Master e emendas: em 107º, Brasil mantém sua pior posição em ranking de corrupção

O Brasil obteve 35 pontos, em escala que vai de 0 a 100. Com isso, permanece na 107ª posição entre os 182 países e territórios avaliados

atualizado

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1 de 1 congresso nacional - Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

Relatório da Transparência Internacional divulgado nesta terça-feira (10/2) coloca o Brasil na 107ª posição entre os 182 países e territórios avaliados no Índice de Percepção da Corrupção (IPC) de 2025. Esta é a segunda pior nota do país na série histórica do marcador.

A publicação destaca o “agravamento da infiltração do crime organizado no Estado brasileiro e do aliciamento de autoridades públicas, revelado por uma sucessão de casos de grande impacto que expuseram vulnerabilidades profundas em duas áreas da economia formal: o sistema financeiro e a advocacia”.

E cita escândalos, como o caso do Banco Master e desvios de emendas, fraudes em licitações e lavagem de dinheiro por meio de contratos públicos envolvendo lideranças partidárias e operando em pelo menos cinco estados.

O relatório também destaca a Operação Sem Desconto, “que expôs o maior esquema de corrupção previdenciária da história — atingindo centenas de milhares de aposentados e pensionistas e revelando falhas graves de governança no INSS”.

O escândalo do INSS foi revelado pelo Metrópoles em uma série de reportagens publicadas a partir de dezembro de 2023. Três meses depois, o portal mostrou que a arrecadação das entidades com descontos de mensalidade de aposentados havia disparado, chegando a R$ 2 bilhões em um ano, enquanto as associações respondiam a milhares de processos por fraude nas filiações de segurados.

Pior posição

O país manteve a sua pior posição no ranking, a 107ª, com 35 pontos, em escala que vai de 0 a 100, apesar de alta de um ponto em comparação com 2024.

Quanto menor a nota, maior a percepção de corrupção. O resultado obtido indica estagnação em relação a 2024, quando o Brasil havia registrado 34 pontos.

De acordo com a Transparência Internacional, a variação de um ponto não é estatisticamente significativa e mantém o Brasil bem abaixo da média global e das Américas, ambas em 42 pontos.

“Embora o Brasil tenha chamado a atenção internacional em 2025, pela resposta firme e histórica do Supremo Tribunal Federal na responsabilização do ex-presidente Bolsonaro e outros conspiradores que atentaram contra a democracia, também chocou o mundo com casos de macrocorrupção em escala inédita, como INSS e Master, impunidade generalizada mesmo para corruptos confessos e condutas desmoralizantes de ministros do próprio STF”, comenta o diretor executivo da Transparência Internacional-Brasil, Bruno Brandão.

“A corrupção também corrói profundamente a democracia e o Brasil precisa, urgentemente, resgatar e priorizar o enfrentamento deste problema”, complementa.


Índice de Percepção de Corrupção

  • O IPC é considerado o principal indicador mundial sobre corrupção e é elaborado a partir da análise de até 13 fontes independentes que reúnem a percepção de especialistas, pesquisadores e executivos sobre práticas corruptas no setor público e mecanismos de prevenção.
  • Na comparação internacional, o Brasil ficou próximo de países como Sri Lanka, que também obteve 35 pontos, e atrás de Argentina, Belize e Ucrânia, que alcançaram 36.
  • Entre os mais bem colocados do ranking estão Dinamarca (89 pontos), Finlândia (88) e Cingapura (84), enquanto Somália e Sudão do Sul aparecem nas últimas posições, com 9 pontos cada.

Destaque para operações

O documento destaca operações de grande impacto ao longo do ano, como investigações sobre desvios de emendas parlamentares, fraudes previdenciárias e a maior fraude bancária já registrada no país, no caso do Banco Master.

O relatório também ressalta avanços pontuais, como o uso ampliado de inteligência financeira para o combate à lavagem de dinheiro, mas critica a resposta do governo federal a alguns escândalos, considerada tardia e politicamente controversa, como o caso do INSS.

