Após vacinação em massa, Serrana tem esperança de volta à vida normal

O clima em torno do Projeto S é de otimismo. População lamenta imunização em massa não se repetir em todo o país

atualizado 23/04/2021 14:51

Serrana interior de São Paulo, esta na etapa final da vacinação no município paulista, vai imunizar 8,3 mil moradores até domingo (11)Fábio Vieira/Metrópoles

Serrana (SP) – Escolhidos para participar de uma pesquisa sobre a eficiência da vacina contra a Covid-19, os moradores do município de Serrana (SP), que fica a 278 quilômetros de São Paulo capital, estão ansiosos para vencer a pandemia e voltar à vida normal.

Até segunda-feira (12/4), 27.150 pessoas já haviam recebido a proteção contra o novo coronavírus, atingindo cobertura de 97,7% da população-alvo da pesquisa. Levando em conta todos os habitantes do município, Serrana aplicou ao menos uma dose de imunizante em 64% da população, tornando-se a cidade mais vacinada de São Paulo.

A fase de imunização dos participantes do Projeto S está na reta final. Nas próximas semanas, será possível começar a coletar os primeiros dados do estudo. O Projeto S é uma investigação científica do Instituto Butantan que visa promover a vacinação em massa de uma cidade pequena para ver como funciona a dinâmica da imunização na “vida real”.

Conforme o Metrópoles antecipou no último sábado (10/4), há 12 dias o município não precisa buscar vagas na UTI para casos de Covid-19 grave. As autoridades locais preferem não se precipitar, mas especulam que esse cenário seja um dos primeiros sinais do avanço da imunização na cidade.

De acordo com Gustavo Jardim Volpe, um dos pesquisadores do Projeto S, a investigação científica vai até fevereiro de 2022. Além do impacto na rede de saúde local, a iniciativa também observará o comportamento imunizante diante de variantes e qual seria a periodicidade ideal de vacinação para evitar novas ondas da doença.

Nas ruas de Serrana e em frente a postos de participação da pesquisa, o Metrópoles ouviu relatos de otimismo, clima que tomou conta de cada esquina da cidade, mesmo os moradores sabendo que ainda há um longo caminho para percorrer até tudo poder voltar ao normal.

Imunizado viu o tio morrer sem vacina. Segue usando máscara para não passar Covid para filhos e esposa

Nagib Almeida Issa, 27 anos, é comerciante, vende salgados e lanches em Serrana. Ele conta que, no início da pandemia, as pessoas tinham tanto medo de pegar o novo coronavírus que sequer pisavam na rua do comércio, que fica em frente à entrada do hospital referência de tratamento de Covid da cidade. As vendas despencaram.

Hoje, Nagib vende seus salgados por WhatsApp, mas a maioria de seus clientes é formada por funcionários do hospital, que gritam da porta para fazer os pedidos.

“Apesar de a pandemia ter piorado, o pessoal não tem mais aquele medo dos primeiros meses, até preferem vir aqui pegar salgado. Você vê na rua muita gente sem máscara”, diz o comerciante.

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Assim como boa parte da população adulta serranense, ele também foi vacinado pelo Projeto S há mais de duas semanas e já deve ter desenvolvido anticorpos para o vírus. Mesmo assim, conforme pontuou, segue trabalhando com uma máscara cirúrgica para “proteger a família”.

“A vacina não impede a gente de pegar o vírus, eu ainda posso passar para as minhas crianças — um menino de 3 anos e uma menina recém-nascida — e para a minha esposa, que não tomou o imunizante porque estava grávida. Meu tio não conseguiu ser vacinado e morreu em março, ele tinha 78 anos. Dos sintomas até ele falecer, foram apenas quatro ou cinco dias. Meu pai também pegou e ficou muito mal, mas conseguiu superar. Não quero passar por isso de novo.”

Nagib tem razão. Pessoas vacinadas com a Coronavac estão protegidas apenas de desenvolver Covid-19 com sintomas graves; elas ainda podem pegar a doença e transmiti-la para quem não é vacinado.

“Dinheiro o governo tem. Tudo o que está acontecendo aqui em Serrana deveria estar ocorrendo em todo o Brasil”, diz sobrevivente de câncer

São apenas cerca de 20 quilômetros entre Serrana e Ribeirão Preto. Também é a distância que separa Elisabete Bueno da Costa, de 43 anos, de seus parentes que ainda não foram vacinados.

