Após lockdown, Araraquara encara desafio de manter mortes em queda

Em conversa com o Metrópoles, a secretária de Saúde Eliana Honain revelou anseios e receios após a reabertura do comércio no município

atualizado 02/05/2021 17:04

Cidade de Araraquara, no interior de São Paulo, após lockdownFábio Vieira/Metrópoles

Araraquara (SP) – Quase dois meses após o lockdown, a cidade de Araraquara, a 285 km de São Paulo, enfrenta agora um novo desafio: manter os indicadores de Covid-19 baixos em meio às deliberações do governo para a reabertura gradativa da economia em todo o estado.

Em entrevista ao Metrópoles, a secretária de Saúde Eliana Honain compartilhou os anseios e receios da população local nesta nova fase de enfrentamento da pandemia. Entre 21 de fevereiro e 2 de março, o prefeito Edinho Silva (PT) adotou o bloqueio total depois que as confirmações de casos, internações e mortes pelo novo coronavírus atingiram o pico.

Como resultado dos 10 dias de lockdown da economia, que incluíram fechamento de supermercados, postos de combustível e transporte público, houve queda de 80% na quantidade de mortes nos primeiros 14 dias de abril, em relação ao mesmo período de março.

No anúncio do lockdown, Araraquara já somava mais mortes em janeiro e fevereiro do que no ano de 2020 inteiro, situação impulsionada pelo avanço da variante P1. “A população viu que não tinha alternativa, estavam todos amedrontados. Tínhamos 10, 12, 16 pessoas à espera de um leito por mais de 24h”, resume.

Antecipação à abertura econômica

Sentada à mesa de seu gabinete, Eliana diz que a prefeitura se adiantou à fase de transição do governo estadual, que permite a abertura de bares, restaurantes e comércio para o público, com capacidade reduzida. Isso tudo para fazer com que a cidade, que ganhou destaque nacional e internacional pela adoção da medida, mantenha a reputação em alta. Ela está na pasta local da Saúde pela quarta vez, todas na administração de Edinho Silva.

Desde 12 de abril, equipes da Vigilância Sanitária têm realizado testes em profissionais de diferentes setores da economia. Em duas semanas, cerca de 2,5 mil araraquarenses foram testados em 256 estabelecimentos.

Desse total, 11 trabalhadores tiveram o resultado positivo, e duas unidades fecharam as portas por sete dias – um supermercado e uma fábrica. De acordo com decreto municipal, a interdição do local só acontece quando duas ou mais pessoas estão contaminadas pelo vírus.

A prefeitura de Araraquara também tem feito testagens em massa nas escolas municipais. Até o momento, 1.577 dos 2.829 funcionários, incluindo terceirizados, fizeram o teste para a Covid-19. Depois do pente fino, as unidades de ensino Henrique Scabello e Waldemar Saffiotti suspenderam as atividades temporariamente.

Eliana ressalta que tanto os estabelecimentos dos setores da economia quanto os da educação afetados pelo vírus só abrirão as portas quando os funcionários estiverem recuperados da doença.

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Testes em massa

Além disso, a comandante da pasta de Saúde salienta que a prefeitura iniciou testagem comunitária em pessoas que estão contempladas na cobertura do programa Estratégia de Saúde da Família (ESF). Desde segunda-feira (26/4), 120 testes foram aplicados em oito bairros e no assentamento Monte Alegre, mas os exames ainda não estão prontos.

Dessa maneira, outra medida destacada pela secretária é o trabalho em conjunto do município com a Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Araraquara para monitoramento do esgoto em 50 regiões da cidade. Segundo ela, o objetivo é verificar quais localidades estão com maior carga viral da doença.

“Se houver um percentual de vírus presente, isso significa que nessa região tem um grande número de pessoas contaminadas. Eu posso até fazer um lockdown regional para manter sob controle a situação da transmissão e não ter que voltar a uma situação mais complicada, que é a de fechamento total da cidade”, explica.

Dados sobre Covid-19 no município de Araraquara (SP)

Araraquara contabilizou três mortes pela Covid-19 na última quinta-feira (29/4), em um total de 385 vidas perdidas até aquele dia. Ao todo, 184 pacientes estão internados nos hospitais da cidade, sendo metade de municípios nos arredores.

A ocupação dos leitos de UTI chegou a 86%, redução de 12 pontos percentuais em relação ao início da semana. Já as vagas destinadas para enfermaria atingiram 64%, alta de quatro pontos percentuais.

Aflitos e aliviados

Na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da Vila Xavier, a única da cidade que funciona 24 horas para a população fazer testes de Covid-19, o movimento caiu significativamente.

Embora a prefeitura não tenha compartilhado dados com a reportagem, funcionários do local afirmam que o lockdown reduziu o número de pessoas que entram e saem da unidade adaptada para o tratamento da doença.

Os horários de maior fluxo na unidade são das 8h às 10h, e das 16h às 17h. Por volta do meio-dia de quarta-feira (28/4), apenas duas pessoas aguardavam ser chamadas pelo médico. O marceneiro Anderson Correia Santos, 38 anos, deixou o local apreensivo após fazer o teste para a doença, cujo resultado sairá dentro de dois dias.

“Eu vim mais por segurança, porque minha filha ‘positivou’ ontem [terça, 27 de abril]. Estou sentindo dor de cabeça faz dois dias, tomara Deus que não dê em nada. Minha mulher também fez e o resultado deu negativo”, disse o araraquarense.

O padeiro Vinícius Augusto, 19 anos, exibia um sorriso que era perceptível por trás da máscara de segurança. Ele caminhou para o lado de fora da UPA com uma guia que informava que o teste para Covid-19 dera negativo.

Para ele, a gripe foi apenas um susto, mas ele se mostra preocupado com a reabertura econômica da cidade. “Eu passei no centro e vi pessoas aglomeradas em lojas. Não sei como vai ser daqui para frente, mas temos que continuar com o mesmo respeito [da época] do lockdown.”

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De maio em diante

Na leitura de Eliana Honain, o bloqueio total só foi bem-sucedido porque a prefeitura olhou para a população mais vulnerável. Entre as ações, destaca o programa de renda Bolsa Cidadania, que disponibiliza R$ 600 mensais para compra de alimentos, e contratação de aproximadamente 500 araraquarenses para trabalho na adequação e higienização de prédios da prefeitura. Eles recebem R$ 1.100 e cartão-alimentação de R$ 540 por mês.

Ainda de acordo com ela, o isolamento social passou a ser uma realidade para famílias pobres a partir do momento em que a gestão Edinho Silva colocou hotéis à disposição para pessoas manterem o distanciamento mínimo permitido pela comunidade científica. Eliana calcula que mais de 20 mil famílias foram atendidas desde o início da pandemia.

Embora se orgulhe dos resultados, a secretária diz que o desafio agora é outro. Se a cidade registrar 30% de casos positivos para o novo coronavírus por três dias consecutivos, o prefeito decretará um lockdown de sete dias. O alerta já é dado à população quando esses indicadores batem 20%.

Araraquara já aplicou 72.235 doses de vacina contra a Covid-19, sendo 45.317 da primeira dose e 26.918, da segunda.

“Nós vencemos um momento terrível, mas vemos com muita preocupação a condução da pandemia em nível federal. Não significa que conseguimos controlar a Covid-19. A gente respira um pouco mais aliviado, mas com uma preocupação muito grande pelo que está por vir”, diz.

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