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Copa do Mundo 2026Brasil

Como a política usou as Copas para construir poder e influência

Ao longo de quase um século, Copas do Mundo serviram não apenas ao futebol, mas também a estratégias políticas e diplomáticas

18/06/2026 05:00
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Artes/ Metrópoles
Como a política usou as Copas para construir poder e influência

A Copa do Mundo é frequentemente apresentada como uma celebração do esporte capaz de unir povos, culturas e nações. Mas, ao longo de quase um século de história, o principal torneio do futebol também serviu como ferramenta política para governos de diferentes ideologias e regimes.

Da Itália fascista dos anos 1930 ao EUA de Trump, líderes políticos perceberam o potencial da competição para projetar poder, fortalecer identidades nacionais e melhorar a imagem de seus países diante do mundo. Em muitos casos, o futebol tornou-se uma extensão da política fora das quatro linhas.

Itália 1934: a Copa do fascismo

A Copa do Mundo de 1934, realizada na Itália, é considerada por muitos historiadores o primeiro grande exemplo de uso político do futebol em escala global. O torneio ocorreu sob o governo do ditador fascista Benito Mussolini, que enxergava o esporte como uma poderosa ferramenta de propaganda para fortalecer seu regime dentro e fora do país.

Na época, o fascismo buscava projetar uma imagem de força, disciplina e unidade nacional. Para isso, Mussolini acompanhou de perto os preparativos do Mundial, investindo recursos públicos na construção e modernização de estádios, além de transformar o torneio em uma vitrine internacional para o governo italiano.

A competição foi cercada por símbolos fascistas. Autoridades do regime apareciam com frequência nos eventos oficiais, enquanto atletas e dirigentes eram incentivados a demonstrar lealdade ao governo. Em diversas cerimônias, o tradicional cumprimento fascista era realizado diante de milhares de torcedores e jornalistas estrangeiros.

A pressão pela conquista do título também era enorme. Relatos históricos indicam que Mussolini considerava a vitória italiana uma questão de prestígio nacional. Embora nunca tenham sido comprovadas interferências diretas nos resultados, suspeitas sobre favorecimento à seleção anfitriã e influência política sobre árbitros acompanharam o torneio por décadas.

Jogadores italianos fazem a saudação fascista

A Itália conquistou o título ao derrotar a Tchecoslováquia por 2 a 1 na final, em Roma. A vitória foi imediatamente incorporada à máquina de propaganda fascista. Jornais controlados pelo regime exaltaram o triunfo como uma demonstração da superioridade da nação italiana e da eficácia do modelo político implantado por Mussolini.

O sucesso foi tão explorado que, quatro anos depois, na Copa de 1938, disputada na França, o governo fascista voltou a utilizar a seleção como símbolo de poder nacional. A equipe conquistou o bicampeonato e consolidou ainda mais a associação entre futebol e propaganda política.

A Copa de 1934 estabeleceu um precedente que seria repetido diversas vezes ao longo do século XX: governos perceberam que um grande evento esportivo podia servir não apenas para entreter a população, mas também para construir narrativas políticas, fortalecer lideranças e ampliar a influência internacional de um país.

Argentina 1978: futebol em meio à ditadura

Se a Itália de 1934 inaugurou o uso político das Copas do Mundo, a Argentina de 1978 levou essa estratégia a um novo nível. O torneio foi realizado em meio à ditadura militar comandada por Jorge Rafael Videla, que havia tomado o poder dois anos antes e conduzia uma das mais violentas campanhas de repressão da história do país.

Enquanto estádios lotados recebiam torcedores e jornalistas de todo o mundo, milhares de argentinos eram perseguidos pelo regime. Organizações de direitos humanos denunciavam prisões arbitrárias, torturas, assassinatos e desaparecimentos forçados de opositores políticos durante o período conhecido como “Guerra Suja”.

A junta militar enxergou a Copa como uma oportunidade única para melhorar a imagem internacional da Argentina. O governo investiu grandes quantias na organização do torneio e promoveu uma intensa campanha de comunicação para apresentar ao mundo uma imagem de estabilidade, ordem e prosperidade.

