Bolsonaro diz que Moro é egoísta e não ajuda com coronavírus

Presidente reclama da postura do ministro da Justiça e afirma a interlocutores que está desassistido juridicamente

atualizado 30/03/2020 15:26

Bolsonaro e MoroRafaela Felicciano/Metrópoles

O presidente Jair Bolsonaro está irritado com a postura do ministro da Justiça, Sergio Moro, em relação à crise do coronavírus. No final de semana, o mandatário da República disse a interlocutores que Moro é “egoísta” e não está atuando para defender os seus posicionamentos no enfrentamento às medidas restritivas dos estados e municípios para controle da Covid-19. Bolsonaro, segundo o Estado apurou, reclama de estar desassistido juridicamente.

A irritação do presidente já é sintetizada em uma montagem que circula em grupos de WhatsApp bolsonaristas e mostra o ministro da Justiça em três versões. Na primeira foto, Moro está com uma máscara na boca. Na segunda, a proteção cobre os olhos. Na terceira, duas máscaras tapam os ouvidos.

No fim de semana, em conversa com interlocutores, Bolsonaro criticou a postura do ex-juiz da Operação Lava Jato ao dizer que o ministro “só pensa nele” e “não está fazendo nada” para ajudar o governo na batalha que o presidente trava com os governadores.

Nas redes sociais, Moro tem se isentado de abraçar o discurso de Bolsonaro – o mandatário do país defende que as pessoas fora do grupo de risco voltem ao trabalho. Nesta segunda-feira (30/03), o ministro da Justiça, que já sofre pressão nos bastidores, deu seu recado no Twitter: “Prudência no momento é fundamental”.

A frase foi publicada junto com um artigo do ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF), publicado no jornal O Globo, em que faz um apelo aos magistrados dizendo que “é hora de ouvir a Ciência”. Moro fez questão de destacar um trecho do texto de Fux: “Está na ordem do dia a virtude passiva dos juízes e a humildade de reconhecer, em muitos casos, a ausência de expertise em relação à covid -19”.

O governo federal tem perdido batalhas consideradas caras a Bolsonaro contra governadores e prefeitos. Apesar de Bolsonaro defender isolamento vertical, somente para idosos e pessoas com doenças, estados e municípios seguem adotando a quarentena como medida para controlar o avanço da doença.

Na semana passada, a Justiça do Rio derrubou decisão de Bolsonaro de reabrir templos religiosos e casas lotéricas. Outra derrota foi imposta quando o ministro Marco Aurélio Mello, do STF, decidiu liminarmente que governadores e prefeitos podem determinar sobre as restrições de circulação de transporte. A decisão derrubou um trecho da medida provisória que restringe ao governo federal determinar o que são serviços essenciais.

No domingo (29/03), Bolsonaro disse que teve um “insight” para baixar um decreto no sentido de liberar “toda e qualquer profissão” a trabalhar. Auxiliares da área jurídica têm alertado o presidente de que as decisões individuais da União, dos estados e municípios podem acarretar uma série de ações judiciais questionando as medidas uns dos outros. Eles tentam convencer Bolsonaro de que chegar a um consenso com governadores e prefeitos é mais eficaz.

O presidente, no entanto, não está convencido. Para o titular do Planalto, Moro deveria ajudar o governo na disputa jurídica. A conclusão de Bolsonaro, segundo relatos ao Estado, é de que o ministro, ao optar por não auxiliar o governo fora dos temas ligados à sua pasta, demonstra atuar somente no que lhe dá capital político. Moro já assinou decretos para restringir a entrada de estrangeiros no país.

A avaliação no círculo mais próximo de Bolsonaro é de que o ministro André Luiz Mendonça, da Advocacia-Geral da União (AGU), embora seja tecnicamente bem preparado, é tímido politicamente e tem ficado aquém das expectativas do titular do Planalto na guerra que se transformou a crise do coronavírus. Já o ministro Jorge Oliveira, da Secretaria-Geral da Presidência e responsável pela Subchefia de Assuntos Jurídicos (SAJ), mesmo possuindo relação mais estreita com o mandatário da República, tem adotado postura comedida. Para Bolsonaro, a parte jurídica está sem rumo.

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