Estudo da CNC associa crescimento do endividamento a bets
Levantamento aponta que aumento no endividamento das famílias coincide com elevação nos gastos com bets
atualizado
Compartilhar notícia

Um estudo da Confederação Nacional do Comércio (CNC), com base em dados do Banco Central, aponta que o aumento do endividamento das famílias no Brasil coincide com o período de elevação dos gastos com jogos on-line, as bets.
O levantamento, intitulado “Impactos das Apostas Online (Bets) no Endividamento e Inadimplência das Famílias Brasileiras”, foi divulgado nesta terça-feira (28/4) pelo economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, na sede da instituição em Brasília.
Segundo estudo, desde janeiro de 2023 os gastos com apostas on-line passaram de “praticamente zero” para mais de R$ 30 bilhões mensais em março deste ano, representando um crescimento de mais de 500% em três anos.
“Este crescimento explosivo coincide temporalmente com o aumento nos indicadores de endividamento e inadimplência, sugerindo uma relação causal entre os dois fenômenos”, diz trecho do documento.
O estudo diz que cerca de 269 mil famílias se tornaram inadimplentes devido às apostas on-line, sendo que a maior parte delas está entre as camadas de renda mais baixa da população, de até cinco salários mínimos.
“Ao observar os indicadores na faixa de renda mais alta, acima de dez salários mínimos, nota-se que houve redução das dívidas formais, mas aumento dos atrasos de pagamentos com o desvio de recursos para apostas”, afirma o texto.
Além disso, o levantamento afirma que o impacto é maior entre homens, pessoas com 35 anos ou mais e indivíduos com maior escolaridade, o que, segundo a CNC, sugere que o acesso digital e a bancarização das famílias mais escolarizadas podem facilitar uma maior exposição ao risco.
A CNC aponta como uma das causas do crescimento do endividamento a expansão dos gastos em plataformas de aposta on-line, com efeitos marcantes na inadimplência severa e no tempo médio de atraso.
“O fenômeno das Bets está deteriorando a saúde financeira das famílias, exigindo a rápida implementação de políticas públicas regulatórias e de proteção”.
Como forma de mitigar o problema, a CNC afirma que é necessário investir em mecanismos de proteção aos consumidores, principalmente dos grupos mais vulneráveis, além de avançar na regulamentação das publicidades sobre as bets, considerada “agressiva” pela confederação.
Ainda, a entidade prevê que os programas de educação financeira devem ser expandidos, com foco no público mais escolarizado e com maior acesso digital.
Para elaboração do estudo, a CNC utilizou o modelo de Diferenças em Diferenças (DiD), que requer apenas dados pré e pós-tratamento, ou seja, antes e depois de janeiro de 2023, não exigindo múltiplas defasagens.
Outro ponto do estudo é que o comércio perdeu mais de R$ 143 bilhões em vendas devido ao alto endividamento da população, que tem relação com o crescimento dos jogos em bets.
Instituto Brasileiro de Jogo Responsável
Apesar disso, o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) afirmou que o estudo divulgado pela confederação parte de uma premissa “completamente desalinhada com os dados oficiais”. Para o IBJR, as conclusões divulgadas pela CNC são “alarmistas” e contrariam as métricas oficiais recentemente apuradas pelo Estado brasileiro.
“Dados Oficiais da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA/MF): O balanço oficial do primeiro ano completo do mercado regulado apontou que a receita bruta total (GGR) das empresas em 2025 foi de R$ 37 bilhões. Este valor, que corresponde ao arrecadado descontando os prêmios pagos aos apostadores, evidencia que a estimativa da CNC de R$ 240 bilhões destinados às apostas é insustentável na realidade”, afirmou em nota.
