Quase um ano após anúncio, delegacias da Receita não saíram do papel
Medida estará prevista no Projeto de Lei Orçamentária de 2027, que será encaminhado ao Congresso Nacional na próxima semana

As delegacias da Receita Federal (RF) focadas no combate ao crime organizado, anunciadas pelo ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad em setembro do ano passado ainda não saíram do papel.
De acordo com interlocutores, a medida foi encaminhada para apreciação do Congresso Nacional e prevê alteração na Lei Orçamentária de 2026 para autorizar novas despesas de pessoal, incluindo a criação e provimento de cargos para a RF e outros órgãos.
No entanto, como o texto ficou parado, a criação das delegacias estará prevista no Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2027, que deve ser encaminhado ao Congresso até o dia 31 de agosto, segundo fontes anteciparam ao Metrópoles.
O secretário da RF, Robinson Barreirinhas, havia informado, no ano passado, que a alteração burocrática necessária para a criação das delegacias estava, inicialmente, inserida na Medida Provisória (MP) alternativa ao Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), que perdeu a validade, e por isso, a delegacia ainda não havia sido criada.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesSegundo informações, serão 2 delegacias de combate a fraude e 10 delegacias de Combate ao Contrabando e Descaminho divididas em diferentes estados pelo país.

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Ver todasCriação das novas delegacias
A necessidade de delegacias de combate ao crime organizado surgiu à luz da Operação Carbono Oculto, que completa 1 ano na próxima semana e revelou uma série de esquemas de lavagem de dinheiro envolvendo o setor de combustível e o mercado financeiro, sendo a primeira vez que uma operação chegou ao centro financeiro do país, a Avenida Faria Lima, em São Paulo.
Além dos esquemas de lavagem de dinheiro, a Operação, que depois se desdobrou em diversas outras, descobriu diversos crimes financeiros cometidos pela gestora de fundos de investimento Reag, ligada ao Banco Master.
À época, Haddad havia informado que o pedido para a criação seria encaminhado ao Ministério da Gestão e Inovação (MGI) e as delegacias deveriam ser instaladas “nos próximos dias”.
A ideia é que as delegacias sejam estruturadas de forma independente, atuando institucionalmente.
“Ao institucionalizar, você impede retrocessos, quando se cria um órgão de estado para tal finalidade, fica mais difícil continuar com a prática [do crime organizado]”, disse ele em entrevista coletiva no Ministério da Fazenda, em Brasília.
Relembre a Operação Carbono Oculto
- Uma megaoperação foi deflagrada contra um esquema criminoso no setor de combustíveis, que tem núcleos comandados por organizações criminosas e operadores da Faria Lima, principal centro financeiro e empresarial do Brasil;
- Foram cumpridos mandados de busca e apreensão contra 350 alvos (pessoas físicas e jurídicas) em oito estados: São Paulo, Espírito Santo, Paraná, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Rio de Janeiro e Santa Catarina;
- Para lavar dinheiro, o grupo teria criado uma estrutura empresarial, infiltrada na cadeia produtiva de combustíveis e no mercado financeiro, por meio de fintechs e 40 fundos de investimento com patrimônio de R$ 30 bilhões;
- Segundo a RF, uma rede de 1.200 postos movimentou mais de R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024, mas pagou apenas R$ 90 milhões (0,17%) em impostos;
- Além dos postos, a operação também mirou a Reag Investimentos, ligada ao Banco Master, cujo dono, Daniel Vorcaro, está preso acusado de crimes contra o sistema financeiro.
Núcleo
Atualmente já existe um núcleo de combate a fraudes, que será reorganizado em delegacias para aprofundar o combate ao crime organizado.
O núcleo conta com uma equipe especializada em fraudes estruturadas e foi criado para impedir a utilização de agentes que fazem parte do mercado financeiro em práticas de lavagem de dinheiro.
No relatório anual de fiscalização, o órgão afirma que, em 2025, ampliou ações contra estruturas desse tipo, inclusive em investigações relacionadas aos setores de combustíveis e às conexões com o crime organizado.
A proposta das novas delegacias, porém, é ampliar e institucionalizar essa estrutura. Em vez de concentrar a atuação em núcleos especializados e operações pontuais, a Receita pretende criar unidades com atribuição específica para enfrentar organizações criminosas e estruturas de fraude de maior complexidade.
A intenção é concentrar servidores e conhecimento técnico para acompanhar estruturas financeiras complexas e atuar de forma integrada com outros órgãos de investigação e controle.
Trunfo eleitoral
A medida também tende a ganhar peso no debate eleitoral de 2026. A segurança pública e o combate ao crime organizado aparecem entre os principais temas da disputa, o que amplia o potencial político da proposta.
Ao incluir no projeto de Orçamento de 2027 a criação das novas delegacias, o governo sinaliza uma resposta direta a essa demanda.
A iniciativa pode ser usada como vitrine para dialogar com eleitores mais sensíveis à pauta da segurança, em um cenário de pressão por ações concretas na área.



