Farmácias usam fake news para vender remédio antipiolho contra Covid-19

Funcionários da Rede Farmácia dos Trabalhadores de Goiás não obedecem recomendações do Ministério da Saúde e oferecem ivermectina

Remédoio antipiolho invermectinaDivulgação

atualizado 25/06/2020 13:23

Pelo WhatsApp, funcionários da Rede Farmácia dos Trabalhadores de Goiás compartilham fake news para convencer a população a comprar frascos do medicamento ivermectina, que age no combate a vermes e parasitas, com o argumento de que “inibe até 93% o vírus da Covid-19 nas primeiras 48 horas”.

Ainda segundo a mensagem, o remédio tem um tempo de “ação no corpo de até seis meses”. Com sede em Caldas Novas, a rede tem 15 unidades distribuídas em seis municípios goianos (Catalão, Itumbiara, Goiatuba, Rio Verde, Santa Helena de Goiás, além de Caldas Novas) e três unidades em Uberlândia (MG).

Além do aplicativo de mensagens, os pedidos podem ser feitos nos balcões ou por telefone. Foi assim que a reportagem do Metrópoles comprou um frasco na unidade de Catalão, entregue por um motoqueiro na tarde da última quarta-feira (17/06).

Sem nenhuma restrição, o cliente pode comprar qualquer quantidade. O medicamento traz na caixa a orientação de venda apenas com prescrição médica. Mesmo assim, é vendido sem receituário.

Sem normativa de utilização para o tratamento do novo coronavírus, em pelo menos quatro unidades balconistas deram orientações conflitantes de como o antiparasitário agiria no organismo do cliente para evitar o contágio ou diminuir os sintomas da Covid-19.

O remédio, no entanto, não é recomendado pelo Ministério da Saúde nem pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Conforme uma fonte que pediu anonimato, alguns dos 250 funcionários da rede fizeram o uso do medicamento para prevenção do contágio.

A cada 30 quilos

Em uma das unidades de Caldas Novas, a reportagem ouviu como recomendação para o uso do medicamento: “A cada 30 quilos você usa um comprimido. Uma pessoa de 90 quilos pode tomar três”.

Na unidade de Goiatuba, o atendente orienta: “Toma dois cedo e um de noite”. Ele não sabe explicar, no entanto, em que o medicamento pode contribuir para o “tratamento” da Covid-19.

Em Catalão, por telefone, o funcionário ainda comemora que empresas têm comprado grandes quantidades e que o estoque está acabando. “Assim evita ficar sem funcionário na empresa se ele pegar coronavírus”, assegura.

Uma farmacêutica da unidade de Itumbiara se atrapalha ao orientar a forma de uso do comprimido. “A pessoa pode tomar um comprimido a cada 30 ou 35 quilos. Cada loja orienta de uma forma. Tenho pacientes médicos que já fizeram o uso”, conta.

Quanto ao efeito, ela acredita que, caso alguém contraia o vírus e tome um comprimido, “os efeitos seriam menos agressivos”. Quando é procurada por empresas, ela orienta a compra porque “talvez inibe o contágio”. Segundo ela, apenas a sua loja vendeu 8 mil caixas para hospitais do Rio de Janeiro. A rede teria vendido também para o Pará.

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Azitromicina

A mesma farmacêutica conta que, preocupada com a pandemia, usou azitromicina e pretende usar o ivermectina. “Eu, como farmacêutica, acho ideal.” Sem especificar quem, ela justifica: “Eles falam que deve ser nas primeiras 48 horas. A cada 15 dias ou uma vez por semana”.

Ela ainda que conta que médicos de um hospital em frente a uma unidade de Catalão disseram que poderia oferecer o medicamento para qualquer pessoa.

Por telefone, o farmacêutico da loja 12 da rede, que fica no bairro Jardim Canaã em Uberlândia, confirma que o medicamento vem sendo vendido como prevenção ao novo coronavírus. Apesar disso, não confirma a eficácia do tratamento e resume: “Os médicos estão receitando”.

Na unidade 14, também em Uberlândia, no bairro Luizote de Freitas, o farmacêutico traz uma novidade ao ser perguntado sobre a forma do uso: “Além do uso de um comprimido a cada 30 quilos, depois de 7 dias precisa repetir a dosagem”. Nas duas lojas, qualquer pessoa consegue comprar sem receita médica.

Cada caixa do medicamento sai com valor médio de R$ 20 e vem com quatro comprimidos. A ação do ivermectina, de acordo com a bula, “se dá por meio da paralisação da musculatura de vermes e parasitas, ocasionando suas mortes e eliminando-os do corpo”.

Eliminação de lombrigas

Médicos prescrevem o medicamento para o tratamento de parasitários, como piolhos e sarnas. Também é utilizado para cuidados com elefantíase e eliminação de lombrigas. A orientação para a dosagem também varia de acordo com o tratamento.
Na bula, o paciente é orientado a usar o ivermectina em dose única, com retorno ao médico para avaliar uso de nova dose.

Entre os efeitos colaterais da bula, atualizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 22 de maio de 2013, estão diarréia, náuseas, falta de disposição, dor abdominal, vômitos, diminuição da pressão arterial e aumento da frequência cardíaca.

O nome do antiparasitário tomou as redes sociais depois que a médica Lucy Kerr afirma em um vídeo que tratou 20 pacientes com o ivermectina e que o novo coronavírus “tem cura”.

Pesquisas sobre o uso do ivermectina ainda são iniciais. Ao Projeto Colabora, a médica disse que nenhum dos pacientes que “curou” fez testagem para a Covid-19.

Anvisa e FDA

Enquanto no Brasil a Anvisa não emitiu nenhum comunicado para o uso da droga. A agência apenas ressalta que a ivermectina está registrada como “medicamento contra infecções causadas por parasitas”. Já a autoridade sanitária dos Estados Unidos, a FDA, alertou os americanos em relação ao uso das pílulas pelos pacientes de Covid-19.

Para a assessora técnica do Conselho Regional de Farmácia de Goiás (CRFG), Cristina Lemos, caso não sigam orientações técnicas e científicas, farmacêuticos podem sofrer processo ético na entidade.

“Precisamos promover o uso racional e não por ganância, não pensar no lado financeiro. Fazer divulgação de medicamento, principalmente falsa, sem seguir o protocolo de uso durante a pandemia é perigoso. Nós, profissionais, precisamos obedecer ao Ministério da Saúde”, ressalta.

Outro lado

Procurada, a rede de Farmácia dos Trabalhadores de Goiás informou, em nota, que colaboradores e funcionários não foram e jamais serão orientados a adotar condutas divergentes àquelas determinadas pelos órgãos de regulação e fiscalização.

A rede alegou ainda que a reportagem é “rasa em fundamento fático e documental”, apesar de o Metrópoles ter registrado as conversas e compartilhado o print da mensagem de WhatsApp citada na matéria com a própria defesa.

“Em nenhuma das 16 lojas da rede distribuídas em Goiás e em Minas Gerais a comercialização do medicamento ivermectina foi realizada sem a adequada prescrição médica”, garantiu a farmácia, que negou também ter realizado a venda de caixas do medicamento para hospitais do Rio de Janeiro e do Pará.

Por fim, a farmácia informou que vai tomar as medidas judiciais cabíveis.

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