Apesar de alta nos enterros, venda de coroas de flores cai na pandemia

Empresário explica por que registrou queda de até 30% no faturamento durante a pandemia do novo coronavírus

atualizado 14/04/2021 17:00

Sepultadores enterram à noite corpo de vítima de Covid-19 no Cemitério da Vila Formosa, em São PauloFábio Vieira/Metrópoles

São Paulo – O mês de março foi o pior da história da pandemia na cidade de São Paulo. Em 31 dias, foram realizados 9.728 sepultamentos, 63% a mais do que em fevereiro. Isso não significa, entretanto, que o mercado de venda de coroas de flores segue o mesmo ritmo crescente.

Em meio a restrições a velórios e enterros na capital, empresas que trabalham com a chamada última homenagem registram perdas desde o início da pior crise sanitária da história do país.

De acordo com William Hashimoto, proprietário da Coroas 24 horas, a queda no faturamento é de 30%. Uma das principais no segmento, a empresa tem cinco anos de história, 11 funcionários e atende em todo território nacional.

Antes da pandemia, ele vendia cerca de oito mil coroas por mês; hoje não passa de mais de cinco mil. Metade das receitas vem de São Paulo.

“Todo mundo acha que eu devo estar vendendo muito, enriquecendo rápido. Me preparei para vender mais, mas não foi o que aconteceu. Muitas pessoas não veem utilidade de pagar caro numa coroa para ser usada pouco tempo [no enterro]”, diz ele, que afirma ter demitido funcionários para conseguir equilibrar as finanças.

Após declarar situação de emergência, em decreto publicado no dia 16 de março de 2020, a Prefeitura de São Paulo limitou a 10 o número de pessoas em velórios e enterros, com até uma hora de duração. No entanto, cerimônias para mortes causadas ou suspeitas por Covid-19 estão suspensas, sendo uma breve despedida no ato do sepultamento a única possibilidade de dar adeus.

Investimento não é barato

No caso de Hashimoto, além das limitações, pesa o fato de os seus principais clientes, as empresas, frearem esse tipo de investimento. Na prática, elas contratam o serviço para homenagear um funcionário que perdeu familiar e a companhia de coroas de flores repassa o pedido a uma floricultura parceira que prepara e entrega o produto final.

Com o recrudescimento da pandemia, os governos estadual e municipal restringiram o funcionamento de atividades não essenciais na fase emergencial, como bares e restaurantes, por exemplo. O encolhimento nos ganhos financeiros da clientela também prejudicam a compra, destaca Hashimoto.

Ele admite que as coroas de flores não são um produto barato. O preço médio de uma venda é R$ 200. Há opções básicas de R$ 70 e outras requintadas que ultrapassam R$ 2.000.

Mesmo em março, mês com mais óbitos para Covid-19, as vendas seguem em baixa. “Nós nunca diminuímos o valor das coroas, [vender] abaixo disso é inviável. Não conseguimos estabilizar depois dessa queda.”

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Rapidez para entregar

Se não se reinventasse, o sócio da Laços para Sempre, Bruno Peres, poderia ter acumulado prejuízos nos últimos 12 meses. Ele pensou que a chegada da pandemia de coronavírus agilizaria a realização das cerimônias.

Hoje, a empresa promete entregar coroas de flores em 30 minutos em qualquer parte do Brasil. Para isso, foram feitos ajustes no site para atender à demanda.

Além disso, criou uma nova opção chamada arranjo de condolências, um vaso de flores brancas entregue a familiares que perderam um ente querido.

Nos primeiros meses de pandemia, Peres sentiu o baque negativo nas vendas, muito pela “desinformação” transmitida sobre o vírus e a “falta de conhecimento” sobre a chance de prestar uma rápida homenagem a um falecido.

Porém, tem conseguido fechar os últimos 180 dias no azul, garante, embora sem detalhar números. “O volume de vendas voltou ao que era normal, vamos dizer assim.”

Com recordes sucessivos de óbitos pela doença, Peres diz que não tem o que comemorar. Em março, a Prefeitura de São Paulo contratou 50 vans para transportar mortos por Covid-19, estendeu o horário de sepultamentos em quatro cemitérios e admitiu novos 50 funcionários para fazer os enterros.

“O sentimento é de preocupação porque o cenário não é bom para ninguém. Causa uma ansiedade muito grande porque ninguém sabe o dia de amanhã. Eu tenho esperança que a pandemia acabe o quanto antes para que possamos voltar a viver. Ninguém está feliz”, encerra.

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