O contraste entre a festa do futebol e a realidade do país era evidente. Um dos principais centros clandestinos de detenção da ditadura, a Escola de Mecânica da Armada (ESMA), funcionava a poucos quilômetros do Estádio Monumental, em Buenos Aires, palco da final do Mundial.

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Manifestante argentina
Jorge Rafael Videla
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Jorge Rafael Videla

Manifestante argentina
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Manifestante argentina

A conquista do título pela Argentina, após a vitória por 3 a 1 sobre a Holanda na final, foi imediatamente incorporada ao discurso oficial. O governo utilizou as comemorações para estimular o sentimento nacionalista e reforçar a ideia de unidade em torno do regime militar. Imagens de Videla entregando a taça aos jogadores se tornaram um dos símbolos mais marcantes daquela Copa.

México 1986: símbolo de recuperação

A Copa do Mundo de 1986 aconteceu em um momento delicado para o México. Em setembro de 1985, apenas nove meses antes do início do torneio, um terremoto de magnitude 8,0 atingiu a Cidade do México, deixando milhares de mortos, dezenas de milhares de feridos e provocando destruição em larga escala na capital.

A tragédia gerou dúvidas dentro e fora do país sobre a capacidade mexicana de organizar o Mundial. Além dos danos causados pelo desastre, o México enfrentava uma grave crise econômica e dificuldades para financiar obras e garantir a infraestrutura necessária para receber seleções e turistas.

Diante desse cenário, o governo transformou a realização da Copa em um projeto de reconstrução nacional. O sucesso do evento passou a ser visto como uma oportunidade para demonstrar a capacidade de recuperação do país após uma das maiores tragédias de sua história recente.

Autoridades mexicanas investiram na recuperação de instalações esportivas, melhorias urbanas e na organização logística do torneio, que acabou ocorrendo sem grandes problemas.

Maradona carrega a Copa do Mundo

A competição atraiu a atenção global não apenas pelo futebol, marcado pelas atuações históricas de Diego Maradona , mas também pela imagem de um país que conseguiu se reerguer em pouco tempo. Para o governo mexicano, a Copa funcionou como uma vitrine internacional capaz de transmitir mensagens de estabilidade, organização e resiliência.

Diferentemente de casos como a Itália de 1934 ou a Argentina de 1978, o objetivo não era fortalecer um regime autoritário, mas utilizar um megaevento esportivo para reconstruir a confiança interna e melhorar a percepção internacional do país após uma tragédia.

O Mundial de 1986 mostrou que as Copas também podem ser usadas como instrumentos de recuperação da imagem nacional em momentos de crise.

África do Sul 2010: uma nova imagem para o país

A primeira Copa do Mundo realizada na África foi utilizada pela África do Sul como uma vitrine para apresentar ao mundo a transformação do país após o fim do apartheid. Além de demonstrar capacidade para sediar um megaevento global, o torneio buscou reforçar uma imagem de unidade nacional, democracia e integração racial.

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Nelson Mandela
Bandeiras nacionais da África do Sul hasteadas à beira-mar com a Table Mountain ao fundo.
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Bandeiras nacionais da África do Sul hasteadas à beira-mar com a Table Mountain ao fundo.

Getty Images
Nelson Mandela
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Nelson Mandela

SERGIO AMARAL/ESTADÃO CONTEÚDO/AE

A figura de Nelson Mandela, símbolo da luta contra o apartheid e da reconciliação sul-africana, esteve profundamente associada ao Mundial. Mais do que uma competição esportiva, a Copa de 2010 representou um marco político e simbólico para um país que buscava consolidar sua nova identidade perante a comunidade internacional.

Brasil 2014: entre a projeção internacional e os protestos

A Copa do Mundo de 2014 foi apresentada pelo governo da presidente Dilma Rousseff como uma oportunidade para consolidar a imagem do Brasil como uma potência emergente capaz de sediar grandes eventos globais.

