Atirador de Marielle foi identificado por câmera de infravermelho

MPRJ diz que motivação do crime foi "repulsa às causas que ela defendia". Suspeitos são acusados de homicídio doloso duplamente qualificado

FÁBIO MOTTA/ESTADÃO CONTEÚDO

atualizado 12/03/2019 16:55

Após a prisão de dois suspeitos de matar a vereadora Marielle Franco (PSol) e seu motorista Anderson Gomes, o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) apresentou denúncia contra o policial militar reformado Ronnie Lessa, 48 anos, e o ex-PM Élcio Vieira de Queiroz, 46. Eles são acusados de homicídio doloso contra a vida duplamente qualificado. Para os promotores, a vereadora foi morta pelas causas que ela defendia.

Ronnie é apontado como o atirador que executou Marielle. Elisa Fraga, promotora de Justiça e coordenadora de Segurança e Inteligência do MPRJ, explicou como Lessa foi identificado. “Recebemos uma imagem gerada por uma câmara de infravermelho que havia o braço direito do atirador. Com isso, pudemos traçar um perfil dele. Fizemos a análise e, com a comparação de outras imagens do Ronnie, observamos uma compatibilidade do réu com o atirador”, detalhou.

Apesar de não ter identificado nenhum mandante, Simone Sibilo, coordenadora do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do MPRJ, ressaltou que as investigações continuam. “A motivação torpe, uma motivação desprezível, ela é decorrente da atuação política. Isso não impede a existência de outros motivos. Nenhuma linha é descartada. É possível que não tenha mandante? Sim. É possível que tenha? Também sim”, destacou, em coletiva de imprensa.

A promotora disse que havia “uma repulsa” de Ronnie Lessa à defesa das minorias. Segundo Simone Sibilo, as pesquisas feitas pelo PM reformado “demonstram perfil absolutamente reativo a essas pessoas que se dedicam às causas das minorias”. “Isso ficou comprovado, ficou suficientemente indiciado a ponto do MP denunciar por essa motivação. Essa é uma motivação torpe, abjeta”, destacou.

Ela destacou que a identificação deve ser séria e não pode se basear em achismos. E não descartou o crime ser “encomendado”. “Estamos apurando o possível envolvimento de outras pessoas. O MP tem que ser prudente. Não trabalhamos com achismo. Esse trabalho é de muita responsabilidade’, concluiu.

A denúncia classifica a execução como “golpe ao Estado Democrático de Direito”. Marielle e Anderson foram mortos na noite de 14 de março de 2018. Partes da investigação continuam em segredo de Justiça.

“Momento importante”
Eliane de Lima Pereira, assessora de Direitos Humanos do MPRJ, diz que a denúncia apresentada nesta terça-feira (12/3) é uma primeira prestação de contas das autoridades. “As famílias merecem essas informações como também a sociedade. Marielle Franco exercia um mandato e morreu na sombra deste percurso. Esperamos avançar nas questões que ainda faltam, mas de uma certa maneira é um momento importante”, ponderou.

A promotora de Justiça Letícia Emile Petriz explicou como o MPRJ chegou às identidades de Ronnie Lessa e Élcio Queiroz. “A partir de uma informação de um local de encontro, os investigadores pediram que o trajeto fosse calculado e perceberam que o carro usado no crime passou pelo local. A construção da prova passou pela investigação do sigilo telefônico”, explicou. Lessa usava um bloqueador de localização, mas o instrumento falhou.
A operação que prendeu Lessa e Queiroz foi antecipada para evitar risco de vazamento. Inicialmente, a ação da Polícia Civil e do MPRJ aconteceria nesta quarta-feira (13/3), véspera da data em que o crime completa um ano. Os suspeitos foram presos volta das 4h30 desta terça (12).

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