Ataque ao Irã tem potencial de reduzir chance de queda da taxa de juros no Brasil
De acordo com especialistas, os recentes conflitos no Oriente Médio podem impactar na decisão do BC quanto ao corte da taxa de juros
atualizado
Compartilhar notícia

O ataque coordenado dos Estados Unidos e Israel contra o Irã nesse sábado (28/2) que resultou na morte do líder supremo do país, Ali Khamenei, tem potencial de diminuir a margem para o corte dos juros no Brasil.
A avaliação de especialistas é que o conflito complica o cenário externo, tendo em vista que choques geopolíticos raramente são apenas eventos regionais, principalmente ao se tratar de grandes produtores de petróleo.
De acordo com o professor de economia da Strong Business School, Jarbas Thaunahy, o Estreito de Hormuz, localizado no Irã, é uma das principais artérias do comércio de petróleo no mundo, por onde passa cerca de 20% da produção mundial. O canal já foi fechado pelas autoridades iranianas.
“Qualquer bloqueio, mesmo parcial, afetaria fluxos de petróleo e gás natural liquefeito. Mesmo sem interrupção física, o simples aumento do risco eleva custos de frete, seguro marítimo e hedge logístico. Isso encarece cadeias produtivas globais e pode gerar novos gargalos em setores dependentes de energia”, disse.
Para o professor, petróleo mais caro significa energia e transporte mais caros. Ele explica que energia é um insumo transversal à economia e uma alta consistente do barril tende a gerar pressão inflacionária adicional, especialmente em economias que ainda estão administrando os efeitos do ciclo inflacionário recente, como é o caso do Brasil.
“Para os bancos centrais, isso complica o cenário. Se a inflação acelera de novo, o espaço para cortes de juros diminui. Em um ambiente já sensível, o petróleo pode postergar flexibilizações monetárias ou até exigir posturas mais conservadoras por mais tempo”, destacou.
A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) está considerando aumentar a produção de petróleo em nível maior do que o programado. O grupo já discutia uma elevação modesta de 137 mil barris por dia para abril. No entanto, diante do conflito, está em análise um acréscimo de 411 mil barris diários. Os líderes da organização devem se reunir neste domingo (1/3) para tratar sobre o assunto.
Situação do Brasil diante do conflito
Thaunahy avaliou que o Brasil ocupa uma posição ambígua. De acordo com ele, se por um lado, o país é produtor e exportador relevante, o petróleo mais caro melhora termos de troca, aumenta receita de exportação e beneficia empresas do setor de óleo e gás.
Por outro lado, combustíveis mais caros pressionam a inflação doméstica, impactam transporte, alimentos, custo de vida e câmbio. Além de dificultar a decisão dos membros do Comitê de Política Monetária (Copom), responsáveis por decidir a taxa de juros no país. A próxima reunião está marcada para o dia 17 e 18 de março.
“O resultado líquido depende da intensidade do choque. Em um cenário moderado, o país pode capturar ganhos externos. Em um cenário de escalada severa, o efeito inflacionário pode neutralizar parte desses benefícios“, explicou.
Entenda a taxa de juros
- A taxa de juros é o principal instrumento de controle da inflação.
- Os integrantes do Copom são responsáveis por decidir se vão cortar, manter ou elevar a taxa Selic, uma vez que a missão do BC é controlar o avanço dos preços de bens e serviços do país.
- Ao aumentar os juros, a consequência esperada é a redução do consumo e dos investimentos no país.
- Dessa forma, o crédito fica mais caro e a atividade econômica tende a desaquecer, provocando queda de preços para consumidores e produtores.
- Projeções mais recentes mostram que o mercado desacredita em um cenário em que a taxa de juros volte a ficar abaixo de dois dígitos durante o governo Lula e o mandato do presidente Gabriel Galípolo à frente do Banco Central.
- Na última reunião, o BC havia sinalizado o inicio da flexibilização monetária, no entanto, os conflitos podem mudar o cenário.
O professor avaliou, ainda, que em ambientes de incerteza elevada, investidores buscam ativos considerados mais seguros, como dólar, títulos do tesouro americano e ouro.
“Esse movimento reduz apetite por risco e pode provocar saída de capital de mercados emergentes no curto prazo. O Brasil pode sentir esse fluxo via volatilidade cambial e oscilação na bolsa”.
Para ele, caso a crise se prolongue, os primeiros impactos devem aparecer em setores intensivos em energia, como
aviação; logística e transporte; indústrias químicas e petroquímicas e empresas altamente dependentes de insumos importados. Na sequência, o efeito se dissemina para o consumidor final via inflação de custos.
Como o Copom decide a taxa de juros
Os diretores do Copom analisam uma série de dados econômicos para decidir o rumo da política monetária do país, inclusive o cenário externo. As atas das reunião do comitê, inclusive, traziam preocupações com relação a política expansionista americana. Conheça quais critérios são levados em consideração:
- Atividade econômica: A atividade econômica é um dos principais fatores observados pelo colegiado, isso porque uma economia aquecida, com índices altos de crescimento pode causar um grande impacto inflacionário. Nesse sentido, a taxa de desemprego também é uma métrica importante a ser analisada. Quando o país atinge o pleno emprego, o risco de crescimento da inflação é mais alto.
- Câmbio: As taxas de câmbio também são levadas em consideração, principalmente ao se tratar do dólar, moeda americana. Quando as taxas de juros estão altas, o mercado internacional pode ficar mais interessado no país, valorizando a moeda brasileira.
- Cenário global: A geopolítica é um dos fatores que recebe mais atenção dos integrantes do Copom, isso porque o país precisa estar atento tanto a conflitos políticos e econômicos que possam afetar o país, quanto a política monetário de outros países, que pode impactar no capital estrangeiro que o Brasil possui.
