Instabilidade nos sistemas do TSE alimenta extrema direita, dizem analistas

Bolsonaro e aliados têm insistido que urnas eletrônicas estimulam fraudes, e falhas nos sistemas turbinam teorias da conspiração

atualizado 16/11/2020 16:43

Ministros acompanham a apuração dos votos em frente ao telão montado no TSE eleicoes 2020Igo Estrela/Metrópoles

Em meio a disputas acirradas nas principais capitais do país, o primeiro turno das eleições municipais deste ano, realizado nesse domingo (15/11), foi marcado por uma série de instabilidades em sistemas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o que alimentou uma série de “teorias da conspiração” sobre fraudes e apelos à volta do voto impresso.

Nessa noite, uma falha em um dos processadores do supercomputador do TSE causou lentidão na totalização dos votos e, até o meio da noite, cidades como São Paulo (SP) e Rio de Janeiro (RJ) – os maiores colégios eleitorais do país – ainda não tinham um resultado definido. Só no finzinho da noite, a divulgação deslanchou.

Um atraso como esse nunca tinha acontecido, desde a primeira votação com urnas eletrônicas, em 1996.

Além disso, o TSE foi alvo de um ataque hacker que partiu de várias origens, inclusive Brasil, Estados Unidos e Nova Zelândia. Os criminosos tentaram derrubar o sistema de votações do país, mas não obtiveram sucesso, segundo o presidente do tribunal, ministro Luís Roberto Barroso.

No Brasil, a primeira votação com urna eletrônica aconteceu nas eleições municipais de 1996 e, desde então, essa demora na divulgação das apurações dos votos jamais tinha acontecido. As “instabilidades” surgem em meio a um cenário em que grupos de extrema direita tentam desacreditar as instituições.

Sem perder tempo, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) voltou a falar que defenderia um projeto de lei (PL) para dar “mais segurança na apuração das eleições”. “Se já tivesse sido implementado o voto impresso as eleições estariam garantidas, fora a questão da transparência e auditoria”, escreveu em uma rede social.

As alegações do filho “03” do presidente Jair Bolsonaro foram seguidas por aliados fiéis ao bolsonarismo, como a deputada Carla Zambelli (PSL-SP), o presidente do PTB, Roberto Jefferson, e os blogueiros Allan dos Santos e Oswaldo Eustáquio. A tag #ApuraçãoSecretaÉFraude figurou entre as mais comentadas.

Em conversa com o Metrópoles, o cientista político e professor do Insper Carlos Melo avalia que a instabilidade provocada no sistema de divulgação de votos e o ataque hacker contra o TSE ocorreram justamente em um “péssimo ano”, após as conturbadas eleições presidenciais nos Estados Unidos.

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O atual presidente dos EUA, Donald Trump, do Partido Republicanos, tem alegado – sem provas e incansavelmente – que o presidente eleito, o democrata Joe Biden, fraudou as eleições deste ano, apesar de autoridades dos 50 estados e a Organização dos Estados Americanos (OEA) apontarem que o pleito não teve problemas graves.

“Evidentemente, os derrotados de lá [Estados Unidos] se agarraram a isso, e os derrotados daqui [Brasil] também querem se agarrar a essa mesma desculpa. Então, isso foi apenas uma péssima coincidência. Hoje, não vejo elementos palpáveis para aceitar essa teoria da conspiração”, afirma Carlos Melo.

Professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV Eaesp), o cientista político Eduardo Grin é cauteloso ao analisar a situação, mas avalia que as “casualidades” ocorridas com os sistemas do TSE podem fortalecer o discurso da ala ideológica do governo, o que favorece o presidente Bolsonaro nas eleições de 2022.

“Essas críticas e alegações que começam a aparecer na internet vão crescer durante a semana e ao longo dos próximos meses, sobretudo em sites de fake news, no sentido de criar uma opinião pública contrária às urnas eletrônicas, já pensando em 2022”, analisa o cientista político.

O especialista relembra que Bolsonaro já tem estimulado essa ideia desde as eleições de 2018, mas intensificou a defesa dessa tese nas últimas semanas. No último dia 5 de novembro, o presidente disse que o governo possui um estudo “bastante avançado” e vai defender uma proposta de emenda à Constituição (PEC) pela volta do voto impresso.

“A gente espera ano que vem entrar, mergulhar na Câmara e no Senado para que a gente possa realmente ter um sistema eleitoral confiável em 2022”, afirmou Bolsonaro, em transmissão ao vivo em redes sociais, ao citar PEC apresentada pela deputada federal Bia Kicis (PSL-DF), que, segundo ele, poderia ser “aproveitada”.

Para Grin, as instabilidades funcionaram a favor do presidente. “Bolsonaro já começou a sentir cheiro de fio desencapado. Ele sai destas eleições muito menor do que entrou, mas o que importa é que ele já está com dois anos de antecedência dizendo que só vai aceitar o resultado das eleições se ganhar”, pontua.

“Isso é uma narrativa de Bolsonaro”, complementa o cientista político Márcio Coimbra, da faculdade Presbiteriana Mackenzie. “Se nos Estados Unidos o Trump alegou fraude por causa do voto impresso, não há lógica em Bolsonaro dizer que voltar com o voto impresso seria algo mais seguro”, compara.

Coimbra julga ser necessário, no entanto, que o TSE invista em tecnologias para evitar qualquer risco de fraude. Nessa manhã, em visita à cidade de Valparaíso de Goiás (GO), o ministro Luís Roberto Barroso chegou a dizer – horas antes de o problema na divulgação dos votos surgir – que o brasileiro talvez até possa votar pelo celular já em 2022, caso a tecnologia passe pelos testes de segurança

“Quanto à aplicabilidade ou não do novo modelo em 2022, vai depender da segurança que nós possamos ter com as alternativas oferecidas. Nós temos um teste tríplice: segurança, sigilo e eficiência. Se algum dos modelos se mostrar confiável, eu imagino que nós possamos começar a implantar em 2022”, afirmou.

Questionado sobre os riscos de fraudes, ataques hackers e compra de votos nas votações pelo celular, o presidente do TSE argumentou que o mundo vive um processo irreversível de evolução tecnológica, a exemplo do sistema financeiro. E disse que o país não pode retroagir ao sistema eleitoral com votação impressa.

O sistema de votos brasileiro é seguro, mas não é inviolável – nenhum sistema é inviolável. Na medida em que a tecnologia vai avançando, a tecnologia de proteção também precisa ir avançando, senão o sistema fica vulnerável. Então, não adianta a gente modernizar, mas não proteger o sistema”, finaliza Coimbra.

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