Candidaturas LGBTI+ saltam 86%, mas esbarram em verba curta e preconceito

Entidade que reúne e divulga dados sobre as candidaturas para ajudar a driblar a falta de recursos registra 400 concorrentes pelo Brasil

atualizado 11/10/2020 20:19

Pereira/Metrópoles

Pressionadas pelo crescimento de uma bancada conservadora que aposta no enfrentamento, lideranças identificadas com a pauta LGBTI+ estão buscando nas urnas um espaço de resposta. Nas eleições municipais de 2020, há um aumento expressivo no número de candidatos que militam nessa causa, mas o conservadorismo na política ainda é uma barreira que gera dificuldades, como a falta de acesso a verbas para fazer campanha. Além disso, a violência em suas várias formas é um risco que acompanha políticos vistos como, mais do que adversários, inimigos por uma parcela da sociedade.

Mal havia começado a campanha, na última segunda-feira (5/10), o candidato a vereador em Curitiba Lucas Siqueira (PSB) e auxiliares foram atacados com ovos durante caminhada em um bairro da cidade. O candidato registrou um Boletim de Ocorrência na polícia.

“Eu estava numa das principais ruas da cidade, fazendo nossa campanha, que tem a pauta LGBT, toda a comunicação é voltada para isso. Estávamos com uma caixa de som com o volume autorizado pela lei. Eu com o microfone, andando e falando. Jogaram ovos em nós de uma sacada de um prédio”, relata ele ao Metrópoles.

O político pediu imagens das câmeras do condomínio e disse que pretende insistir na investigação. “Eram ovos, mas poderiam ser objetos ou outras coisas. A agressão foi justamente quando eu falava dos dados de violência, que a cada duas horas um LGBT é agredido”, conta.

Apesar – ou talvez justamente por conta – de histórias como essa, o número de candidatos LGBTI+ aumentou bastante em relação às eleições municipais de 2016. Não há dados oficiais porque o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não questiona essa informação, mas a Aliança Nacional LGBTI+ promove uma campanha de incentivo e treinamento de políticos e apadrinha uma frente suprapartidária que tem até agora 400 candidatos. Há quatro anos, entidades calcularam 215 pleiteantes.

O aumento, portanto, chega a 86%, sem contar os candidatos que não estão no radar da presidente da Aliança Nacional LGBTI+.

Toni Reis, presidente da organização, acredita que o aumento nas candidaturas é uma resposta ao endurecimento do discurso conservador na política. “É uma reação da nossa comunidade. A gente precisa ocupar os espaços que são de direito. Todos têm direito: negros, mulheres, brancos, evangélicos, ateus. Não queremos tirar ninguém, apenas participar”.

O ativista, que não é candidato, defende que a democracia se fortalece com minorias atuantes, mas diz que os grupos que estão à margem sofrem para ter condições de fazer a campanha contra o poder econômico, mesmo com o financiamento público.

“O financiamento fica primeiro com os patriarcas e com quem já está eleito. Estamos no terceiro escalão, com as migalhas. Só que não nos contentamos com isso, queremos o pão inteiro”, afirma ele.

Para buscar ao menos um pedaço do pão, a aliança criou o Programa Voto com Orgulho, um site que reúne e divulga as candidaturas ligadas às bandeiras LGBTI+ e oferece formações aos políticos.

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Violência política

Autor do livro Políticas Públicas LGBT e Construção Democrática no Brasil, o doutorando em Ciência Política pela UnB Cleyton Feitosa afirma que as candidaturas dessa comunidade enfrentam dificuldades para além da falta de interesse dos partidos em financiar campanhas que não consideram promissoras.

“Há hoje a legitimação de um discurso de violência que já existia de uma forma menos evidente, mas que produziu casos concretos e emblemáticos, como o de Marielle Franco [vereadora pelo PSol assassinada no Rio em 2018] e de Jean Willys [ex-deputado federal pelo PSol que abdicou do mandato temendo as seguidas ameaças que recebia e deixou o país em 2019]”, enumera ele.

