Bom desempenho de Flávio surpreende e faz Centrão reavaliar estratégia
Filho de Bolsonaro frustra esforços por candidatura unificada da direita contra Lula, que segue liderando as pesquisas para 2026
atualizado
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Passado pouco mais de um mês desde que Flávio Bolsonaro (PL) lançou a sua pré-candidatura ao Palácio do Planalto, caciques partidários do chamado Centrão passaram a tratar a entrada do filho “01” de Jair Bolsonaro (PL) na corrida mais como uma realidade e menos como uma manobra para livrar o pai da prisão.
O senador de 44 anos foi escolhido por Bolsonaro para ser o nome do bolsonarismo no próximo pleito contra a provável candidatura do atual presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O anúncio frustrou partidos que esperavam e se mobilizaram para emplacar o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), como candidato.
Bolsonaro escolheu um nome da família para assegurar que seu espólio político não se dispersasse fora do núcleo duro bolsonarista — a contragosto do Centrão. De perfil mais pragmático que seus familiares e com cerca de 8 anos no Senado na conta, Flávio desbancou a madrasta e ex-primeira-dama, Michelle Bolsonaro, e o irmão Eduardo, ex-deputado que está nos Estados Unidos, na disputa intrafamiliar.
“Os Bolsonaros querem manter a hegemonia da direita com eles e isso afetará uma maior coalizão para vencer as eleições sem todo o centro junto. Eles têm esse direito e é legítimo, mas ganhar as eleições assim não creio que seja possível”, disse o deputado e vice-presidente do Progressistas, Claudio Cajado (BA).
De início e em meio às desconfianças, Flávio tentou convencer e ganhar o apoio de partidos como o PP, União Brasil e Republicanos, cujo afastamento com o governo Lula já havia se tornado público. O filho “01” de Bolsonaro chegou a convidar os presidentes das siglas para discutir a sua candidatura dias depois do anúncio.
O encontro, porém, não cessou as dúvidas a respeito da seriedade da intenção do senador em disputar o Planalto. À época, caciques partidários viram no anúncio uma tentativa de pressionar os partidos a dar andamento à dosimetria, que estava parada na Câmara — uma desconfiança que se viu confirmada quando Flávio disse, em sua primeira coletiva como pré-candidato, que havia um “preço” para retirar a seu nome da disputa, citando justamente o andamento do projeto da anistia que poderia beneficiar o pai, condenado a 27 anos e 3 meses de prisão.
“Tem uma possibilidade de eu não ir até o fim e eu tenho um preço para isso, que eu vou negociar”, disse a jornalistas em 7 de dezembro, na saída de um culto evangélico, em Brasília.
Quem é Flávio Bolsonaro
- Senador pelo Rio de Janeiro e primogênito do ex-presidente Jair Bolsonaro;
- Tem 44 anos e nasceu na capital fluminense, em 30/4/1981;
- Foi eleito a um cargo eletivo pela primeira vez em 2003, tornando-se o deputado estadual mais jovem da então legislatura;
- Esteve no cargo até 2019, quando foi para o Senado;
- Atualmente ocupa a presidência da Comissão de Segurança Pública da Casa.
Surpresa nas pesquisas
A virada de mesa se deu em meados de dezembro, quando, pela primeira vez, pesquisas de intenção de voto colocaram Flávio como o opositor com o melhor resultado contra Lula em um eventual segundo turno. O levantamento da Genial/Quaest, divulgado em 16 de dezembro, colocou o petista com 46% e o senador bolsonarista com 36%.
O resultado animou a base bolsonarista rapidamente. O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, disse que Bolsonaro é “uma máquina de transferir votos” e que, em janeiro deste ano, entraria em campanha “de guerra” para angariar votos do Centrão.
Ouvidos pelo Metrópoles pouco mais de um mês depois da informação sobre a pré-candidatura, presidentes de partidos de centro disseram, sob reserva, que o bom desempenho de Flávio nas pesquisas mudou o cenário, ainda mais com um desempenho igual ou melhor que o de Tarcísio, que era a principal aposta do grupo.
Na quarta-feira (14/1), Flávio despontou em segundo lugar na pesquisa de intenção de voto divulgada pela Genial/Quaest em um primeiro turno com 23% contra Lula, que desponta com 36%. Em terceiro, está Tarcísio, com 9%. Lula vence ambos em um segundo turno, mas o governador paulista tem menor diferença de pontos percentuais em relação ao petista.
Ao mesmo tempo, eles apontam que, apesar de ter o melhor desempenho nas intenções de voto, Flávio Bolsonaro ainda registra alta rejeição — o que pode estrangular a possibilidade de crescimento do senador diante de um eleitorado que já é resistente ao seu sobrenome.
Insuficiente
Apesar de vista como bem-consolidada, a largada da candidatura de Flávio ainda não foi suficiente para atrair o apoio formal dos partidos do Centrão. Até o momento, dirigentes partidários têm avaliado que o cenário atual pode levar até mesmo a candidaturas de direita pulverizadas no primeiro turno, frustrando o plano inicial de um grupo unificado sob Tarcísio.
São pré-candidatos os governadores de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), e de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil).
Sob reserva, caciques do União Brasil afirmam, no entanto, que Caiado não tem apoio consolidado dentro da própria sigla. Dirigentes sustentam que a legenda “nunca definiu” qualquer candidatura ao Planalto em 2026.
Membros da cúpula do partido dizem que a pré-candidatura de Ronaldo Caiado também não conquistou apoio dentro da federação partidária que o União deve consolidar com o PP. Apesar disso, eles afirmam que, em dezembro, não se cogitava apoiar uma candidatura de Flávio — o cenário, na avaliação desses dirigentes, poderá mudar diante da consolidação do nome do filho de Bolsonaro na corrida eleitoral.
Um cacique avalia ainda que, caso Flávio Bolsonaro consolide e mostre viabilidade eleitoral, a federação União Brasil-PP poderá até mesmo pleitear uma vaga na chapa. Procurado pela reportagem, Caiado afirmou que não planeja retirar a candidatura a presidente.
Por outro lado, tanto líderes partidários quanto o próprio PL não descartam que a vice possa ser indicada pelo Centrão. Um presidente ouvido pela reportagem disse, sob reserva, que a indicação só seria viabilizada se Flávio caminhasse mais para o centro, enquanto o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, pontuou que a indicação é uma possibilidade, mas que a palavra final é de Jair e Flávio Bolsonaro.












