“Esquerdistas são anticristãos”, diz padre durante missa em GO; vídeo

Padre há três anos, após desistir da medicina, Pablo de Faria aparece em vídeo dizendo que a esquerda é contra a igreja. "Converta-te", diz

atualizado 20/07/2021 17:27

Padre Pablo Henrique, de Iporá (GO)Reprodução

Goiânia – O padre Pablo Henrique de Faria, de 43 anos, que é médico, declaradamente de direita e apoiador do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), disse durante homilia numa Santa Missa da Paróquia São Paulo VI, em Iporá, cidade do oeste goiano, que movimentos de esquerda e esquerdistas são anticristãos.

A fala foi transmitida ao vivo, durante a celebração do dia 9/7. No momento, ele refletia sobre uma passagem da Bíblia que fala, metaforicamente, sobre os “lobos” que tentam destruir a igreja. Ele faz a relação dos “lobos” citados no texto como se fossem os adeptos de pensamentos de esquerda nos dias atuais.

“Nós estamos vivendo o momento mais dramático que eu já vi. Eu não poderia imaginar, há 10 anos, o que estamos vivendo hoje. É assustador. E que fique bem claro: movimentos esquerdistas são anticristãos. Se você é esquerdista, desses partidos, converta-te. Não é cristão, caramba! Não misture”, disse ele.

Veja:

Conservadorismo

Em seu perfil pessoal no Instagram, Pablo acumula postagens de cunho conservador, que abordam temas como o aborto, defesa do voto impresso, a identidade de gênero, a transexualidade e outros. Na fala dita durante a missa do dia 9/7, inclusive, ele cita uma suposta defesa que estaria sendo feita para o uso de linguagem neutra nas escolas. “Linguagem neutra é aquela estupidez: ‘todes'”, afirma o padre.

Para ele, os jovens de hoje estariam sendo utilizados como massa de manobra para defender temas e posições anticristãs. “Eles (os esquerdistas) agem o tempo inteiro para a imoralidade, para destruir a família, os valores cristãos. Os coitados dos homossexuais, usados de massas de manobra, criam todas essas manifestações contra a moral”, argumentou.

Pablo é padre há três anos, somente. Até então, ele exerceu a profissão de médico, mas diz ter se desencantado durante o processo de residência e especialização em Otorrinolaringologia. O processo de conversão ocorreu, após experiência na igreja em São Paulo e, em seguida, cinco anos de estudo em Roma, na Itália.

“Filho de papaizinho”

Natural de São Luís de Montes Belos, cidade que fica a 135 quilômetros de Goiânia, ele se diz de família de classe média, estruturada e que teve uma infância e adolescência tranquilas. O pai era funcionário do Banco do Brasil e a mãe vendia roupas.

“Meus pais são de classe média, puderam me dar tudo para que eu pudesse estudar. Eu nunca trabalhei na infância nem na adolescência, pagaram os melhores colégios. Eu morava no interior, depois fui fazer cursinho (em Goiânia)”, relata Pablo em um vídeo disponível no YouTube.

Ele cursou medicina na Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e assume ter escolhido a residência em otorrinolaringologia para que pudesse ter uma vida tranquila e um ganho bom de dinheiro. No processo de estudo, no entanto, ele se esbarrou com hierarquias e rotinas de trabalho que o fizeram refletir sobre a continuidade na profissão.

“Trabalhava praticamente todos os dias até 21h, 22h. Tinha que acordar 4h, 4h30 para olhar vários pacientes. Existia uma hierarquia muito pesada. E o pior de tudo, para um filho de papaizinho que não era acostumado a sofrer muitas retaliações, era a hierarquia de alguém gritar, sempre chamar sua atenção por qualquer coisa”, conta ele no vídeo.

O relato completo da conversão dele está neste vídeo:

Desde 2018, ele é o padre à frente da paróquia em Iporá, designado pela Diocese de São Luís de Montes Belos. O Metrópoles entrou em contato com a paróquia e falou com o padre nesta terça-feira (20/9). Ele solicitou que perguntas fossem enviadas para ele responder por escrito. Veja as respostas dele abaixo.

