Deputado quer título de Capital do Pequi para cidade de MG e enfurece goianos

Projeto de lei foi apresentado na Câmara dos Deputados e já gera polêmica. Caiado, governador, de Goiás, diz que pequi é do "DNA goiano"

atualizado 05/02/2021 16:27

Pequi de Goiás com cascaiStock

Goiânia – Polêmica à vista para definir quem é o verdadeiro “dono” do pequi. Um projeto de lei proposto pelo deputado federal Delegado Marcelo Freitas (PSL-MG) pretende dar ao município de Montes Claros (MG) o título de “capital nacional do pequi”. A proposta foi apresentada nessa quinta-feira (4/2) à Mesa Diretora da Câmara dos Deputados, em Brasília.

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Os goianos, muitos inclusive que se autodenominam como “roedores de pequi”, foram às redes para reclamar. O próprio governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), em tom bem-humorado, foi ao Twitter e comentou a proposta do deputado mineiro: “Não tem base essa história de um deputado mineiro querer transformar Montes Claros (MG) na capital do pequi. Pequi está no DNA goiano. Muito mais que símbolo de nossa culinária, faz parte de nossa cultura. Acionei o deputado José Nelto para mobilizar nossa bancada”.

O deputado federal José Nelto é conhecido por não fugir de polêmica. No entanto, mesmo radicado em Goiás há vários anos, não se sabe qual time o parlamentar irá defender, pois ele é natural de Tiros (MG).

O governador goiano ainda completou: “Já vamos fazer um acordo aqui: a gente deixa o ‘trem’ e o pão de queijo para vocês mineiros, e em troca ninguém mexe no nosso pequi. Combinado?”

O perfil de Instagram Enquanto Isso em Goiás, conhecido por fazer memes goianos e que tem o pequi na imagem de divulgação, foi um dos que capitanearam a “revolta”. “Tem gente que brinca com minha paciência”, postou o administrador do perfil, apresentando uma cópia do PL do deputado. Bastou isso para que os seguidores se manifestassem, a maioria reclamando para Goiás a “paternidade” do pequi.

O perfil @fernandarodriguess__ disse o seguinte: “Como assim? Sou mineira e nunca tinha comido pequi na vida, fui apresentada pelo povo de Goiânia. Sendo mineira, saio na defesa do Goiás”. Já o perfil @gus_loren dá uma alfinetada: “Come ‘piqui’ com faca ainda quer ser capital do pequi??? Sai fora”. Outro perfil, @carladaniela975, se diz tocantinense, mas faz a defesa dos goianos: “Oxe nem eu, que sou do Tocantins, aceito que o pequi é de Minas, tá doidão… O pequi é do Goiás, mais óia!!!”.

O fruto, típico de Cerrado, é muito relacionado à culinária de Goiás. Galinhada com pequi, arroz com pequi, frango com pequi, empadão com pequi ou simplesmente o pequi refogado estão entre os pratos goianos mais típicos. O fruto desperta paixão, seja pelo sabor e cheiro característicos ou pelo fato de que o caroço precisa ser apenas roído (sob risco de roer demais e revelar os afiados espinhos internos).

Não há meio termo para o pequi na culinária: ou a pessoa gosta ou odeia. Até mesmo entre os goianos ele não é unanimidade. Há aqueles que defendem, inclusive, que a pamonha (feita com milho e que pode ser salgada ou doce) seria muito mais amada do que o pequi. Mas essa é uma outra discussão.

Na justificativa do projeto, o deputado mineiro alega que Montes Claros, localizada no norte de Minas Gerais, promove todos os anos a Festa Nacional do Pequi, que já está indo para a 30ª edição em 2021. “Além da culinária, o evento serve para divulgar e valorizar a cultura e a arte regionais, merecendo um maior espaço no que se refere ao reconhecimento nacional”, argumenta o deputado no texto do projeto. Ele expõe, ainda, que bares e restaurantes da cidade elaboram pratos, cujo principal ingrediente é o pequi.

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O deputado associa a melhoria das condições de vida, geração de empregos, renda e investimentos na cidade aos pequizeiros da região. Segundo ele, é o pequi que impulsiona a realidade em um local marcado “pela seca, pela péssima distribuição de renda, pelas décadas de falta de investimento”.

É importante registrar que, além de o fruto estar intimamente ligado à cultura e à culinária do estado, vários municípios goianos também realizam festas tradicionais. Um dos exemplos é Crixás, no norte do estado, que realiza o Festival Cultural do Pequi oficialmente desde 2005. Cidades goianas, como Mambaí, Iporá e Ivolândia, entre outras, também realizam festividades tradicionais voltadas para o fruto.

Cerrado

O pequizeiro é uma árvore de cerrado, o segundo maior bioma do Brasil, que ocupa o território de diversos estados, incluindo o norte de Minas Gerais, onde fica a cidade de Montes Claros. Mas ele passa, ainda, por Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Maranhão, Piauí, Distrito Federal, parte de São Paulo e Bahia.

De certa forma, o pequi se espalha e, também, faz parte da identidade cultural desses locais, principalmente na região Centro-Oeste. Mas é em Goiás, cuja quase totalidade do território faz parte do cerrado, que o pequi se faz presente de maneira mais incisiva na culinária.

Além de Goiás e Minas, o fruto de caroços amarelos também é consumido, em maior ou menor quantidade, no Distrito Federal e em outros estados onde há formações do bioma Cerrado, como Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Bahia, Piauí e Maranhão. Considerado uma iguaria, no entanto, aos poucos ele começa a ficar conhecido fora desse eixo. Além dos tradicionais pratos salgados, também pode ser usado em doces, sorvetes, picolés e até em licores.

O pequi

Na justificativa do projeto, o delegado Marcelo Freitas começa dizendo que o pequi é conhecido como o “Ouro do Cerrado”. O nome tem origem indígena e significa “casca espinhosa”, referindo-se ao fato de que o interior do caroço é preenchido por pequenos espinhos.

Para comê-lo, é preciso cuidado. O certo é roer a polpa que reveste o caroço, sem morder para evitar qualquer contato com os espinhos. Dele, é extraído, ainda, um óleo com propriedades medicinais e a polpa dá origem a uma série de produtos diferentes, de licores a conservas.

O pequizeiro é uma árvore, nitidamente, com as características do cerrado. Com os troncos retorcidos e resistente ao clima seco e quente, a árvore pode atingir de 15 a 20 metros de altura, com troncos de dois a cinco metros de circunferência.

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