Conheça o 1º trans com cargo de chefia na Prefeitura de Goiânia

John Maia é o 1º trans a ocupar cargo de chefia na gestão municipal da capital goiana, e 1º do país a estar à frente de uma superintendência

atualizado 03/06/2022 20:25

Vinícius Schmidt/Metrópoles

Goiânia – Uma história de superação. Aos 38 anos, John Maia Gomes foi nomeado há cerca de um mês como superintendente de LGBTQIA+, cargo de gestão ligado à Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Políticas Afirmativas da Prefeitura de Goiânia.

Na vanguarda do movimento de defesa e garantia de direitos para essa população, ele é o primeiro homem trans do país a ocupar uma superintendência. É também o primeiro em um cargo de chefia na administração municipal da capital goiana.

“É um marco não só para a pessoa do John Maia, mas para toda a população LGBTQIA+. É um marco para o país, uma conquista e uma quebra de tabu”, afirma ele.

Publicidade do parceiro Metrópoles
0

Dono de uma história digna de filme, John tem uma trajetória de dificuldades vencidas e uma ligação especial com Goiânia. Foi nesta cidade que ele conseguiu se restabelecer, após o envolvimento com o uso e tráfico de drogas e detenção. Ele chegou a passar um período morando nas ruas da Cracolândia de São Paulo. Em meio a isso tudo ainda houve a perda da mãe.

Em uma conversa com o Metrópoles, o servidor contou sobre sua jornada, a importância de sua transição e o propósito de vida em ajudar pessoas em situação de vulnerabilidade por meio de projetos sociais.

Vida de superação

John nasceu em 1983, em Santo André (SP). Sempre com a genitora, que era mãe solo, ele se mudou para São José dos Campos (SP), onde passou uma infância difícil, com situações de fome e miséria. Ainda em solo paulista, ele se mudou para cidade de Caraguatatuba, onde viveu o trauma da violência sexual, aos 13 anos.

Anos depois, já no início da vida adulta, ele se mudou para a capital paulista, cidade onde viveu a intensidade do vício em drogas, o mundo do crime e o cárcere. Ele relatou que viveu do “lixo ao luxo” em razão da situação. “Eu cheguei a morar no Copan [famoso edifício assinado pelo arquiteto Oscar Niemeyer], vivi situações de luxo com o dinheiro proporcionado pelo tráfico de drogas, mas também morei na rua. A comida que mais marcou na minha vida foi uma marmita azeda, a única coisa disponível para matar a minha fome certo dia”, disse ele.

Preso por um roubo, a sentença de John foi de 5 anos e 4 meses, dos quais passou mais de um ano preso em regime fechado. Depois de cumprir toda pena, voltou para a casa da mãe, onde foi recebido com que ele chama de “apoio surreal”. Foi no litoral paulista que ele conseguiu finalizar os estudos básicos e conquistou um emprego.

Em Goiânia

Buscando um novo direcionamento para sobreviver e resistir às recaídas após a morte da mãe, John veio para Goiânia, cidade que se encantou durante uma passagem. “Uma vez fui para Gurupi de ônibus e passei por Goiânia, fiquei impressionado com o ônibus do Eixo. Quando nada mais parecia fazer sentido e eu precisava de um recomeço, decidi vir para cá, com uma mão na frente e outra atrás, em busca de refazer a minha vida”, afirma.

De acordo com o superintendente, ele chegou à capital com 11 caixas “parecendo cena de filme”, como ele mesmo relata. “Era tudo o que eu tinha”, conta ele, que desde o primeiro momento na cidade iniciou seus trabalhos com a população transexual.

Transição

Foi também na capital goiana que John deu início ao seu processo de transição sexual. Segundo ele, para que isso acontecesse foi muito importante já estar estabilizado na cidade, com um emprego e condições melhores para se sustentar. Entre os trabalhos que passou, John destaca um lava-jato, uma padaria e uma empresa de serviços terceirizados.

“Eu comecei a trabalhar como porteiro em uma empresa de serviços terceirizados que foi fundamental nesse processo. Nesse local eu recebi compreensão com a minha forma de vestir e agir, acolhimento, suporte e isso me deu forças para que eu me encorajasse a começar a transição, em 2017”, conta.

Ele foi o primeiro homem trans a fazer a cirurgia de mastectomia, para a retirada das mamas, no Hospital Estadual Alberto Rassi (HGG). Segundo ele, o procedimento foi realizado pelo cirurgião plástico Sério Augusto da Conceição, que “bateu no peito e abraçou a causa da população transexual”.

A partir de então, os trabalhos de John foram intensificados e a carreira deslanchou. No serviço público municipal há um ano e meio, John ocupou o cargo de gerente de Promoção Social, Cultural e de Saúde da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Políticas Afirmativas.

Projeto social

O grande sonho de John é conseguir ajudar o próximo. Com o projeto Sempre Dá Para Fazer Alguma Coisa, ele realiza ações sociais de distribuição de cestas básicas, roupas, alimentação, material escolar, kits de higiene e um pouco de dignidade.

Ele conta que seu propósito de vida é trabalhar em prol das pessoas em situação de vulnerabilidade social. “As pessoas que estão em situação de rua, as pessoas trans e as pessoas que passaram pelo cárcere carecem de muita atenção. Eu passei tudo isso na pele e vou me dedicar a ajudar essa população que aumenta a cada dia”, ressalta.

Ainda de acordo com ele, quando se tratam dessas populações, vencer o preconceito é uma das principais barreiras a serem derrubadas.

Receba notícias do Metrópoles no seu Telegram e fique por dentro de tudo! Basta acessar o canal: https://t.me/metropolesurgente.

Mais lidas
Últimas notícias