Cada vez mais alinhado a Bolsonaro, Queiroga completa seis meses no cargo

Posse no cargo foi em 23 de março. Posicionamentos do ministro mostram agenda da Saúde cada vez mais a serviço das posições do presidente

atualizado 23/09/2021 11:45

Ministro da Saúde Marcelo Queiroga, fala com à imprensa sobre a saída do governo 5Hugo Barreto/Metrópoles

Em 23 de março deste ano, há exatos seis meses, o cardiologista Marcelo Queiroga assumiu o comando do Ministério da Saúde. O médico, que tomou posse no pior momento da pandemia, com a segunda onda de Covid-19 em pleno avanço, chegou ao governo fazendo a seguinte promessa: transformar o Brasil em uma “pátria de máscaras”.

Em discurso realizado três dias após assumir oficialmente o cargo, Queiroga defendeu o uso do acessório de proteção facial e prometeu imunizar ao menos 1 milhão de pessoas diariamente contra a Covid-19.

Além disso, o ministro adotou postura técnica e disse que assumiria o cargo para “fazer política de saúde, e não política na saúde”. Hoje, seis meses depois, posicionamentos do ministro apontam que o Ministério da Saúde está cada vez mais alinhado aos discursos e à agenda do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), questionada por grande parte da comunidade médica e científica.

Com contaminação pelo coronavírus confirmada durante viagem da comitiva presidencial aos Estados Unidos (EUA) para a 76ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Queiroga tem sido alvo de críticas por considerar a desobrigação do uso de máscaras faciais no país, solicitada por Jair Bolsonaro, e por ter admitido que decidiu suspender a vacinação de adolescentes sem comorbidades após pedido do chefe.

Além disso, o ministro começou a adotar cada vez mais a postura de “fiel escudeiro” de Bolsonaro. Entre agosto e setembro, Queiroga passou a encerrar eventos e coletivas de imprensa com o bordão mais famoso do presidente: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. A frase não era dita publicamente pelo ministro nos primeiros meses de gestão.

As reações de Queiroga em defesa do presidente ganharam um novo capítulo nesta semana: na noite de segunda-feira (20/9), o ministro mostrou o dedo do meio a manifestantes que protestavam contra Bolsonaro em Nova York. As imagens foram gravadas e divulgadas nas redes sociais.

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Utilização de bordões

Popularizado por Bolsonaro nas eleições de 2018, os bordões “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” e “Deus abençoe o nosso Brasil” se tornaram marcas registradas do presidente. Somente no último mês, o ministro Marcelo Queiroga utilizou as frases em ao menos cinco ocasiões.

Um dos eventos foi o lançamento do curso de Formação de Multiplicadores em Urgências e Emergências em Saúde Mental, em 31 de agosto. Acompanhado de Damares Alves, ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, e do deputado Osmar Terra (MDB-RS), Queiroga finalizou a ação com a frase de Bolsonaro.

“Juntos vamos vencer o nosso único inimigo, que é o vírus. Brasil acima de tudo, e Deus acima de todos”, entoou, ao lado de Damares.

Em 2 de setembro, após desmentir rumores de que seria exonerado do cargo, Queiroga participou de coletiva de imprensa no Palácio do Planalto. “Não sei a quem interessa essa indústria de boatos. Somente para fragilizar o governo. Não pedi demissão nem vou pedir. Estarei aqui até o dia em que o presidente entender que sou útil. Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, afirmou.

A frase também foi utilizada na última sexta-feira (17/9), no lançamento do Plano Nacional de Expansão da Testagem para o Novo Coronavírus, em Natal (RN). Além disso, o ministro passou a utilizar o bordão em publicações nas redes sociais.

Uso de máscaras

Outro ponto que indica o alinhamento de Queiroga ao presidente Bolsonaro é a utilização de máscaras. Apesar de integrar o governo mesmo defendendo o uso do acessório, o cardiologista prepara portaria para recomendar sua desobrigação, atendendo a pedidos de Bolsonaro. Costuma dizer que não é contra o uso do item de proteção, mas de sua obrigação.

Como noticiou o colunista Igor Gadelha, a expectativa do ministro é de que a portaria saia no mês de novembro. Na última segunda-feira (13/9), o ministro contou, para ilustrar como é a relação com os pedidos do presidente, que recebeu do chefe do Executivo uma mensagem de WhatsApp com a notícia de que Portugal tinha liberado o uso de máscara nas ruas.

Desde o início da pandemia, a comunidade científica ressalta que o uso de máscaras, aliado ao distanciamento social e à higienização das mãos, é uma das principais medidas para frear a disseminação do coronavírus.

Pressão

O médico sanitarista e fundador da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) Gonzalo Vecina avalia que o comportamento de Queiroga demonstra que o médico começa a ceder às pressões do presidente.

“Ele fugiu completamente do que se comprometeu a fazer. A atuação à frente do Ministério da Saúde está exclusivamente voltada para política partidária e para agradar o presidente Jair Bolsonaro”, pontua.

Foi justamente por não seguir os desejos do presidente que os ex-ministros Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich deixaram o cargo, nos primeiros meses de pandemia da Covid. Gonzalo avalia que Queiroga só tem permanecido no posto por seguir as ordens de Bolsonaro sem questionamentos.

Ele lembra da polêmica em torno da nomeação da médica Luana Araújo para a chefia da Secretaria Extraordinária de Atenção à Covid-19, criada em maio deste ano. Revelada como a escolha de Queiroga para assumir o posto, a profissional era publicamente contra o chamado tratamento precoce, amplamente defendido por Bolsonaro. Caiu antes mesmo de assumir formalmente o cargo.

No fim de maio, em audiência na Câmara dos Deputados, o ministro afirmou que a nomeação da profissional foi barrada pelo Planalto e que era “necessário ter validação técnica e política” para assumir cargo.

“A Luana era uma boa técnica, aparentemente teria condição de ter boa contribuição ao Ministério da Saúde. Mas porque ele mandou ela embora? Porque ela era contra o tratamento precoce. Ela ia acabar se transformando em um peso para as orientações políticas dele. É um evento muito grave”, pontua Gonzalo.

Desgaste na relação com estados

Outro tema que tem causado polêmicas na gestão de Queiroga é a relação com estados e municípios. Na última semana, o ministro deixou governadores, prefeitos e entidades de saúde surpresos após orientar a suspensão da vacinação de adolescentes saudáveis contra a Covid.

De acordo com o titular da Saúde, a medida foi tomada devido à desordem de estados e municípios na vacinação desse grupo e aos “riscos” de eventos adversos. Os conselhos de secretários estaduais e municipais de saúde (Conass e Conasems), a Anvisa e a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) criticaram a norma e pediram que a suspensão fosse derrubada.

Segundo Queiroga, a decisão foi discutida em conversa com Bolsonaro. “O senhor tem conversado comigo sobre esse tema e nós fizemos uma revisão detalhada no banco de dados do Datasus”, disse o ministro ao presidente em uma transmissão ao vivo, em 16 de setembro.

“A minha conversa com o Queiroga não é uma imposição, eu levo para ele o meu sentimento, o que eu leio, o que eu vejo, o que chega ao meu conhecimento”, disse Bolsonaro.

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