Comércio entre Brasil e Argentina tem piores meses desde 2004

De janeiro a julho deste ano, as trocas comerciais entre os dois países registraram queda de 29% em comparação ao mesmo período de 2019

atualizado 30/08/2020 16:42

Em meio ao avanço da pandemia do novo coronavírus e às divergências políticas entre os presidentes Jair Bolsonaro e Alberto Fernández, as relações comerciais entre Brasil e Argentina têm registrado, em 2020, os piores resultados em mais de 15 anos.

De janeiro a julho deste ano, a corrente de comércio – que representa a soma de exportações e importações – entre os dois países latino-americanos foi de US$ 8,6 bilhões (cerca de R$ 46,5 bilhões na cotação atual), o pior resultado desde 2004, ainda no primeiro mandato presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

O número representa uma queda de 29,4% na comparação com o mesmo período do ano passado, quando a corrente de comércio foi de US$ 11,1 bilhões. O governo Bolsonaro, inclusive, fechou o seu primeiro ano já com uma queda de 21,6% em relação a 2018.

Esses dados foram levantados pelo Metrópoles junto à Secretaria Especial de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais do Ministério da Economia. Apesar da queda, a Argentina está entre os cinco maiores parceiros comerciais do Brasil.

Já o Brasil, por outro lado, perdeu um posto importante: deixou de ser o maior parceiro comercial do país vizinho e viu a China – outro país com o qual Bolsonaro tem embates frequentes – tomar essa posição.

Professor de relações internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), André Reis da Silva explica que essa queda registrada se deve em grande parte à pandemia do novo coronavírus, que gerou um forte impacto, sobretudo no setor automotivo.

“Boa parte desse comércio entre Brasil e Argentina é o do Acordo Automotivo com o Mercosul. E, com a pandemia, com as fábricas automotivas paradas desde março e as vendas praticamente interrompidas também, isso dá um efeito grande no comércio bilateral”, diz.

A importação de veículos para transporte de mercadorias, por exemplo, registrou uma queda de 51% entre janeiro e julho deste ano em comparação ao mesmo período do ano passado. Queda semelhante ocorreu na exportação de veículos de passageiros: -52%.

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André Reis destaca ainda a postura de Bolsonaro quanto à pandemia de Covid-19, que já deixou mais de 120 mil mortes no Brasil. “Enquanto a Argentina teve medidas mais assertivas, o caso brasileiro foi um poço de negacionismo. Isso gerou nos vizinhos uma reação com o fechamento de fronteira”, afirma.

O economista Mauro Rochlin, professor do MBA da Fundação Getúlio Vargas (FGV), explica que além da crise da pandemia do novo coronavírus, a situação econômica da própria Argentina, que vive mais uma de suas fortes crises, não colabora para a “normalização” dessa relação.

“A crise se acentua fortemente neste ano. O PIB do Brasil deve cair 5,5%. Na Argentina, essa queda deve girar em torno de 10%”, ressalta.

Ele destaca que a Argentina já foi o segundo maior parceiro comercial do Brasil, mas que essa relação caiu ao longo dos últimos anos, o que não teria sido algo exclusivo do presidente Jair Bolsonaro e sua posição antikirchnerismo, corrente a qual o atual presidente argentino é ligado.

Em 2013, por exemplo, durante o mandato da presidente Dilma Rousseff (PT), a corrente de comércio entre os dois países foi de US$ 21,3 bilhões (R$ 114,84 bilhões, considerando a cotação atual). “Uma pena que estejam atravessando essas dificuldades porque nos atingem fortemente”, completa o economista.

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