O torneio fazia parte de uma estratégia mais ampla de projeção internacional, que também incluiu os Jogos Pan-Americanos de 2007, a Rio+20 e os Jogos Olímpicos de 2016.

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Torcedor do Brasil
Dilma Rousseff era presidente do Brasil em 2014
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Dilma Rousseff era presidente do Brasil em 2014

Cadu Gomes/Fotos Públicas
Torcedor do Brasil
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Torcedor do Brasil

Reprodução

No entanto, a preparação para o Mundial coincidiu com as manifestações de 2013, quando milhões de brasileiros foram às ruas para protestar contra os gastos públicos com a Copa, a corrupção e as deficiências nos serviços de saúde, educação e transporte. O slogan “Não vai ter Copa” tornou-se um dos símbolos da insatisfação popular.

Embora o torneio tenha sido considerado um sucesso organizacional, a competição expôs o contraste entre a imagem de modernidade que o país buscava projetar e as demandas da população. Mais do que uma celebração esportiva, a Copa de 2014 mostrou como grandes eventos podem se transformar em palco de disputas políticas e sociais, mesmo em democracias consolidadas.

Rússia 2018: projeção internacional

Em meio a tensões com países ocidentais, a Rússia utilizou a Copa do Mundo de 2018 para projetar uma imagem de modernidade, estabilidade e capacidade de organização.

Ao receber milhões de visitantes e concentrar a atenção global durante um mês, o país buscou reforçar sua influência internacional por meio do chamado soft power, o uso do esporte, da cultura e da diplomacia para fortalecer sua posição no cenário mundial.

Em primeiro plano está Gianni Infantino, presidente FIFA, que discursa num pulpito, e Vladimir Putin, presidente da Rússia o escutando ao seu lado - Metrópoles
O presidente da Rússia, Vladimir Putin, e o presidente da FIFA, Gianni Infantino

A competição se tornou uma vitrine estratégica para o governo de Vladimir Putin diante da comunidade internacional.

Catar 2022 e o debate sobre “sportswashing”

A Copa do Mundo de 2022 transformou o Catar no centro de um debate global sobre a relação entre esporte e política. Desde a escolha do país como sede, organizações internacionais questionaram temas como direitos humanos, condições de trabalho de migrantes e restrições a liberdades individuais.

Nesse contexto, ganhou força o termo sportswashing, usado para descrever estratégias em que governos utilizam grandes eventos esportivos para melhorar sua imagem internacional. O Catar rejeitou as críticas e afirmou que o Mundial impulsionou reformas, modernização e maior integração com a comunidade internacional.

Estados Unidos 2026: a Copa em meio à disputa pela liderança global

A Copa do Mundo de 2026 , dividida entre EUA, México e Canadá, acontece em um momento de forte instabilidade internacional. Sediado principalmente pelos EUA, o torneio ocorre enquanto o governo de Donald Trump enfrenta desafios relacionados a conflitos no Oriente Médio, disputas geopolíticas e debates sobre imigração e segurança nacional.

A recente escalada militar envolvendo Israel e Irã colocou Washington no centro das atenções globais, reforçando o papel dos Estados Unidos nas principais crises internacionais. Nesse contexto, a Copa se transforma em uma oportunidade para o governo projetar uma imagem de liderança, estabilidade e capacidade de organização diante de bilhões de espectadores ao redor do mundo.

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Infantino e Trump
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Donald Trump

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Além da competição esportiva, o Mundial servirá como vitrine para a política externa e para a imagem internacional dos Estados Unidos. Questões como segurança de delegações, controle de fronteiras, concessão de vistos e relações diplomáticas ganharam ainda mais relevância diante do cenário de conflitos e das tensões geopolíticas atuais.

Assim como ocorreu em outras edições da Copa, o torneio ultrapassa os limites do futebol e se torna uma ferramenta de projeção de poder. Em meio a guerras, rivalidades internacionais e disputas por influência global, a Copa de 2026 mostra que o maior evento do futebol continua sendo também um dos maiores palcos da política mundial.

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