Funcionários do Banco Mundial pedem que Weintraub seja investigado

Eles se queixam de que o ex-ministro da Educação pratica o compartilhamento de desinformação sobre a pandemia de Covid-19

atualizado 10/03/2021 13:48

Abraham WeintraubAndre Borges/Esp. Metrópoles

A Associação de Funcionários do Banco Mundial (BM) pediu uma investigação sobre as condutas de Abraham Weintraub, diretor-executivo da instituição e ex-ministro da Educação do Brasil.

Os funcionários se queixam de que Weintraub  compartilha desinformação sobre a pandemia de Covid-19, além de fazer campanha política para um cargo eletivo no Brasil.

A queixa foi enviada ao Comitê de Ética do BM, por meio de uma carta, datada em 24 de fevereiro de 2021. No documento, os trabalhadores afirmam que o comportamento de Weintraub é incompatível com os valores fundamentais da instituição. A informação foi divulgada nesta quarta-feira (10/3), pelo jornal Folha de S.Paulo.

O documento mostra publicações em que o ministro se posiciona contrário à vacina contra a Covid-19 produzida pelo Instituto Butantan. Além disso, os funcionários criticam a defesa do ex-ministro à cloroquina, medicamento sem eficácia comprovada contra a Covid-19, mas defendido pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e outros integrantes do governo.

Os funcionários também acusam Weintraub de “politizar a pandemia” ao fazer publicações criticando as ações do governador de São Paulo, João Doria (PSDB), na produção de imunizantes contra a Covid-19.

“Dado o papel crítico do Banco Mundial na luta contra a Covid-19 em todo o mundo, achamos inaceitável que um membro do Conselho Administrativo (muito mais do que qualquer outro membro da equipe) publique nas mídias sociais informações patentemente falsas, aparentemente com o objetivo de politizar a pandemia ou contribuindo para teorias da conspiração”, pontuaram os membros do banco.

Campanha para cargos políticos

A segunda queixa dos trabalhadores foi de que Weintraub está fazendo campanha para um cargo político no Brasil. Eles citam reportagens de fevereiro que afirmam a intenção do ex-ministro de se lançar candidato ao governo de São Paulo.

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Para os funcionários, a conduta aponta conflito de interesses.

“O Código de Conduta do Conselho, seção 2 (b), cita ‘a exigência de que nem as Organizações ou seus dirigentes interfiram nos assuntos políticos dos países membros’; e a seção 10 (a) dispõe que ‘os funcionários do conselho não devem se envolver em atividades externas incompatíveis com o desempenho adequado de suas funções”, ressaltaram.

A reportagem do Metrópoles procurou o escritório nacional do Banco Mundial para prestar esclarecimentos, mas a instituição afirmou que “não comenta sobre discussões internas”.

Investigações

Weintraub faz parte da diretoria-executiva do Banco Mundial desde julho de 2020. Ele foi eleito por um grupo de países composto por Brasil, Colômbia, República Dominicana, Equador, Haiti e outras nações. Em outubro, o ex-ministro foi reeleito para cumprir um mandato de dois anos.

Antes da nomeação ao cargo, a Associação de Funcionários havia pedido ao Comitê de Ética que entrada de Weintraub no cargo fosse suspensa para que os discursos racistas em relação à China e os ataques ao Supremo Tribunal Federal (STF), proferidos pelo ex-ministro, fossem investigados.

Leia a íntegra da carta enviada pelos funcionários do Banco Mundial, disponibilizada pelo jornal Folha de S.Paulo:

Em 24 de junho de 2020, a Assembleia de Delegados da Associação de Funcionários do Banco Mundial trouxe à atenção do Comitê de Ética alegações sobre comentários racistas e acusações criminais relacionados ao Sr. Abraham Weintraub, que na época estava sendo nomeado para diretor-executivo. Seus antecessores responderam prontamente que o Código de Ética se aplicava apenas prospectivamente [quando Weintraub se tornasse, de fato, funcionário], implicando que o Comitê de Ética deveria ignorar tais alegações e acusações.

No entanto, a Associação de Funcionários continua a ouvir preocupações dos funcionários sobre o comportamento e as ações do Sr. Weintraub enquanto ele é um membro ativo da diretoria do banco e, portanto, deseja trazer essas preocupações à sua atenção. Existem duas categorias de preocupações:

Desinformação sobre coronavírus:

O Sr. Weintraub tuitou várias vezes contra a vacina contra o coronavírus produzida pelo Instituto Butantan, do Estado de São Paulo (onde o governador de São Paulo é um adversário político do Sr. Weintraub e do Sr. Bolsonaro): exemplos aqui. Neste vídeo no YouTube de 16 de janeiro (trechos transcritos em inglês abaixo), o Sr. Weintraub busca oferecer ‘evidências científicas’ para atestar que a hidroxicloroquina é um tratamento eficaz contra Covid-19; e afirma que as múltiplas mutações do vírus são uma indicação clara de que ele foi fabricado em laboratório.

Ambas as questões foram desacreditadas pela comunidade científica. Dado o papel crítico do Banco Mundial na luta contra a Covid-19 em todo o mundo, achamos inaceitável que um membro do Conselho Administrativo (muito mais do que qualquer outro membro da equipe) publique nas mídias sociais informações patentemente falsas, aparentemente com o objetivo de politizar a pandemia ou contribuindo para teorias da conspiração.

Fazendo campanha para cargos políticos:

O Sr. Weintraub parece estar fazendo campanha para um cargo político no Brasil ao mesmo tempo em que é funcionário do Grupo Banco Mundial. De fato, foi noticiado dia 19 de fevereiro, em rodada de imprensa em nosso próprio site, cuja primeira linha é: ‘Ex-ministro da Educação, Abraham Weintraub se lançou como candidato ao governo de São Paulo, diretamente de Washington, Estados Unidos, onde atua como diretor do Banco Mundial.’

Este parece ser um claro conflito de interesses. O Código de Conduta do Conselho, seção 2 (b), cita ‘a exigência de que nem as Organizações ou seus dirigentes interfiram nos assuntos políticos dos países membros’; e a seção 10 (a) dispõe que ‘os funcionários do conselho não devem se envolver em atividades externas incompatíveis com o desempenho adequado de suas funções. Os funcionários do conselho devem obter a autorização prévia do Comitê de Ética para todas as atividades fora das funções oficiais.’

Com base nisso, a Associação de Funcionários solicita formalmente que o Comitê de Ética da Diretoria investigue o comportamento e as ações do Sr. Weintraub, conforme alegado pela equipe do Grupo do Banco Mundial, para garantir que eles estejam de acordo com o Código de Conduta da Diretoria e com nossos valores fundamentais.

Sinceramente,

Comitê Executivo da Associação de Funcionários do Banco Mundial

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