Em relação à Diocese, as ligações da reportagem não foram atendidas, e foi feito um contato por e-mail com o chanceler, padre Paulo Ricardo Moreira Vivaldo. O espaço segue em aberto.

Respostas do padre Pablo Henrique de Faria

Na Santa Missa do dia 09/07, o senhor fala durante uma homilia que movimento de esquerda e esquerdistas são anticristãos. Diz, ainda, que quem pertence a partidos de esquerda devem se converter. O que o senhor quis dizer com isso? Esquerdistas não devem frequentar a igreja? Não são cristãos?

Cumprimento a todos do jornal e todos que lerão minha resposta. Apesar de ter sido uma homilia em uma paróquia para pessoas que me conhecem e sabem bem do contexto o qual a fala foi inserida, essa homilia acabou sendo transmitida em canais nacionalmente e acho que merece ser esclarecida. Com relação a essa primeira pergunta, existem muitos erros de interpretação, mas com um fio de verdade. Primeiro quando me refiro a “movimentos esquerdistas” me refiro a levantar bandeiras para partidos de esquerda independente da pauta que defendem. Esse erro pode ocorrer também no outro extremo, quando se defende cegamente pautas de direita sem avaliá-las criticamente, usando a fé e a moral cristã, o que poderia ser chamado de “movimento direitista”. Essa é a primeira grande crítica feita na homilia: defender cegamente um movimento sem analisar se as pautas são contra a fé e/ou contra a moral católica. Isso serve principalmente de alerta aos que estão coligados aos partidos de esquerda, ou seja, não defender tudo que seja proposto pelo partido simplesmente por estar coligado a ele. Mas claro que quem está coligado a um partido de esquerda e não comunga com os projetos de lei contra a fé e a moral, não estão imputados de culpa somente por estarem no partido. Isso acontece muito, por exemplo, a nível municipal e estadual, onde os coligados não estão envolvidos em projetos de lei nesse sentido. Por outro lado, existe uma agenda de projetos de lei contra a liberdade, contra a fé, contra a família e contra a vida, que são valores invioláveis e inegociáveis para a fé cristã, que são quase sempre apoiados por membros dos partidos de esquerda. Os que são católicos e apoiam as pessoas que já defenderam ou promulgaram qualquer projeto de lei nesse sentido, devem se converter e colocar os projetos de Deus acima do partidarismo. Esse é o contexto inserido.

– Só pode frequentar a igreja católica quem é de direita?

Com relação a frequentar a Igreja ou não, na pergunta vejo um pouco de falta de conhecimento sobre o que seja a igreja, principalmente o seu papel, e sobre o que seja conversão. Primeiro a Igreja é mãe, e acolhe a todos, sem exceção. Mas ao mesmo tempo que acolhe ela aponta o projeto divino de santidade: aceitar a natureza recebida, viver a pureza nos relacionamentos com outros seres humanos, o dever do amor, o respeito à vida, a sacralidade da família, os deveres como cristãos em geral. É um projeto exigente e que requer uma decisão do cristão radical: ser santo. Ora para isso todos nós precisamos de conversão contínua e diária, principalmente eu que tenho que servir de exemplo. Ou seja, chamar à conversão é chamar para participar da igreja cada vez mais, mesmo que as opiniões não estejam de acordo com o padre, ou bispo ou papa. É ali na Igreja que Deus pouco a pouco convence quem está errado a mudar e reforça quem está certo a perseverar. Então quanto a quem deve frequentar a igreja, eu respondo: todos. E quanto aos que chamo a conversão, ao invés de ser interpretado como pedido de afastamento da igreja, é, muito pelo contrário, um chamado a participar mais de perto dela. Quando eu digo converta-se está implícito: venha mais à igreja; estude mais; questione pessoalmente o pastor; reze mais; participe mais, e assim por diante. Então resumindo, devem frequentar a igreja todos que queiram se aderir sem reservas à verdade apresentada por Cristo, e pela Igreja (mesmo que inicialmente não esteja de acordo com elas. Desde que não pare de buscar a verdade). E quem recebe esse título de cristão é quem interiormente se adere a essas verdades, mesmo que exteriormente muitas vezes caia, e peça perdão, procure a confissão e retome a sua busca.

