Governo Lula considera positivo Trump não ter citado Brasil em fala na ONU
Planalto preparou fala do presidente como “vacina” para eventual menção de Donald Trump ao Brasil na abertura da Assembleia Geral da ONU

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) considerou positivo o fato de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não ter citado o Brasil durante o discurso na abertura da 81ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, na terça-feira (22/9).
Segundo avaliação de auxiliares do titular do Planalto, o líder norte-americano poderia ter feito uma menção elogiosa a Lula, como ocorreu no discurso do ano passado, ou poderia ter feito alguma crítica ao país. Auxiliares do presidente brasileiro apostavam que Trump poderia citar o Brasil ao abordar o combate ao crime organizado na América Latina.
A estratégia do alto escalão do governo brasileiro foi preparar um discurso para Lula que funcionasse como uma espécie de “vacina” para a fala de Trump, que viria logo em seguida.
A ideia era deixar estabelecido que, caso o presidente dos EUA falasse sobre o Brasil, o contraponto e a defesa do país já teriam sido apresentados pelo presidente brasileiro.
No discurso, o norte-americano comparou cartéis de drogas ao grupo terrorista Estado Islâmico e disse que, desde que retornou à Casa Branca, em 2025, autorizou o Exército dos EUA a “eliminar” esses grupos. “Não são boas pessoas. São inimigos em guerra com a civilização”, afirmou o mandatário.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesAo falar sobre o tema, Trump direcionou críticas ao México e disse que o país é o “epicentro” da ação dos grupos armados. Também afirmou que o governo de Claudia Sheinbaum precisa “imediatamente retomar o controle de seu território”.
O republicano também citou a intervenção norte-americana na Venezuela, que capturou e prendeu Nicolás Maduro no início do ano, como uma ação bem-sucedida no combate a grupos armados. Trump afirmou que os EUA “aniquilaram” o comando da facção venezuelana Tren de Aragua.
A declaração de Trump ocorreu logo após o discurso de Lula, em que o petista voltou a defender a cooperação internacional no combate ao crime organizado, ressaltou a soberania nacional e rejeitou “terceirizar” o controle das fronteiras ou de instalações militares em território brasileiro.
“Não precisamos de porta-aviões em nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastecem o crime”, declarou. Em seguida, o titular do Planalto citou Trump: “Esse é o espírito da proposta que entreguei pessoalmente ao presidente dos Estados Unidos”.
Tradicionalmente, o representante do Brasil é o primeiro chefe de Estado a discursar na tribuna da ONU. Logo depois, fala o anfitrião, o presidente dos Estados Unidos — neste caso, Donald Trump. A sequência é uma das marcas do evento e coloca, no mesmo palco, diferentes visões sobre os principais temas da agenda internacional.
Escudo das Américas em ofensiva contra PCC e CV
- O governo Lula avalia que a declaração conjunta assinada nessa terça-feira (22/9) pelos países membros do Escudo das Américas, que classificou as facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações narcoterroristas, fortalece a implementação da política de segurança dos EUA para a América Latina.
- Na avaliação do Brasil, a medida é grave a longo prazo porque pode ser ampliada para outros pontos considerados estratégicos pelos EUA, como o controle de minerais críticos e terras raras da região e a blindagem dos territórios de investimentos da Rússia e, principalmente, da China.
- Foram listadas 24 organizações, incluindo o PCC e o CV, “independentemente de como sejam denominadas” em cada país. O documento prevê medidas como congelamento de bens, restrições de imigração e vistos e responsabilização criminal de pessoas que forneçam apoio material às organizações. O texto também registra a intenção dos países de atuar de forma individual e coletiva contra os grupos listados.
- O grupo é formado, além dos EUA, pelos governos da Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago.
- A coalizão foi criada pelo governo dos EUA para ampliar a cooperação regional em áreas como segurança, combate ao narcotráfico, compartilhamento de informações e atuação conjunta contra organizações criminosas. O Brasil não participa da iniciativa.
Sem encontro na ONU
No fim, Lula e Trump não se encontraram nos corredores da ONU. Havia a expectativa de que ocorresse um breve encontro, como ocorreu na edição do evento no ano passado, mas isso não se concretizou. Segundo fontes do Palácio do Planalto, também não houve pedido de reunião bilateral por parte dos governos brasileiro ou norte-americano.
Em 2025, os chefes de Estado tiveram um breve encontro nos bastidores do evento. Na ocasião, o norte-americano declarou, na tribuna da ONU, que teve “excelente química” com o brasileiro. Depois disso, os líderes tiveram uma série de reuniões e telefonemas que contribuíram para uma aproximação na relação entre os dois países.
A agenda do presidente brasileiro em solo norte-americano foi breve, e Lula embarcou de volta ao Brasil no início da tarde de terça-feira, logo após o discurso. Antes da fala na ONU, o presidente se reuniu brevemente com o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres.
No dia anterior, segunda-feira (21/9), Lula teve três reuniões com aliados internacionais em Nova York: o presidente do Uruguai, Yamandú Orsi; o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani; e o senador dos EUA Bernie Sanders.
A viagem foi planejada para ser curta em razão do período eleitoral. O compromisso ocorreu a menos de duas semanas do 1º turno das eleições.



















