato. Na minha avaliação, no nosso campo à esquerda, é o que melhor reúne condições de liderar uma frente para furar bloqueios. Estamos em um estado onde um grupo político vence as eleições desde a década de 1980. O PSDB nasce de uma visão no PMDB, mas o fundador do PSDB foi o eleito governador em 1982, portanto governam praticamente o mesmo agrupamento, com pequena nuance para lá e para cá, desde 1983. Esta eleição se coloca um tanto quanto diferente do ponto de vista conjuntural. Nós nunca tivemos uma candidatura a um ano da eleição na expressão que representa essa pré-candidatura do Fernando Haddad.

Como estão os diálogos com o PSol? Havia a expectativa de que o Haddad retirasse a candidatura dele para apoiar o Guilherme Boulos. Não há nenhuma chance de isso acontecer?

Em absoluto. Nós estamos dialogando com todos os partidos de esquerda que desejam conversar conosco, entre eles o PSol, mas também com o PSB, vários. O ideal, o desejável de todo mundo, é que estejamos juntos em uma frente já no primeiro turno. O desejável nem sempre é possível, então é preciso olhar com o pé na realidade. Creio que isso vai se dar no começo do ano que vem, quando os partidos começam a analisar as questões reais. Estamos à disposição de dialogar. O que é preciso olhar é o seguinte: qual é a pré-candidatura que tem a maior possibilidade de chegada? É a candidatura do PSol, do PT? Hoje, o que está muito claro é que o Haddad tem maior possibilidade. Então se alguém tem que retirar para alguém, não seria a candidatura do Haddad. Os partidos têm o direito de lançar candidaturas e nós respeitamos plenamente. O que é preciso olhar é se é possível um processo de soma de unidade no primeiro turno. Na impossibilidade, uma pactuação de somar no segundo turno.

E quem é o perfil de vice ideal para o Haddad em São Paulo?

Será o que for melhor na possibilidade no momento de fechar a chapa. Então, estou falando do PSol, do PSB, de outros partidos que, se toparem discutir, podem oferecer a liderança do melhor perfil seja para vice, seja para vice na vaga do Senado. Nós não estamos adiantando o debate exatamente para propiciar para valer o debate com as legendas que possam eventualmente vir a se alinhar no primeiro turno.

Como está o diálogo com os prefeitos? Porque muitas regiões do interior de São Paulo ainda são redutos tradicionalmente tucanos. Como o PT atua para furar essa bolha?

Nós temos dialogado com muitos prefeitos, de vários partidos. Há partidos que têm ojeriza ideológica, mas quase todos não possuem essa restrição. E vários prefeitos sonham com uma mudança de poder no estado, sabem que São Paulo pode mais. Pode mais nas políticas educacionais, de segurança pública, de tecnologia, se nós vamos continuar assistindo ao esvaziamento industrial pela falta de ação do governo do estado, e assistir a empresas indo para fora do país ou para os estados vizinhos. Neste momento, você não vai encontrar muitos prefeitos falando, porque é quando eles estão demandando recursos, convênios com o governo federal e com o governo do estado. O momento dos prefeitos tomarem partido é o ano que vem.

Qual a importância da conjunção de forças da campanha de Haddad em São Paulo para a campanha do Lula em âmbito nacional? Como um fortalece o outro?

Lula vai estar na Bahia e o Haddad vai estar fazendo a campanha do Lula no estado de São Paulo. A campanha vai ser muito vinculada do ponto de vista de mostrar as vantagens para o povo paulista de um governo federal alinhado com o governo do estado. É só olhar os vários projetos que nós trabalhamos durante o governo Lula-Dilma.

O PT vem perdendo muitos prefeitos nos últimos anos. Em 2012, o partido teve mais de 600 prefeitos no país, e depois esse número foi caindo drasticamente. A próxima eleição para as prefeituras é só em 2024, mas o senhor possui essa preocupação?

Cada eleição é uma eleição, e você tem um processo de evolução do PT em crescimento contínuo até 2012. Em 2013, algo acontece. A reeleição da Dilma já foi muito trabalhosa, em 2016 a pior das eleições que o PT disputou, e de lá para cá chegou na situação de hoje. O panorama de 2022 é retomar esse processo de crescimento. Há possibilidade real e concreta de disputar a eleição presidencial. Evidentemente que não estou falando que o Lula está eleito, mas há possibilidades reais e concretas. Há possibilidades reais e concretas de disputar para valer o estado de São Paulo, e portanto assim aumentar a bancada federal e a estadual do PT. Isso remete para 2024 também outro resultado. São processos de retomada cíclicos, e creio que estamos entrando em um novo momento de crescimento.

A Alesp tem hoje 10 deputados do PT, existe a preocupação em aumentar essa oposição, já que hoje o governador João Doria consegue aprovar a maioria de seus projetos?

É preciso que os outros partidos, como PCdoB, PSol, PDT, PSD, Rede, também cresçam. Nós desejamos uma bancada de uma visão, que possa oferecer perfil com um mínimo de compromisso com a questão social, distribuição de renda, geração de empregos. A gente faz uma resistência ali muito difícil, com uma quantidade de deputados neste campo bem menor que o rolo compressor do PSDB. Eu creio que tanto o povo paulista quanto o povo brasileiro vai oferecer uma nova composição nas casas legislativas.

O PT se arrepende de não ter apoiado Guilherme Boulos nas eleições de 2020 para a Prefeitura de São Paulo, considerando que o desempenho do partido foi baixo?

Nós apoiamos [no segundo turno]. Não tem arrependimento. Se fosse o Fernando Haddad, de repente era o contrário, enfim. Quem saberia antes da eleição? Você tem situação, pode ser a situação do Boulos agora. Por que nós vamos exigir que o Boulos retire a candidatura e apoie o Haddad? O Boulos pode ter uma leitura que ele possa conseguir mais votos que o Haddad e, se tiver, contará com nosso apoio no segundo turno. Tranquilo, natural. Mas ano de eleição quem tinha certeza que o Boulos teria mais votos que Jilmar Tatto? A vida não é assim, e tem também a avaliação de quantas cadeiras você consegue eleger tendo ou não tendo um candidato majoritário, quantos deputados…

O PSol nunca nos apoiou, vamos deixar bem claro. ‘Ah, o Boulos apoiou o Lula, apoiou a Dilma’. Apoiou quando? Apoiou contra o impeachment e contra a prisão, a condenação, e nem todo o PSol apoiou, tem psolista até agora apoiando lavajatista. Então é preciso deixar muito claro essas questões para botar os pingos nos is em relação a esse debate. É um direito legítimo o PSol pensar em ter candidato, como era um direito legítimo do PT ter candidato na capital em 2020. E imediatamente anunciado o resultado, anunciamos apoio ao Boulos. E deve ser assim. A gente espera que seja assim com todos os partidos de esquerda. E nem todos têm agido assim, vide as viagens a Paris quando anuncia-se o resultado das urnas.

E nomes para o Senado, já foi definido?

Estamos tratando isso com muita cautela para não criar uma situação de fato consumado, de candidaturas petistas que depois têm a dificuldade de dar passo atrás. Estamos em aberto, isso mais lá para o começo do ano. Certamente vão aparecer naturalmente as lideranças para o Senado. O que eu tenho defendido é, em caso de não ter composição, uma liderança negra feminina na vaga do Senado.

E o senhor, pretende se candidatar a algum cargo em 2022?

Eu serei candidato a deputado federal. Em um debate dos companheiros dos metalúrgicos do ABC me chamaram, o próprio presidente Lula, então serei candidato a deputado federal.

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