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Brasil

Dark Horse: emendas de Frias pagaram por tatames e quimonos não entregues

Projetos do Instituto Conhecer Brasil, presidido por Karina Gama, receberam R$ 2 milhões em emendas do deputado para educação e esporte

10/09/2026 14:27, atualizado 10/09/2026 15:20
Bruno Spada/Câmara dos Deputados; Divulgação
Montagem de imagens mostra Mario Frias (à esquerda) e Pôster do filme sobre Jair Bolsonaro (à direita) - Metrópoles

Auditorias da Controladoria-Geral da União (CGU) apontaram falhas na execução de dois projetos bancados com emendas do deputado federal Mario Frias (PL-SP) e ligados ao Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidido por Karina Ferreira da Gama, produtora do filme Dark Horse, que conta a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Os dois projetos receberam R$ 2 milhões em emendas de Frias para ações de educação digital e esportes de combate em Pirassununga, no interior de São Paulo.

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A conclusão da CGU aparece na decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou buscas contra Frias, Karina e fornecedores. Segundo o documento, foram encontrados problemas nas contratações, na fiscalização e na comprovação da entrega dos materiais e das atividades previstas.

O caso mais sensível, para os auditores, é o do projeto esportivo. Houve pagamento de R$ 457,8 mil à empresa Pulsa Uniformes e Camisetas Personalizadas por quimonos, faixas, uniformes e 120 placas de tatame.

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De acordo com Dino, o valor foi pago integralmente em 26 de maio de 2026, mas sem comprovação de entrega. A Nota Fiscal nº 575, com 16 itens, foi quitada, mas o comprovante de recebimento não estava preenchido.

Em resposta à CGU, a própria fornecedora informou, em julho, que os materiais ainda estavam em fabricação e que nenhum item faturado havia sido entregue. A informação foi confirmada durante inspeção feita no dia 6 de julho de 2026.

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Os dois projetos

  • Jovem Empreendedor: recebeu R$ 1 milhão do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) em 17 de fevereiro de 2025.
  • A proposta previa produção de materiais educativos, capacitação de 250 multiplicadores e atendimento a 2.250 estudantes da rede pública.
  • Segundo a CGU, os multiplicadores não foram capacitados e os alunos não foram atendidos.
  • Lutando pela Vida: recebeu R$ 1 milhão do Ministério do Esporte em 29 de outubro de 2025.
  • A iniciativa previa esportes de combate para 500 beneficiários em Pirassununga. Foi neste projeto que ocorreu o pagamento à Pulsa. Comprovantes no Portal da Transparência apontam o Instituto Conhecer Brasil como destinatário dos recursos.

Termo de recebimento insuficiente

Ao ser questionado, o ICB apresentou um termo de recebimento parcial dizendo que os tatames haviam sido entregues em maio. Os auditores, porém, encontraram outra compra: 120 placas de tatame adquiridas de um fornecedor diferente, por R$ 58,8 mil.

Para a CGU, não havia controle que permitisse relacionar os materiais vistos nas visitas aos produtos da nota fiscal da Pulsa. Por isso, o órgão considerou insuficiente a comprovação de entrega dos itens pagos com dinheiro público.

A Controladoria também apontou falhas na comprovação das aulas. Seis prestadores de serviços de coordenação, instrução, monitoria e educação física receberam R$ 94,5 mil entre março e julho de 2026.

Segundo a auditoria, o instituto não apresentou “listas mensais assinadas, relatórios individualizados ou outros registros independentes que relacionassem os pagamentos às aulas, às turmas e às cargas horárias efetivamente realizadas”.

O ICB entregou fichas de matrícula, planilhas de frequência, fotos e um relatório parcial. Para a CGU, os documentos não bastam. As fichas comprovam só a inscrição e as planilhas não têm assinatura dos alunos.

Jovem Empreendedor

O segundo projeto analisado foi o Jovem Empreendedor, também previsto para Pirassununga (SP). A iniciativa previa produzir materiais físicos e digitais e formar 250 multiplicadores para atender 2.250 estudantes do 4º e 5º anos do ensino fundamental.

Dos R$ 1 milhão repassados pelo MCTI, o dinheiro foi dividido entre seis empresas. Das seis, cinco foram alvos de busca:

  • Dinâmica Editora e Distribuidora de Livros: R$ 400 mil para kits pedagógicos físicos. É alvo de buscas.
  • Instituto Super Poder Educacional: R$ 300 mil para kit digital. É alvo de buscas.
  • MTS Assessoria e Consultoria: R$ 150 mil para manutenção da plataforma. É alvo de buscas.
  • LF&P Consulting: R$ 80 mil para jurídico, contabilidade e apoio administrativo. É alvo de buscas.
  • Marcelo Machado 7 Comunica: R$ 50 mil para divulgação. É alvo de buscas.
  • Projetus: R$ 20 mil por consultoria. Não é alvo.

Os pagamentos foram concluídos em fevereiro de 2026. Em relatório de 25 de maio, porém, o próprio ICB informou que ainda faltavam treinamento operacional, organização das turmas e realização das atividades.

O instituto disse ter concluído 2,5 mil kits físicos, implantado a plataforma e preparado o conteúdo, mas afirmou que listas de presença, fotos e vídeos só seriam apresentados após as atividades com os alunos.

O problema é que a vigência terminou em 11 de janeiro de 2026. Segundo a decisão do ministro Flávio Dino, o ICB só pediu prorrogação por mais 12 meses em 28 de maio, quando o prazo já havia acabado.

No pedido, o próprio instituto admitiu que ainda precisava articular escolas, mobilizar famílias, preparar espaços e atender as crianças previstas.

“Após o encerramento da vigência e do prazo para prestação de contas, o MCTI, em 18/05/2026, cobrou a apresentação da documentação pertinente. Em 28/05/2026, o ICB solicitou a prorrogação do Termo por mais 12 meses, alegando necessidade de ampliar atividades relacionadas ao projeto”, diz a decisão.

Para a CGU, o pedido confirmou que o projeto não foi executado. O órgão apontou que “não haviam sido capacitados os 250 multiplicadores nem atendidos os 2.250 estudantes previstos”.

O MCTI negou a prorrogação em 2 de junho, porque o prazo já tinha terminado. Em 9 de julho, deu parecer pela rejeição das contas, por descumprimento do objeto.

O ICB foi notificado no dia seguinte e teve 30 dias para apresentar defesa.

A operação desta quinta-feira (10/9) da PF e da CGU investiga suspeitas de irregularidades e desvio de recursos públicos de emendas parlamentares.