Contra avanço da Covid-19, estados voltam a endurecer medidas de isolamento

Em São Paulo, comércio só pode funcionar por 10 horas e com 40% da capacidade a partir desta quarta. Paraná adota toque de recolher

atualizado 02/12/2020 8:34

Calçada lotada de pedestres em São PauloFábio Vieira/Especial Metrópoles

São Paulo – Com o aumento do número de casos de Covid-19, estados como São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul, além do Distrito Federal, voltaram a adotar regras mais rígidas de isolamento nesta semana, em decisões tomadas logo após as eleições municipais.

O infectologista Renato Grinbaum, membro da Sociedade Brasileira de Infectologia, afirma que o país vive um momento de recrudescimento da pandemia. “Se é segunda fase ou segunda onda, isso é semântico. É irrelevante dizer se é segunda onda ou fim da primeira, é uma bobagem. O que interessa é que existe um aumento real de casos no Brasil, que é preocupante”, diz o infectologista.

Um dos estados que retrocederam de medidas de flexibilização da economia é São Paulo, onde, a partir desta quarta-feira (02/11), bares, restaurantes, academias, salões de beleza, shoppings, escritórios, concessionárias e comércios de rua voltam a ter limitações de horário e capacidade de público. Na prática, esse estabelecimentos só poderão funcionar por 10 horas diárias e 40% de capacidade, até as 22h. Todos os eventos com público em pé estão proibidos na fase amarela.

O anúncio foi feito na segunda-feira (30/11), um dia após a eleição, pelo governador João Doria (PSDB), que viu seu apadrinhado Bruno Covas ser reeleito na capital. O atraso na revisão em duas semanas gerou questionamentos de adversários políticos dos tucanos. Segundo o governo paulista, a decisão só saiu agora devido ao apagão de dados do Ministério da Saúde, o que poderia trazer distorções e fazer com que cidades do estado avançasse para uma fase de maior abertura da economia.

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Na avaliação de Grinbaum, embora São Paulo ainda tenha uma certa folga na taxa de ocupação dos leitos de UTI, que está em 52,2% no estado, as medidas de restrições deveriam ter sido tomadas antes das eleições.

“O fato de você ter uma taxa de ocupação hospitalar ainda baixa em São Paulo dá uma certa flexibilidade. Por outro lado, você tem uma grande aumento de casos nas últimas duas semanas, que talvez não estejam ainda refletindo nos indicadores da vigilância, mas qualquer profissional da saúde que trabalha em hospital vê. Nós temos notificação de hospitais privados, recebemos comunicados sobre isso, houve cancelamento de cirurgias. Então, na minha opinião, essa medida deveria ter sido tomada antes, porque o reflexo desse atraso nós vamos ver daqui a duas semanas”, analisa.

As aglomerações levaram o governo do Distrito Federal a limitar o funcionamento em bares e restaurantes até as 23h, segundo decreto publicado nessa terça-feira (1º/12). Segundo a Secretaria de Saúde, o índice de transmissão, que vinha se mantendo na casa de 1, evoluiu para 1,3, o que significa que 100 pessoas contaminam outras 130.

“Antes que a situação se agrave, resolvi dar este recado para a população, retomando algumas medidas restritivas”, disse o governador Ibaneis Rocha (MDB) disse à coluna Grande Angular, do Metrópoles, prometendo ações mais duras se houver piora da pandemia no DF.

No Paraná, o governador Carlos Massa Ratinho Junior (PSD) decidiu adotar o “toque de recolher” durante o fim da noite e a madrugada, das 23h às 5h a partir desta quarta (2/12). O prazo de vigência é de 15 dias, prorrogáveis ou não. Apenas serviços essenciais, como saúde e segurança pública, ficam liberados da restrição.

O estado registrou um de aumento de 23,9% na média móvel de casos e de 6,2% na média de óbitos nos últimos 14 dias. “A situação é muito grave. Precisamos deste toque de recolher para quebrar a velocidade de transmissão do vírus”, afirmou em comunicado o secretário de Saúde, Beto Preto, ressaltando que a medida visa conter a movimentação de pessoas no período noturno, especialmente dos mais jovens.

Com 80% dos leitos ocupados no Rio Grande do Sul, o governador Eduardo Leite (PSDB) também anunciou medidas restritivas na segunda-feira. Entre as ações, estão a suspensão de eventos e festas de fim de ano, inclusive condomínios; incentivo à restrição de reuniões privadas e familiares, com limite de até 10 pessoas; e a vedação à permanência em locais públicos sem controle de acesso, como ruas, praias e parques.

Também foi suspenso o sistema de cogestão com os municípios. Com isso, a classificação estadual no mapa de distanciamento controlado deve ser adotado por todas as regiões. “Agora, o que queremos é que as pessoas se encontrem menos, em festas e confraternizações, ou mesmo em parques e locais públicos, onde tendem a se cuidar menos. Não é hora de aglomerações. Reduzir contatos é muito importante nesse momento, porque quebramos o ciclo de contágio”, afirmou Leite, em nota do governo.

Citando cenas vistas na capital paulista de bares com jovens sem máscara e do comércio popular com aglomerações, Grinbaum cobra regras mais rígidas de controle, maior fiscalização e multas. Uma das preocupações é a movimentação para as compras de fim de ano.

“São regras de lotação, não permitir muita gente dentro das lojas e tem que ter fiscalização. Cabe ao Estado não só orientar, mas multar pessoas que não estão com máscara, multar estabelecimentos que estão muito cheios e bares que estão com mesas nas calçadas”, afirma.

Rio de Janeiro

Apesar do alerta de cientistas, o governo do Rio de Janeiro descarta voltar atrás nas medidas de flexibilização. Na terça, o governador em exercício, Claudio Castro, anunciou que começará, na quinta-feira (3/12), um processo de testagem em massa da população, mas não serão tomadas medidas mais restritivas.

Segundo Castro, o estado está ampliando o número de leitos e fiscalizando eventos. “Essas medidas nós consideramos necessárias, para que possamos ter um bom Natal. Também com as pessoas empregadas, com a economia funcionando e a gente podendo botar comida dentro de casa”, afirmou, em coletiva.

O avanço da pandemia no Rio de Janeiro levou pesquisadores, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) a pedir, em nota técnica, medidas mais duras como o fechamento das praias, a suspensão de eventos e a limitação do horário de funcionamento dos estabelecimentos, com fiscalização rigorosa.

Uma das orientações é a avaliação de da adoção do lockdown caso o cenário epidemiológico da doença se mantenha ou se agrave.

Na manhã de terça, a taxa de ocupação das UTIs na rede estadual era de 80% na manhã de hoje, de acordo com a Secretaria de Estado de Saúde.

“No Brasil, assistimos ao aumento acelerado de casos, sem ter ocorrido o término da primeira onda. Os dados sugerem uma nova onda sobrepondo-se à primeira. Isso torna o problema mais grave e complexo. A população está há mais de oito meses com restrições de mobilidade. No entanto, muitos, especialmente os mais jovens, têm se aglomerado em festas, bares, praias e outros eventos sociais. O processo eleitoral, fundamental à democracia, também gerou aglomerações. Atualmente, a mobilidade no estado do Rio de Janeiro tende a se aproximar daquela de antes da decretação do isolamento social”, avalia nota técnica assinada pelo grupo.

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