Direita racha nas redes ao confrontar legado de Thatcher e Reagan
Debate entre influenciadores bolsonaristas expõe afastamento do liberalismo e avanço de um discurso nacionalista no campo conservador
atualizado
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Uma discussão que está sendo travada nas redes sociais desde o último fim de semana evidencia um novo racha no campo da direita brasileira. Influenciadores ligados ao bolsonarismo raiz estão confrontando diretamente o legado de ícones do liberalismo conservador, como a ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher e o ex-presidente dos Estados Unidos Ronald Reagan.
A polêmica começou a partir de uma publicação que reuniu nomes como Paulo Figueiredo, Allan dos Santos, Kim Paim e Mafinha Barba, acompanhada da provocação: “Esses aqui se intitulam os representantes da ‘verdadeira’ direita. Reagan e Thatcher diriam o que deles?”.
As respostas deixaram claro o distanciamento crescente entre a ala considerada “raiz” do movimento e o liberalismo econômico que acompanhou a ascensão de Jair Bolsonaro ao Planalto em 2018.
O youtuber Kim Paim adotou um tom crítico ao associar Reagan e Thatcher à concentração de renda e à submissão financeira de países periféricos. Segundo ele, o liberalismo defendido pelos dois líderes teria servido mais aos interesses do sistema financeiro do que à liberdade prometida.
“Thatcher e Reagan venderam o liberalismo como liberdade, mas entregaram concentração de renda e submissão financeira”, afirmou Paim.
Mafinha Barba foi mais agressivo e rompeu completamente com qualquer identificação histórica. Em resposta a publicação, rejeitou qualquer vínculo com o conservadorismo liberal anglo-saxão e se definiu como parte de uma direita “radical” e “extremista”, defendendo um discurso punitivista contra banqueiros e elites financeiras.
Paulo Figueiredo, por sua vez, reagiu questionando diretamente onde, exatamente, Reagan discordaria de suas posições.
O que representaram Reagan e Thatcher
- Margaret Thatcher e Ronald Reagan governaram, respectivamente, o Reino Unido e os Estados Unidos nos anos 1980 e formaram uma das alianças políticas mais influentes do período da Guerra Fria.
- Ambos defendiam a redução do papel do Estado, o fortalecimento do livre mercado, privatizações e uma postura firme contra a União Soviética.
- Eles tinham estilos diferentes — Reagan mais otimista e comunicador; Thatcher mais dura e combativa, ficando conhecida como “Dama de Ferro”.
- Os dois construíram uma relação estratégica que moldou o conservadorismo global.
- O legado dessa parceria influenciou gerações de políticos de direita, inclusive no Brasil, especialmente a partir da década de 90.
Do liberalismo ao nacionalismo
A aliança entre o conservadorismo político de Jair Bolsonaro e o liberalismo econômico representado por Paulo Guedes foi decisiva para a vitória em 2018, mas se desfez com a direita na oposição a Lula.
Nos últimos anos, setores do bolsonarismo passaram a criticar privatizações, o ajuste fiscal e a abertura econômica.
O discurso se aproximou de uma visão nacionalista, com ataques frequentes à Faria Lima e ao mercado financeiro, acusado de atuar contra os interesses nacionais.
Esse movimento se intensificou após Bolsonaro indicar o filho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), como seu representante na disputa pelo Planalto. O mercado reagiu mal ao anúncio, com desconfiança sobre as convicções fiscais do senador e sem sinais de apoio político ou econômico.
Antes da definição por Flávio, o nome preferido do mercado era o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), visto como herdeiro do liberalismo econômico da era Guedes.
A resistência do mercado ao nome de Flávio não levou à reaproximação, mas aprofundou o conflito.