– Com essa fala, o senhor não teme a divisão dentro da igreja e, de certa forma, até o afastamento de parte dos fiéis?

Aqui acho que o que se deve analisar é o seguinte: o que seria essa unidade que se busca? Unir-se em “verdades relativas” (mentiras)? Cada um tem a sua verdade e cada um age como quer? Mas aí entra em contradição intrínseca com a radicalidade de Cristo, que deu a vida por essas verdades. Eu mesmo, antes era médico, tinha uma vida tranquila, pensava em me casar. De repente, para me aderir a Cristo renunciei a grande parte disso, e hoje livremente decidi ser obrigado a viver até mesmo o celibato. Isso seria violência? Não vejo assim. Se a divisão se relaciona a dividir os que querem seguir a Cristo e os que não querem seguir a Cristo, mas a si mesmos ou a ideologias, digo que essa divisão é inevitável. Até porque faz parte do misterioso livre-arbítrio que Deus nos deu: Deus leva a sério nossas decisões. Interessante notar como que hoje, numa sociedade relativista, apresentar abertamente as verdades de Cristo é tido como violência e discurso de ódio. Na verdade, é a maior proposta de amor já vista pela humanidade. Afinal de contas, foi ele que morreu na cruz como fruto da violência dos que não aceitaram a proposta de verdade que ele ensinou, mas levando em consideração a sua onipotência, podemos dizer que ele deu a vida por suas verdades como fruto total do puro amor. Ensinar a verdade não é violência: é amor. O pai que ama não deixa o filho fazer o que quer, mas o guia e corrige. Continuaremos chamando a todos para se aderir a esse projeto de amor e salvação, mas aos que não querem não iremos forçá-los ou ameaçá-los para seguir. Mas também pedimos a liberdade de propor essa radicalidade, sem ser ameaçado por quem não as aceita.

– Como o senhor avalia a inserção de pensamentos políticos no raciocínio do evangelho? Em postagens na internet, em seu perfil pessoal, o senhor mantém a prática de se posicionar politicamente, inclusive favorável a pensamentos e posições do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). O senhor é um apoiador do presidente?

Acho que não seja difícil de se notar no Brasil e no mundo, que a cada dia tem-se usado dos três poderes políticos para se inserir projetos de lei que ferem aquilo que citei acima (liberdade de culto, a fé, a moral, a vida e a família). Todo cidadão está inserido em um contexto político, que pode favorecer a fé ou pode impedi-la parcialmente (países socialistas) ou totalmente (países comunistas). Na verdade, qualquer governo totalitário tende a roubar a liberdade de culto a querer impor suas regras em detrimento das de Cristo. Então logicamente, o cristão deve estar totalmente inserido no contexto político lutando por seus direitos e valores. Além de ser dever do pastor sim alertar os fiéis sobre projetos que estão sendo tramando contra a fé e a moral, antes que em pouco tempo nossos fiéis não encontrem mais um meio social que favoreça p crescimento na fé e na virtude, ou mesmo antes de criarem leis que limitem parcialmente ou totalmente o cristão de exercitar a sua fé. Como eu disse, defendo na política esses valores, que hoje, tem coincidido na sua grande parte com o governo atual, e por isso o apoio. Se amanhã esse governo mudar de posição com relação a esses valores inegociáveis do cristianismo, no mesmo instante buscarei um outro que lute pelos mesmos. Isso me faz ser apenas um pastor, e não um direitista, como tantos querem rotular.

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