Armamentistas fazem ato em Brasília; ativistas pró-desarmamento reagem
Manifestação pró-armas está marcada para começar às 10h desta sexta-feira (9/7), em frente à Catedral de Brasília
atualizado
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Militantes pró-armamento promovem, às 10h desta sexta-feira (9/7), manifestação em frente à Catedral Metropolitana Nossa Senhora Aparecida, em Brasília. Trata-se do “II Encontro Proarmas pela Liberdade”.
O evento é organizado pela Associação Nacional Movimento Pró Armas (Ampa).
Será a segunda vez que a Ampa promove manifestação em Brasília. Em 2020, o grupo também se reuniu em frente à Catedral e marchou em direção à Avenida das Bandeiras, próximo ao Congresso Nacional. Segundo organizadores, cerca de 5,8 mil pessoas participaram do ato no ano passado, já durante a pandemia do novo coronavírus.
O vice-presidente do Pró Armas, André Bedin Pirajá, explica que o protesto se pauta, exclusivamente, em quatro pontos.
O primeiro deles é a manutenção e ampliação dos “direitos” de acesso a armas de fogo. Pedem também respeito à tripartição dos poderes, o cessamento de “hostilidades” e uma Segunda Emenda brasileira – referência ao dispositivo legal na Constituição dos Estados Unidos que estipula, literalmente, em referência aos grupos que lutavam pela independência americana: “Sendo uma milícia bem regulamentada, necessária para a segurança de um estado livre, o direito do povo de manter e portar armas não deve ser violado”.
“O cessamento de hostilidades é importante, pois ocorre uma equiparação entre o cidadão de bem e os milicianos”, diz Pirajá.
“Nós, cidadãos de bens, passamos por um escrutínio público gigantesco. Não podemos ser equiparados àquelas pessoas que praticam crimes”, complementa o vice-presidente, em conversa com o Metrópoles.
Nada além dessas quatro pautas, segundo os organizadores, será tolerado. Além disso, o grupo apoia um movimento “ordeiro e pacífico”. Foi recomendando distanciamento de 1,5 metro entre os manifestantes.
“Não serão toleradas manifestações no sentido de intervenções entre os poderes. Afinal de contas, estamos pedindo estabilidade”, diz o advogado Marcos Pollon, fundador e presidente do Pró Armas, em vídeo de divulgação do evento.
Pirajá também poupa de críticas o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Congresso Nacional.
Em abril deste ano, a ministra do STF Rosa Weber deferiu liminar para suspender a eficácia de diversos dispositivos de quatro decretos publicados dois meses antes que flexibilizam o Estatuto do Desarmamento.
“Banho de sangue”
Ex-consultor da ONG Viva Rio e do Escritório da ONU sobre Drogas e Crimes (UNDOC), de Viena, o sociólogo Antônio Rangel Bandeira critica a realização da manifestação em meio à pandemia e, mais ainda, o que ele chama de “destruição do Estatuto do Desarmamento”.
Rangel foi um dos autores do projeto que resultou na aprovação do Estatuto do Desarmamento, em 2003.
“Estamos ficando em uma situação muito pior do que era até mesmo antes do Estatuto do Desarmamento”, dispara, ao avaliar as políticas propostas e aprovadas pelo governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).
Autor do livro Armas Para Quê?, o especialista lista uma série de decretos publicados durante o atual governo que contrariam o Estatuto do Desarmamento e que, segundo ele, preparam um “banho de sangue”. Para Rangel, flexibilizar a posse e o porte de armas de fogo contribui para o aumento da violência e atenta contra a democracia brasileira.
O sociólogo cita, como exemplo, o aumento do número de munições para civis de 50 para 600 por ano para cada arma; o aumento do número de armas de civis de duas para seis; e a liberação de máquinas de recarga para clubes e civis, sem marcação que permita rastreamento.
“A única lógica que existe para fazer um decreto liberando máquinas de recarga para os clubes de tiros e civis, que vão fabricar munições não rastreáveis, os únicos satisfeitos com isso são as milícias e os bandidos. É um escândalo”, avalia o especialista.
“Esse decreto foi suspenso, pois é um convite para armar a bandidagem. O cara compra arma e munição para se defender, e simplesmente podem roubar dele. Se há esse risco em 50 munições e duas armas, imagina com 600 munições e seis armas?”, completa.
Rangel também avalia que o discurso de flexibilizar o porte de arma para proporcionar o direito de autodefesa ao cidadão se trata de uma ilusão. “Assim como enfrentar a pandemia com cloroquina deu no que deu, querer fazer segurança pública armando o povo tem o mesmo efeito da cloroquina: se bobear, mata”, compara.
“Sangue pela boca”
Membra do Coletivo Feminista Helen Keller de Mulheres com Deficiência e da Rede Desarma Brasil, a psicóloga Vitória Bernardes, de 36 anos, iniciou sua luta pelo desarmamento após ter ficado tetraplégica ao ser atingida por uma bala perdida.
Era noite de 31 de dezembro de 2001 quando Vitória, na época com 16 anos, foi baleada em Novo Hamburgo, região metropolitana de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. A bala atingiu o esôfago, a traqueia e duas vértebras da mulher. “Fiquei consciente durante um período. Eu estava sentindo o meu próprio sangue saindo pela minha boca”, relata a ativista.
Vitória ficou internada por três meses em uma unidade de terapia intensiva (UTI). “Quando isso aconteceu comigo, me perguntei: como que esse guri [o atirador] teve acesso a uma arma de fogo?”, pontua. “Arma é produzida legalmente. É diferente de falar sobre cocaína.”
Com os medidas publicadas pelo presidente Jair Bolsonaro a favor do armamento da população, ela diz se sentir violentada.
“Não tem nada que não me surpreenda, porque a gente sabe que ele nunca defendeu o direito à vida, à dignidade e aos direitos humanos. Mas ver isso materializado é quase que como sentir o sangue na boca de novo. Me sinto profundamente desesperada, ainda mais porque sou mãe”, completa a ativista.
