Coronel foi contato entre denunciante de propina e o governo

Roberto Criscuoli, "informante" de Bolsonaro, confirmou ter sido procurado por um suposto representante da empresa Davati Medical Supply

atualizado 30/06/2021 16:33

Luiz Paulo Dominguetti, policial militar que afirmou desistir de vender vacinas ao Ministério da Saúde depois de receber um pedido de propina, adentrou o governo a partir de um oficial da reserva do Exército que faz parte do grupo “Abin paralela”.

O grupo reúne informantes que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) diz manter para não depender dos órgãos oficiais de informação. O contato entre Dominguetti e a Davati Medical Supply foi feito pelo coronel Roberto Criscuoli.

De acordo com o jornal Estadão, o policial militar afirmou à pasta ser o representante da Davati. Entretanto, a empresa negou qualquer relação com Dominguetti.

“Eu fui procurado por um representante da empresa uma vez num hotel. Vieram falando que era porque eu conhecia muita gente no governo. É lícito vender vacinas, é um item que o governo estava comprando. Mas, como não sou lobista, só disse para procurarem o Rodrigo”, revela Criscuoli.

Rodrigo de Lima Padilha, responsável pelo contato do coronel, é funcionário terceirizado do Ministério da Saúde, ligado a Pedro Geraldo Pinheiro dos Santos, que também é militar.

Na época, o coronel Pedro dos Santos era diretor do Departamento de Economia da Saúde, Investimentos e Desenvolvimento do ministério (DESID). Agora, ele ocupa a função de superintendente da pasta no Rio de Janeiro.

Roberto Criscuoli assegurou não se lembrar do nome da pessoa que disse ser o representante da empresa quando o encontrou. Já Dominguetti revelou ao jornal Folha de S. Paulo que abriu negociação com o governo no nome da Davati Medical Supply.

A negociação seria para a venda de 400 milhões de doses da vacina AstraZeneca. Além disso, Dominguetti afirmou que Roberto Ferreira Dias, então diretor de Logística do Ministério da Saúde, cobrou propina de US$1 por dose para avançar com a negociação, o que acabou não acontecendo.

A AstraZeneca negou que a Davati a represente, informando que a empresa americana já teria sido desautorizada pelo laboratório no Canadá. A Davati também negou, em nota, que o policial militar seja seu representante, mas confirmou a oferta de vacina ao governo brasileiro, que não deu resposta.

A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid no Senado pretende ouvir Dominguetti, que era cabo da Polícia Militar de Minas Gerais até 2019, nesta sexta-feira (2/7).

A imprensa mineira publicou reportagens que indicam uma possível fraude da Davati no processo de compra de vacinas no Estado.

A empresa já teria sido citada em negociações com prefeituras, na tentativa de conseguir uma carta de intenção que demonstrasse interesse na aquisição do imunizante da AstraZeneca. As conversas travaram após a conquista dessa carta.

Coronel Roberto Criscuoli

O coronel Roberto Criscuoli vive no Rio de Janeiro e recebe R$ 27,7 mil por mês como oficial da reserva do Exército. Entretanto, ele percorre gabinetes de amigos militares na capital do país.

No Congresso, Criscuoli é visto como um dos integrantes da rede informal do presidente da república, sendo responsável pela coleta e transmissão de informações de interesse do governo. Bolsonaro já afirmou inúmeras vezes que o canal é utilizado para que ele se mantenha informado.

“É um colega de vocês da imprensa que com certeza eu tenho, é um sargento no batalhão de operações especiais no Rio, um capitão do Exército de um grupo de artilharia em Nioaque, um policial civil em Manaus. É um amigo que eu fiz em um determinado local faz anos, que liga pra mim e mantém contato pelo zap”, relatou Bolsonaro no ano passado.

Ao ser questionado sobre esse sistema de informação, ele completou: “Descubro muitas coisas, que lamentavelmente não descubro via inteligência oficial, que é a PF, a Marinha, a Aeronáutica e a Abin”.

Já no Ministério da Saúde, o coronel mantinha canal livre com Eduardo Pazuello, ex-ministro da pasta, e com Élcio Franco, ex-secretário-executivo. Pazuello foi aluno de Criscuoli no curso de Ações de Comandos, enquanto Franco era colega de Forças Especiais, unidade de elite do Exército brasileiro.

O coronel é um grande defensor do governo de Bolsonaro e tem o costume de falar a pessoas próximas que está à disposição para ajudar o Executivo contra a parcela da população que tenta derrubar o presidente atual.

Roberto Criscuoli afirmou que considerou importante indicar algum contato, quando procurado, uma vez que o insumo é uma demanda urgente. Entretanto, disse que não quis ser confundido com lobista.

Dessa forma, o coronel só recomendou que o interlocutor fizesse contato com Rodrigo Padilha, que assegurou o contato foi repassado.

Padilha confirmou ao jornal Estadão o que foi informado por Criscuoli, além de revelar que encaminhou o representante ao Departamento de Logística (DLOG), dirigido por Roberto Dias. O setor também tem a atribuição de providenciar o imunizante.

“Ele [Criscuoli] me conhecia e só perguntou como fazer. Sei que ofertaram vacinas, mas não foi concretizada a venda. Falei muito pouco com o representante. A última vez foi quando me informou que o ministério não quis assinar o contrato. Por isso, perguntei ao servidor se ele sabia alguma coisa”, conta Rodrigo.

CPI da Covid

Citado na CPI da Covid pelo servidor Luis Ricardo Miranda, Rodrigo de Lima foi denunciado por “pressão atípica” para agilizar o processo de importação da vacina indiana Covaxin, a única que foi comprada pelo governo a partir de um intermediário.

No depoimento de Miranda à CPI, ele afirma que Rodrigo informou sobre um pedido de propina nas negociações do imunizaste indiano. Entretanto, o  servidor declara que a suspeita foi levantada informalmente e sem qualquer respaldo concreto, durante uma “conversa de corredor”.

Roberto Ferreira Dias não se manifestou sobre o caso. Ele foi indicado ao cargo de diretor do DLOG do Ministério da Saúde pelo ex-deputado Alberto Lupion (DEM-PR), sendo respaldado pelo atual líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (Progressistas-PR).

Barros negou a indicação de Dias em um tuíte publicado na terça-feira (29/6) à noite, atribuindo-a à gestão de Luiz Henrique Mandetta no ministério. Roberto foi demitido ontem da pasta e sua exoneração já foi publicada no Diário Oficial da União (DOU) desta quarta-feira (30/6).

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