Covid-19: fisioterapeuta desabafa sobre caos em hospital do RJ
Josy Silva contou que viu paciente pedir para morrer e alguns para falar escondido com familiares. “Pior experiência da vida”, disse
atualizado
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Uma fisioterapeuta comoveu internautas após fazer um desabafo nas redes sociais, nesta quinta-feira (09/04), sobre a situação de um hospital do Rio de Janeiro diante da pandemia do novo coronavírus.
Depois de mais um dia de plantão, a Josy Silva relatou como tem sido o trabalho diante da Covid-19. Segundo ela, nem na época da pacificação da capital fluminense, quando houve um número elevado de baleados, o sistema de saúde ficou tão caótico como agora.
“Eu estou no estacionamento do hospital que trabalho juntando forças para dirigir o carro até em casa”, começou a profissional. “Eu estou escrevendo para externar, para desabafar… Porque hoje, das 7h até as 19h, não paramos de atender pacientes com insuficiência respiratória (a famosa falta de ar) causada pela Covid-19. Começou por um homem de 40 anos, que foi prontamente entubado, depois outro de 61 anos, outros, outros e outros. Uma tomografia mais assustadora que a outra”, continuou.
Segundo Josy, metade da equipe não sabe se continua a trabalhar. “Eu sou uma dessas. Não sei se dá para tolerar isso, é muito sofrimento dos pacientes e muito nosso também. Ficamos 12 horas de máscara N95, almoçamos em minutos, esquecemos de beber água. Já vivemos outros plantões caóticos pontuais, mas para o nosso desespero, matematicamente o próximo será pior. E pior que isso é o quê? No início, eu disse que foi a pior experiência profissional, mas na verdade é a pior experiência de vida”.
Leia o relato completo:
Eu estou no estacionamento do hospital que trabalho juntando forças pra dirigir o carro até em casa. Não sei como está nos outros lugares, mas aqui estamos passando pela pior experiência profissional. No meu caso, a pior desde a minha formação (e lá se vão 11 anos).Eu estava de plantão na época da pacificação, foi muito triste, muita gente baleada, desespero total, mas não se compara ao que vivi hoje. Já teve acidente de ônibus onde todos os acidentados foram pro hospital que eu trabalhava, foi triste, mas ainda sim não chega ao que senti hoje. Já teve gerador não entrando após falta de luz, correria pra resolver os equipamentos que não tinham backup de bateria, mas nada se compara a vivência de hoje.
Eu estou escrevendo pra externar, para desabafar… Porque hoje, desde às 7h até as 19h, não paramos de atender pacientes com insuficiência respiratória (a famosa falta de ar) causada pela Covid-19. Começou por um homem de 40 anos que foi prontamente intubado, depois outro de 61, outros, outros e outros. Uma tomografia mais assustadora que a outra.
Dois pacientes me marcaram. Um que vou chamar de X, que tem 41 anos, trabalha como motoboy e não conseguia mudar de lado na cama que agonizava. Com muita dificuldade, me pediu pra antes de intubar e sedar, que deixasse escondido fazer uma ligação para esposa, para não causar pânico quando ela ouvisse da nossa boca que ele havia piorado. A outra foi uma senhora que estava com tanta falta de ar que pediu que a gente a matasse para acabar com aquele sofrimento.
Amigos, foi chegando tanta gente que trocar a luva era o máximo que conseguíamos. Decidimos separar um lado da sala para os contaminados e o outro lado para os outros pacientes, mas não somos 2 equipes. Então, enquanto estávamos intubando essa paciente que pedia a morte, a outra do outro lado que internou por conta de um AVC sofria uma PCR. Consegui trocar o que dava de paramento e correr para assistir, sem ter muito com quem revezar a massagem (quem conhece sabe que é uma manobra cansativa que deve ser revezada de 2/2 minutos). Ou a gente se esgota ou perderíamos mais uma paciente.
A gente colocou paciente onde não cabia, em macas sem conforto e fomos fazendo o que deu. Metade da equipe não sabe se continua, eu sou uma dessas… Não sei se dá pra tolerar isso. É muito sofrimento dos pacientes e muito nosso também (ficamos 12 horas de máscara N95, almoçamos em minutos, esquecemos de beber água).
Já vivemos outros plantões caóticos pontuais. Para o nosso desespero, matematicamente, o próximo será pior. E pior que isso é o quê? No início eu disse que foi a pior experiência profissional, mas na verdade é a pior experiência de vida.