De acordo com o documento, as investigações apontaram continuidade do esquema em diferentes gestões, com envolvimento de atores nos governos Temer, Bolsonaro e Lula. Segundo o estudo, o desempenho brasileiro reflete um cenário marcado por sucessivos casos de macrocorrupção e por fragilidades institucionais persistentes.

“Embora o Brasil tenha chamado a atenção internacional pela resposta firme do Supremo Tribunal Federal na responsabilização de envolvidos em atentados contra a democracia, o país também chocou o mundo com escândalos de corrupção em escala inédita e episódios de impunidade”, afirmou o diretor executivo da entidade no Brasil, Bruno Brandão.

Para a Transparência Internacional, o cenário reforça a necessidade de retomar com urgência uma agenda consistente de enfrentamento à corrupção, com maior coordenação institucional e fortalecimento dos mecanismos de controle e transparência.

Agenda anticorrupção

Diante do que foi constatado, a Transparência Internacional faz uma série de recomendações aos poderes da República.

Entre elas, ao governo federal:

  • Fortalecer a integridade, especialmente na nomeação para altos cargos, e a transparência de agências regulatórias e demais órgãos de supervisão com atuação em setores estratégicos;
  • Investigar indícios de desvios e corrupção na distribuição de emendas parlamentares, especialmente em órgãos com histórico de irregularidades, conflitos de interesse e desvio de finalidade em sua atuação, como a CODEVASF e o DNOCS;
  • Assegurar que a renegociação dos acordos de leniência seja realizada a partir de critérios técnicos e objetivos, resultando em sanções proporcionais e dissuasivas e que haja transparência e espaços de participação das vítimas neste processo.

Para o Congresso Nacional:

  • Instalar a CPMI do Banco Master;
  • Solicitar, em caráter institucional, informações formais ao STF e ao Banco Central sobre: fundamentos e extensão do sigilo decretado no inquérito do caso Master no STF; cronogramas e atos já praticados; e registros oficiais de contatos entre autoridades do Judiciário e da autoridade monetária no período de análise do Master, com metadados de agenda;
  • Encaminhar à Comissão de Constituição e Justiça avaliação técnico‑jurídica (consultorias do Senado e juristas externos) sobre boas práticas de prevenção de conflitos de interesse em Tribunais Superiores, com proposta de marcos de integridade aplicáveis no Brasil.

Ao Ministério Público:

  • Instaurar, no âmbito da PGR (Procuradoria-Geral da República), verificação preliminar sobre eventuais conflitos de interesse ou indícios de crimes relacionados às operações financeiras do resort Tayayá e aos contratos advocatícios de alto valor do Banco Master;
  • Manter uma postura ativa na defesa de acordos de leniência e de colaboração premiada que foram regularmente celebrados e servem de base para recuperação de ativos desviados em grandes esquemas de corrupção;
  • Garantir o cumprimento efetivo do teto constitucional na remuneração de membros do Ministério Público, abolindo privilégios e garantindo a transparência integral sobre as informações relativas à remuneração.

Para o Judiciário:

  • Instituir e implementar um Código de Conduta do STF (e normas correlatas para tribunais superiores), com regras objetivas de impedimento e suspeição; transparência ativa de agendas, viagens e hospitalidade; gestão de riscos em contratos e atividades de familiares; balizas para participação em eventos patrocinados;
  • Garantir o cumprimento efetivo do teto constitucional na remuneração dos magistrados, abolindo privilégios e supersalários;
  • Redistribuir o caso do Banco Master, no Supremo, por sorteio, para outro ministro sobre “o qual não paire suspeita de impedimento e conflito de interesses”;
  • Persistir na garantia da implementação das decisões do STF que declararam a inconstitucionalidade do Orçamento Secreto e práticas correlatas na distribuição de emendas, inclusive nos níveis subnacionais.

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