Inflação acumulada de absorventes é maior para os mais pobres

Presidente Jair Bolsonaro vetou distribuição gratuita dos absorventes femininos a mulheres em situação de vulnerabilidade

atualizado 22/10/2021 21:16

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A inflação acumulada sobre os absorventes foi maior para as famílias de baixa renda nos últimos anos do que para quem tem melhor situação financeira, revelam dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

No último dia 7, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) vetou a distribuição gratuita de absorventes femininos e de outros cuidados básicos de saúde menstrual a estudantes de baixa renda, mulheres em situação de rua e presidiárias.

Desde 1999, início da série histórica disponibilizada pelo IBGE, a inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) sobre o subitem “absorvente higiênico” foi de 97,8%. Já o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) do produto registrou alta de 108,2% no mesmo período.

O INPC verifica a variação do custo de vida médio apenas de famílias com renda mensal de 1 a 5 salários mínimos. Esses grupos são mais sensíveis às variações de preços, pois tendem a gastar todo o rendimento em itens básicos, como alimentação, medicamentos e transporte, por exemplo.

O IPCA engloba uma parcela maior da população e, na prática, aponta a variação do custo de vida médio de famílias com renda mensal de até 40 salários mínimos.

“Os preços no mercado são os mesmos. O que muda? O peso para o item no orçamento. Ou seja, o custo para um pobre comprar um absorvente é maior do que para um rico”, explica Maria Andreia Parente, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

“É uma forma de a estatística mostrar que as famílias de baixa renda sentem mais o processo inflacionário sobre algumas despesas. É como se fosse assim: o arroz e o feijão subiram 20%. Para o rico, essa alta não representa nada, pois pesa pouco na renda dele. Mas não acontece o mesmo entre os mais pobres. Por outro lado, a gasolina afeta sobretudo as famílias mais ricas”, completa o economista da FGV André Braz.

O gerente do IPCA, Pedro Kislanov, explica que os pesos dos subitens que compõem os dois indicadores são derivados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) e atualizados mensalmente segundo a variação relativa dos preços.

De acordo com o especialista, se a variação do subitem for maior que a do IPCA ou do INPC como um todo, o subitem ganha peso. “De maneira análoga, o subitem perde peso quando a variação é menor que a do índice geral. Esse procedimento é feito mensalmente até que seja realizada uma nova POF, da qual serão derivados os novos pesos do subitem”, esclarece.

Veto

Ao vetar a distribuição gratuita de absorventes femininos, o presidente Jair Bolsonaro alegou que o projeto de lei (PL) aprovado no Senado Federal contraria o interesse público, “uma vez que não há compatibilidade com a autonomia das redes e estabelecimentos de ensino. Ademais, não indica a fonte de custeio ou medida compensatória”.

Além de Bolsonaro, assinaram os vetos os ministros da Economia, Paulo Guedes; da Educação, Milton Ribeiro; e da Saúde, Marcelo Queiroga; e o secretário-executivo do Ministério da Cidadania, Luiz Antonio Galvão da Silva Gordo Filho.

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A atriz Yvonne Bezerra de Mello, fundadora do Projeto Uerê, organização não governamental (ONG) que cuida de crianças em zona de risco no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, critica, em conversa com o Metrópoles, o veto do presidente.

“As meninas mais pobres, normalmente, têm uma grande dificuldade de ter acesso aos absorventes, pois é muito caro. A renda maior das famílias que atendo não chega a R$ 600. Então, as prioridades são outras. E essas pessoas têm de improvisar: usam panos de chão, miolos de pão”, relata. Segundo ela, as crianças deixam de ir para a escola devido à falta de absorventes.

“Ele prefere dar R$ 400 aos caminhoneiros do que ter que dar absorvente para as mulheres”, dispara Yvonne Mello.

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