O Metrópoles conversou com Elisabete logo após ela receber a segunda dose do imunizante. Feliz, disse desejar passear com seu cachorrinho pela rua sem medo de pegar Covid. No entanto, também externou angústia pela família que ainda não recebeu a proteção contra o novo coronavírus.

“Todos os dias vejo notícias para saber quando minha irmã pode se vacinar. Eu fico feliz por mim e pelo meu marido, mas o fato de a minha família não estar imunizada tira o meu sono. Dinheiro o governo tem. Então por que não tem vacinação para todo mundo logo? O que faltou o governo fazer? Tudo o que está acontecendo aqui em Serrana deveria estar ocorrendo em todo o Brasil”, destaca.

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Sobrevivente de um câncer de colo de útero, que afetou Elisabete física e emocionalmente, ela diz que procurou se vacinar para nunca mais reviver a experiência de sofrer em um hospital.

“Os mais jovens precisam levar mais a sério. Eu passei por radioterapia e quimioterapia. Ninguém precisa passar por uma experiência dolorida assim. Não desejo sofrer em um hospital, sem saber até onde o seu corpo aguenta.”

Parque itinerante está estacionado na cidade há um ano, e famílias fazem bico para alimentar 16 crianças

No dia 5 de março de 2020, 14 veículos do Center Park Havaí chegavam a Serrana vindos de Varginha, sul de Minas Gerais. Eles desembarcaram carrossel, roda-gigante, carrinhos de bate-bate e outras atrações que brilham os olhos das crianças.

A diversão foi interrompida dias depois, quando o governo do estado de São Paulo decretou a quarentena, que impediu o parque de continuar funcionando. Desde então, os brinquedos continuam no mesmo descampado no Jardim das Rosas, acumulando poeira e ferrugem, resultados da ação do tempo.

Isabela Silva Souza, 26, e Maicon da Silva Araújo, 30, contam que o Center Park Havaí é uma empresa familiar. Eles são cunhados e, juntamente com outros parentes, criam 16 crianças em uma espécie de acampamento. A mais velha tem 15 anos, a mais nova é um bebê de 1 ano.

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“Não estamos parados, nos viramos como conseguimos. Eu faço serviço de pedreiro e pintor. O que o pessoal me chamar, estou fazendo”, diz Maicon. Enquanto isso, Isabela supervisiona as crianças com as aulas on-line.

“Fomos muito acolhidos pelos moradores, graças a Deus. Funcionários da prefeitura vieram até aqui ver o que nós estávamos precisando, e recebemos cestas básicas. Quando chegou o Projeto S, fomos vacinados, consideraram que já somos moradores da cidade há um ano”, declarou Isabela. Ela acredita que ainda vão continuar residindo em Serrana por muito mais tempo.

Para conseguir sair de São Paulo, a família precisa levantar R$ 25 mil. “Só vamos conseguir ganhar dinheiro com o parque novamente quando a doença baixar muito, ou quando todo mundo for vacinado. A gente acha que fica aqui até o fim do ano ou mais”, diz Isabela.

Jovem diz que não quer tomar a vacina e desconfia do projeto

Maicon Werner Moura estava indo para uma academia (que não deveria estar funcionando segundo o Plano São Paulo), quando parou para ver a movimentação em frente a um posto de participação do Projeto S.

“Também achei que a academia estivesse fechada, mas liguei lá e me disseram que eu poderia ir, tem decisão na Justiça que deixa funcionar”, afirmou o jovem desempregado de 27 anos.

Ele disse ao Metrópoles temer que os imunizantes não sejam aplicados de maneira correta, por causa de vídeos que circularam na internet e porque ouviu “falar de mortes após a vacina”. “Olha, eu não vou tomar essa vacina, não. Eu não sou contra, mas estou desconfiado. Vou tomar, mas não hoje”, afirmou.

Gustavo Jardim Volpe, diretor de Atenção à Saúde do Hospital Estadual de Serrana, e também pesquisador do Projeto S, explica que até agora não ocorreram mortes de pessoas plenamente imunizadas pela vacina.

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Em março, após o início da vacinação do Projeto S, Serrana registrou 19 óbitos de moradores da cidade por Covid-19 (incluindo o tio de Nagib Almeida), mas nenhuma dessas pessoas estava imunizada.

“É importante esclarecer esses números, porque estão surgindo distorções absurdas dessa informação. Das 19 pessoas que faleceram em março, duas ou três tomaram apenas a primeira dose da vacina e não tiveram, infelizmente, tempo de desenvolver a imunidade. Notamos ainda que eram pacientes que estavam internados desde fevereiro”, assinala Volpe, médico do Hospital de Serrana.

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