Análise: Witzel trata política de segurança como jogo de futebol

Governador desceu do helicóptero comemorando a morte do criminoso que havia sequestrado um ônibus. Reação de torcida

RICARDO CASSIANO/AGÊNCIA O DIA/ESTADÃO CONTEÚDORICARDO CASSIANO/AGÊNCIA O DIA/ESTADÃO CONTEÚDO

atualizado 21/08/2019 7:08

A cena, ainda que recente, tornou-se icônica. O governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, desceu do helicóptero com um sorriso no rosto e comemorando. Gol do Flamengo? Não. Um criminoso foi morto. Alguma semelhança? Na cabeça do governador, sim.

Antes que venham as críticas de que estaria, com este texto, defendendo um criminoso, aplico a vacina. Não é uma defesa dele. A polícia agiu dentro da legalidade e seguindo as premissas de um político legitimamente eleito que, por sua vez, resolveu dar novo encaminhamento ao enfrentamento da criminalidade. Com esse discurso, venceu as eleições.

Ao comemorar a reação da polícia contra o sequestrador de um ônibus como se fosse um gol, no entanto, o governador dá uma demonstração torpe de que um jogo e a realidade podem ser tratadas da mesma forma. Uma equivalência moral. Um gol, a humilhação ao adversário, servem para animar a torcida, não para resolver os problemas de segurança pública. Esse desafio exige frieza, objetividade e humanidade.

Em 1994, Rudolph Giuliani assumiu como prefeito de Nova York, que vivia uma crise de violência sem precedentes. Máfia e gangues dominavam parte das periferias e a cidade ostentava níveis de criminalidade típicos de países de terceiro mundo. Na época, eram mais de 30 mortes a cada 100 mil habitantes. Em 2017, o Rio de Janeiro teve 40.

Um dos primeiros passos foi implementar a política de tolerância zero, que determinava punição a todos os crimes, por menores que fossem. A população carcerária aumentou e a violência caiu. Em 2017, Nova York encerrou o ano com 3,7 mortes a cada 100 mil habitantes, uma das menores do país.

O segredo, nessa época, foi a atuação firme da polícia, não da torcida organizada. Ele conseguiu reduzir os crimes em quase 70%. E foi reeleito. Foi no segundo mandato, porém, que ele enfrentou o maior desafio: 11 de setembro. Ele era o prefeito quando os aviões derrubaram duas das maiores torres da cidade em 2001.

A reação do político não foi a de um líder de torcida, conhecido pela alcunha “cheer leader” no país. Ele foi frio e, quando foi provocado pelo príncipe saudita Alwaleed bin Talal, dizendo que o ataque era uma indicação de que os EUA deveriam rever a sua política para o Oriente Médio, respondeu:

“Não há equivalente moral para este ato [ataque terrorista]. Não há justificativas para isso. E uma das razões que eu acho que isso aconteceu é porque as pessoas se envolveram em equivalências morais que não compreendem a diferença entre democracias liberais, como os Estados Unidos e Israel, com estados terroristas e pessoas que perdoam o terrorismo. Então, não acho que a fala está apenas errada, mas, sim, que ela é parte do problema.”

Não há equivalência entre um Fla-Flu e o trabalho necessário da polícia. Torná-los a mesma coisa não é solução, mas parte do problema.

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