Inscreva-se no canal MetrópolesTV no YouTube
Eleições 2026Brasil

Entidades cobram propostas para PcDs em documento entregue a candidatos

Documento propõe 69 metas para ampliar a inclusão de pessoas com deficiência (PcDs) e combater barreiras em oito áreas até 2030

18/08/2026 09:00
Hugo Barreto/Metrópoles
Mulher de costas em cadeira de rodas - Metrópoles

Ampliar em 70% os vínculos formais de trabalho de pessoas com deficiência (PcDs), garantir que 70% dos profissionais da educação tenham formação em práticas pedagógicas inclusivas e estruturar um sistema nacional de resposta às violências contra o grupo. Essas são algumas das 69 metas que compõem o Pacto 33: Recomendações para um Brasil Anticapacitista (2027 a 2030), lançado pela Rede Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Rede In) e entregue nesta terça-feira (18/8) às candidaturas ao Executivo e ao Legislativo nas eleições deste ano.

Segundo o Censo Demográfico de 2022, o Brasil tem 14,4 milhões de pessoas com deficiência, o equivalente a 7,3% da população com dois anos ou mais, além de 2,4 milhões de pessoas autistas.

A Rede In, formada por 14 organizações da sociedade civil, avalia, no entanto, que esse número pode estar subdimensionado. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que cerca de 15% da população mundial tenha alguma deficiência.

O documento reúne oito propostas estratégicas e 69 metas, com prazos entre 2027 e 2030. A proposta é que os compromissos sejam incorporados aos programas de governo e de mandato dos eleitos e que a própria sociedade acompanhe o cumprimento das medidas e a transformação das promessas em políticas públicas.

Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles

“O Pacto 33 existe porque os direitos humanos das pessoas com deficiência ainda encontram inúmeras barreiras para serem efetivados no cotidiano. Queremos contribuir para que o próximo ciclo governamental transforme direitos já reconhecidos em políticas públicas concretas, com metas, prazos, responsabilidades e acompanhamento”, afirma Ana Cláudia M. de Figueiredo, diretora executiva da Rede In.

Trabalho: cota existe, mas inclusão não avança

A inclusão de pessoas com deficiência no mercado formal segue distante da média nacional e ainda depende, quase exclusivamente, da força da lei.  A taxa de ocupação do grupo é de 26,6%, menos da metade dos 60,7% registrados entre pessoas sem deficiência, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A cota legal, criada para ampliar a inclusão no mercado de trabalho e que deveria corrigir essa desigualdade, também não é cumprida na prática: no primeiro semestre de 2025, o país teve 63.328 novas contratações de pessoas com deficiência ou reabilitadas, mas apenas 54% das vagas reservadas por lei estavam preenchidas.

Das cerca de 634.650 pessoas com deficiência empregadas hoje no setor formal, mais de 93% estão em empresas obrigadas por lei a cumprir a cota – evidência, segundo o diagnóstico da Rede In de que sem fiscalização a inclusão não avança.

Receba no seu email as notícias de Boletim Metrópoles

Frequência de envio: Diário

Ver todas as newsletters

Educação: inclusão sem preparo docente

Na educação, o documento reconhece o aumento das matrículas de estudantes com deficiência na rede regular de ensino nos últimos anos. A proporção de alunos com deficiência matriculados em classes comuns, em vez de turmas ou escolas especiais segregadas, passou de 46,8% em 2007 para 93,5% em 2025.

Segundo o Pacto 33, no entanto, o avanço das matrículas não foi acompanhado de preparo suficiente das escolas e dos profissionais da educação.

Uma das metas centrais do eixo é garantir que, até 2030, ao menos 70% dos profissionais da educação – em todos os níveis, etapas e modalidades de ensino – tenham acesso a formação inicial e continuada em práticas pedagógicas acessíveis e anticapacitistas.

Violência: denúncias em alta

O terceiro eixo em destaque trata da violência contra pessoas com deficiência, classificada no diagnóstico da Rede In como um problema “epidêmico” e ainda pouco mapeado no país.

Em 2023, o Disque 100 registrou mais de 394,4 mil denúncias de violência contra pessoas com deficiência, alta de cerca de 50% em relação a 2022. Entre as ocorrências mais frequentes estão negligência, exposição a riscos à saúde, maus-tratos e abuso psicológico.

O documento também cita o Atlas da Violência 2025, segundo o qual crianças com deficiência têm risco de sofrer violência até 3,7 vezes maior do que outras crianças. Nos casos de violência sexual contra crianças com deficiência intelectual e psicossocial, o risco chega a 4,6 vezes.

Diante desse cenário, o Pacto 33 propõe a criação de um sistema nacional de proteção e resposta às violências contra pessoas com deficiência, com coordenação intersetorial e apoio à implantação de protocolos de escuta e acolhimento em unidades policiais.

Cobrança às candidaturas

Além dos eixos de trabalho, educação e violência, o Pacto 33 aborda outros cinco temas: avaliação da deficiência, capacidade jurídica, vida independente, seguridade social e acessibilidade.

O texto ainda propõe nove diretrizes de governança, como a incorporação das metas ao Plano Plurianual, à Lei de Diretrizes Orçamentárias e à Lei Orçamentária Anual, além da criação de um Fundo Nacional dos Direitos das Pessoas com Deficiência.

Integram a Rede In a Associação Nacional de Membros do Ministério Público de Defesa da Pessoa com Deficiência (AMPID); a Associação de Pais, Amigos e Pessoas com Deficiência de Funcionários do Banco do Brasil e da Comunidade (APABB); a Associação Amigos Metroviários dos Excepcionais (AME); a Escola de Gente, Comunicação em Inclusão; a Federação Nacional do Emprego Apoiado (FANEA); a Federação Brasileira das Associações de Síndrome de Down (FBASD); o Instituto JNG, Moradia para a Vida Adulta Independente; o Instituto Jô Clemente (IJC); o Instituto Rodrigo Mendes (IRM); a Mais Diferenças; a Mangata, Coletivo Brasileiro de Pesquisadoras e Pesquisadores dos Estudos da Deficiência; o Movimento Brasileiro de Mulheres Cegas e com Baixa Visão (MBMC); a Rede Brasileira do Movimento de Vida Independente (Rede MVI); e a Visibilidade Cegos Brasil (VCB).