Para o estudioso, o crescimento nas candidaturas mesmo com essas dificuldades revela a dimensão da vontade de participar de um debate cuja porta tem sido fechada. “Nos governos petistas, houve um pouco mais de abertura, mas agora o Executivo é fechado às pautas LGBTI e nos legislativos há uma presença evangélica crescente, que investe em pânicos morais como ideologia de gênero e na disseminação de fake news. Tudo isso dificulta, mas é preciso buscar representação, começando pelas eleições municipais”, defende.

Longe da “concorrência”

Mesmo com a resposta ao conservadorismo em forma de candidaturas, a comunidade LGBTI+ ainda está longe de competir com seus adversários ideológicos nos rankings de candidaturas.

Dados do TSE registram mais de 2 mil candidatos pelo Brasil em 2020 que têm “padre” ou “pastor” no nome político.

Apesar disso, o coordenador do Programa Voto Com Orgulho, Cláudio Nascimento, vê com otimismo o número de candidatos que defendem a causa este ano e acha que os números refletem uma melhora na visibilidade. “Mas pequena. Por isso é importante promover, explicar, divulgar.”

Ele conta que no próximo dia 15 de outubro a Aliança Nacional LGBTI+, da qual ele é diretor de políticas públicas, vai oferecer um seminário sobre violência política, desinformação e discurso de ódio contra as candidaturas.

Também coordenador da Aliança Nacional LGBTI+, o pastor evangélico Gregory Rodrigues, que não é candidato, lista outro desafio dessas candidaturas: mostrar que a pauta não é apenas a defesa da diversidade.

“Precisamos mostrar às pessoas que, além dessa pauta, os candidatos têm a capacidade de legislar e conduzir o Executivo. Ser LGBT não é um limitador”, afirma. “Mas sabemos que é uma pauta que incomoda, que afronta o sistema. Mas não temos o objetivo de criar uma ditadura gayzista. Senão, já teríamos copiado atitudes da ditadura militar, ocupado espaços à força, prendido quem é contra nossas pautas. Mas não somos assim”, discursa o religioso.

Só de esquerda?

Quase todas as pessoas ouvidas pelo Metrópoles afirmaram que há candidatos gays concorrendo por partidos de centro e de direita, mas que as siglas de esquerda costumam ser mais abertas. “A direita é mais conservadora e moralista, a esquerda é mais vocacionada para mudar a sociedade, combater as desigualdades”, avalia o acadêmico Cleyton Feitosa.

Mas o candidato a vereador em Campina Grande, Paraíba, pelo PSD Rafafá não se encaixa totalmente nesse discurso. Político com algumas eleições no currículo, já foi do PSDB e iniciou a carreira em 2012, quando conseguiu apenas 55 votos como candidato a vereador. Há dois anos, quando tentou uma vaga na Câmara Federal, obteve 13.940 votos.

Apesar de deixar claro em sua propaganda que é gay, ele acredita que são suas ideias para a cidade que mais ajudarão na eleição. “Entrei na política porque na minha comunidade havia a necessidade de ter um representante”, afirma ele.

“Nunca fui eleito, mas nunca deixei de ajudar as pessoas. A necessidade das pessoas de ter uma atenção maior na área da saúde, de infraestrutura e de mobilidade urbana. Isso me fez me candidatar, para ajudar o bairro”, defende ele, que afirma não ter sido vítima de violência por ser gay.

“Nunca sofri ameaças, nunca fui agredido, nunca fui intimidado, nunca sofri preconceito”, garante. “Não agrado todo mundo, mas eu respeito as pessoas, sei onde posso entrar, quando vejo que não é para mim, não vou, não afronto. Não gosto de pisar onde não me cabe”, afirma.

“Mas hoje, dentro da política da Paraíba, sou histórico. Sou o primeiro gay assumido, afeminado, caricato, cômico e diferente que conseguiu entrar na política. Lado A e lado B, oposição e situação me conhecem e me respeitam politicamente. Muitos nem veem a minha sexualidade, mas o conteúdo político que tenho a oferecer às pessoas”, completa ele, uma prova da diversidade de pautas mesmo dentro do universo de candidatos LGBTI+.

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