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Parei de frequentar o Pecorino durante algum tempo por um motivo que pode parecer banal para algumas pessoas: a estridente música italiana que tocava no ambiente. Uma playlist insuportável, misto de Laura Pausini e tarantela em alto e bom som. Não havia paz entre uma garfada e outra. Voltei profissionalmente ao restaurante. E a minha primeira surpresa é que haviam substituído a música chata por um jazz e um pop suave.

Nossa, abri um sorriso de ponta a ponta. Só esta mudança já merece um elogio. Ficar atento às percepções dos clientes e fazer ajustes é uma virtude de quem gerencia estabelecimentos comerciais. Sempre reclamava da música e recebia a informação de que era uma ordem da matriz de São Paulo. Os próprios funcionários diziam que não suportavam.

Reparei que o cardápio também mudou. Passou da cor branca para amarela e cresceu de tamanho, desconfortável de manusear, uma coisa meio sem propósito. Os pratos também mudaram, mas sem grandes alterações. O menu é bem dividido, sem ser extenso demais."

Uma das entradinhas xodó é o filé à milanesa cortado em pedacinhos. A carne veio macia, porém a crosta, crocante, estava sem sal e sem tempero. Havia certa compensação com o molho de parmesão e limão, servido à parte. Mas quem não mergulhava a carne no potinho sentia falta de mais personalidade no paladar.

As brusquetas de figo, presunto cru, queijo pecorino e mel (R$ 36,00) estavam perfeitas. O frescor da fruta era visível no aspecto e no sabor. O mel foi servido na medida correta, sem excesso, e o pão estava fresco e crocante. Já a conserva de alcachofra contava com quantidades adequadas de sal, pimenta, limão e azeite. Porém, havia excesso de vinagre — o que tornava o molho ácido, difícil de comer.

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Dos quatro principais experimentados, um foi bem ruim. O risoto com ragu de ossobuco (R$ 56,00) estava seco, mais cozido do que deveria e sem o gosto marcante do ossobuco. Faltou acertar ponto, sabor e tempero, além de caprichar mais na quantidade de caldo para envolver os grãos.

As outras massas estavam apenas ‘ok’. Nada surpreendentemente saboroso, mas também não era desagradável. Pequenos ajustes poderiam ser feitos nos pratos. No papardelle com ragu de pato (R$ 57,00), a massa veio al dente, ótima. Já no ragu, mais uma vez, faltou tempero – sal, pimenta do reino ou algum tipo de erva para dar uma alegrada na boca.

O Parmegiana (R$ 49,00), bem servido, tinha molho de tomate aveludado e equilibrado na acidez. O espaguete alho e óleo, incrivelmente, estava sem sabor. É um prato simples de executar e, exatamente por isso, merece mais atenção. No nhoque com molho de três queijos (R$ 49,00), as bolinhas de batata não tinham sal, mas o molho com três tipos de queijos (sendo que um era gorgonzola) é salgado por natureza. Aí, harmonizava.

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A arquitetura do local é agradável, herdada do antigo Zuu da chef Mara Alcamim. Quando começou a operação, o Pecorino não fez mudanças significativas. Trocou mobiliário e as mesas ganharam toalhas de xadrez azul. O ambiente de concreto e madeira, com pé direito alto, nos dá a boa sensação de que o local é maior do que se pensa.

Apesar disso, falta tempero. Saber temperar é uma arte. Minhas andanças pelos restaurantes de Brasília e do país afora me mostram que muitas casas andam com medo, ou com preguiça, de adicionar camadas de sabor à comida, optando por ficar no básico. Sal, pimenta, limão, especiarias e alho vão muito bem com carnes, peixes e vegetais, desde que equilibrados. Se experimentar o que serve, suponho, o cozinheiro não colocará na mesa de seus clientes pratos sem sabor. Sinto que na cozinha do Pecorino falta experimentar o que é feito antes de servir.

Devo ir?
Sim

Ponto alto: 
O ambiente e a atenção dos garçons

Ponto fraco: 
O risoto. Falta tempero à comida

Pecorino Tratoria
CLS 210 Bloco C Loja 38. Telefone: (61) 3443-8878. De terça a domingo, das 12 às 15h e das 19h à 0h

 

 

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