Inscreva-se no canal MetrópolesTV no YouTube
Brasil

Governo Lula espera eleição nos EUA para definir rumos da relação bilateral

País passa por eleições de meio de mandato em meio a teste da capilaridade política e popularidade de Donald Trump

02/11/2026 04:00
Arte/Metrópoles
Imagem colorida mostra Donald Trump e Lula - Metrópoles

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) acompanha as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos e acredita que o pleito pode ser um termômetro dos rumos das relações com o Brasil. Os dois países enfrentam uma crise diplomática desde a aplicação do tarifaço a produtos brasileiros, que ganhou novos contornos após a fuga de Flávio Bolsonaro (PL) para Miami.

Receba no seu email as notícias de Boletim Metrópoles

Frequência de envio: Diário

Ver todas as newsletters

A avaliação entre interlocutores do governo petista consultados pelo Metrópoles é que a relação entre Brasil e Estados Unidos pode ter desdobramentos a depender do resultado das eleições de meio de mandato no país. O pleito vai renovar integralmente a Câmara dos Representantes e um terço do Senado, além eleger governadores para 36 estados americanos.

As chamadas midterms estão marcadas para esta terça-feira (3/11) e são vistas como um teste da capilaridade política e popularidade de Donald Trump no país, que corre o risco de perder a maioria do Partido Republicano nas duas Casas. Para o governo Lula, os temas agora paralisados da relação bilateral só devem ter andamento após o pleito, que detém toda atenção da gestão Trump.


Eleições de meio de mandato

  • As eleições de 3 de novembro vão definir o controle da Câmara dos Representantes e de parte do Senado;
  • Todos os 435 assentos da Câmara estarão em disputa, além de 35 das 100 cadeiras do Senado;
  • Atualmente, os Republicanos controlam as duas Casas, e uma derrota pode dificultar a aprovação da agenda legislativa de Trump;
  • Se os Democratas conquistarem uma ou ambas as Casas, Trump enfrentará mais obstáculos para aprovar projetos;
  • A oposição também poderá ampliar investigações sobre o governo, convocar autoridades e fortalecer a fiscalização do Executivo.

Relações paralisadas

A relação entre Brasil e Estados Unidos atravessa um período de incertezas e o calendário eleitoral dos dois países se tornou um fator adicional de pressão sobre as negociações bilaterais. Primeiro, a disputa presidencial brasileira concentrou as atenções de Brasília e Washington, diante da possibilidade de uma mudança de governo no Brasil.

Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles

Agora, com a reeleição de Lula e as midterms, o governo brasileiro aguarda sinais mais claros sobre os rumos da política externa do presidente Donald Trump. O cenário, até lá, mantém paralisado parte das tratativas comerciais e diplomáticas, em um momento em que os dois países ainda tentam superar divergências acumuladas desde o início do atual mandato norte-americano.

Entre os temas pendentes está a negociação do tarifaço. As tratativas chegaram a ser retomadas em agosto, após ligação entre Lula e Trump, mas perderam fôlego à espera do pleito brasileiro. Para membros da gestão petista, a inércia na Casa Branca era justificada pela incerteza sobre quem estaria à frente do Planalto após o pleito e, consequentemente, com quem Washington deveria negociar.

O compasso de espera, contudo, não significa que a relação bilateral esteja completamente paralisada, mas que decisões politicamente sensíveis podem ser postergadas até que os dois governos tenham maior clareza sobre o ambiente doméstico.

Governo Lula espera eleição nos EUA para definir rumos da relação bilateral - destaque galeria
3 imagens
Os presidentes dos EUA e do Brasil, Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva
Lula e Trump em foto oficial na Casa Branca
Presidente Lula em reunião com o presidente dos EUA, Donald Trump
1 de 3

Presidente Lula em reunião com o presidente dos EUA, Donald Trump

Ricardo Stuckert / PR
Os presidentes dos EUA e do Brasil, Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva
2 de 3

Os presidentes dos EUA e do Brasil, Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva

Ricardo Stuckert/PR
Lula e Trump em foto oficial na Casa Branca
3 de 3

Lula e Trump em foto oficial na Casa Branca

Ricardo Stuckert/PR

Eleições EUA e a crise com o Brasil

Por outro lado, o governo brasileiro acredita que as midterms podem mudar o rumo das relações com o Brasil. Com a possível renovação do Congresso norte-americano, Trump pode sair enfraquecido do pleito. No atual cenário, com maioria do Partido Republicano no Senado e na Câmara, o líder tende a aprovar pautas de seu interesse com mais facilidade e sem ser questionado.

Um Congresso com mais democratas pode favorecer a agenda de política externa do presidente Lula. A avaliação é que uma renovação dos deputados norte-americanos pode abrir portas para discussões como meio ambiente e regulação de big techs, temas que são do interesse do governo Lula mas não encontram eco na agenda conservadora de Donald Trump.

Isso não significaria, necessariamente, uma mudança imediata na postura da Casa Branca, já que o presidente mantém poderes relevantes sobre instrumentos comerciais e decisões de política externa. Por outro lado, uma mudança do cenário poderia ajudar a minimizar a crise entre os dois país, que enfrenta tensões desde o tarifaço.

A crise é endossada ainda pela relação entre o clã Bolsonaro e membros do governo norte-americano. Para o Palácio do Planalto, a relação entre os dois países tem sido prejudicada por essa coordenação, especialmente com o Departamento de Estado que nutre laços com aliados da família, como o próprio Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo.

Soma-se às tensões o apoio que a Casa Branca teria fornecido a Flávio Bolsonaro para deixar o Brasil. O senador descumpriu uma decisão judicial na última terça-feira (27/10) ao deixar o país e desembarcar em Miami, na Flórida, após obter vistos de permanência nos Estados Unidos.

O caso impõe mais um desafio à diplomacia brasileira, que busca evitar que o episódio seja tratado sob uma perspectiva política e que as tensões em torno do senador contaminem ainda mais a relação entre Brasília e Washington. A estratégia do governo Lula é preservar o caráter institucional das tratativas e impedir que o caso se transforme em mais um obstáculo à retomada do diálogo entre os dois países.