Quadrinhos: Wagner William traduz a poética silenciosa de Joana D’Arc

Inspirado na obra de Carl Theodor Dreyer, o brasileiro traz uma incrível obra pela editora Texugo

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atualizado 13/03/2019 16:27

O ano de 1928 viu surgir um dos filmes mais extraordinários da história. O diretor dinamarquês Carl Theodor Dreyer já cultivava fama internacional nesse momento crepuscular do cinema silencioso (em 1927 a Warner havia lançado O Cantor de Jazz, com som sincronizado e falado, prenunciando o fim da tela muda). Seus filmes anteriores, como Michael (1924) e A Queda do Tirano (1925), representavam o ápice da então soturna sétima arte nórdica: melodramas sombrios, questões familiares perversas, suicídio, obsessão pela morte.

Pensando em realizar seu primeiro filme na França, uma adaptação da história de Joana D’Arc, Dreyer buscou no teatro amador de Paris um rosto desconhecido para ensaiar sua proposta radical de experimentação cinematográfica. A escolhida foi a atriz Maria Falconetti (originalmente Renée Jeanne), que, sob o jugo autoritário e obsessivo do diretor, fez emergir na tela um tipo de atuação revolucionária, não raro considerada a maior da história desta forma de arte.

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Maria Falconetti como Joana D’Arc

 

Dreyer supostamente trancava Falconetti dentro de uma casa e a impedia de sair enquanto não se sentisse inteiramente incorporada pela persona da mártir francesa que, vestindo-se e passando-se por um homem, lutou na guerra dos 100 anos contra a Inglaterra no século 15. Ela morreu na fogueira após se recusar a confessar que não havia, realmente, sido enviada por Deus. O diretor dinamarquês, fascinado pelo aspecto metafísico e altamente piedoso da história, fez de seu filme O Martírio de Joana D’Arc uma representação sublime da resiliência impenetrável da fé, das faces injustas do poder político e religioso, e da resistência feminina.

Os métodos do diretor, não confirmados e controversos, alcançaram resultados estéticos até hoje (na opinião deste que escreve) não superados. Dreyer refilmava as cenas interminavelmente até o total esgotamento da atriz, que então, naquele momento, atingiria o estado de espírito adequado para o “martírio”. O filme se baseia somente nos autos do julgamento de Joana D’Arc, e, portanto, se concentra em tomadas internas, quase todas em primeiro plano, com os atores sem maquiagem, editados sob forte alinhamento de decupagem.

 

Numa época em que ainda era considerado estranho ver, nas telas do cinema, os rostos de maneira tão aproximada, Dreyer filmou uma obra inteira baseada na relação da “rostidade”: os rostos dos atores, gigantes, sequenciados numa montagem dinâmica, causavam forte impressão no público. Uma relação interfacial se estabelecia: a comunicação se dava nos poros das faces, e essa fotogenia impactava como uma espécie única de poética silenciosa.

Maria Falconetti, em O Martírio de Joana D’Arc, trouxe ao cinema uma corporeidade completamente distinta do gesto do cinema silencioso até então (empostado, derivado ainda do estilo teatral neoclássico de Racine). Sua atuação tem dupla valência: o corpo é um significante em si, e se basta enquanto expressão, dispensando interpretações; e o corpo é também, paradoxalmente, um portal para a transcendência místico-religiosa. Após filmar com Dreyer, a atriz nunca mais atuou no cinema, e seus problemas psicológicos se intensificaram até sua morte, em 1946.

Joana Dark Side
Eis então que o quadrinista potiguar Wagner William, um dos mais diversos e eruditos autores nacionais (de obras premiadas como Bulldogma e O Maestro, o Cuco e a Lenda) resolveu também – a partir do filme de Dreyer e relendo os próprios autos do julgamento – realizar sua versão da tragédia da santa francesa. O Martírio de Joana Dark Side foi lançado no final de 2018 pela Texugo, editora de Wagner, e conseguiu ser, ao mesmo tempo, uma leitura ipsis litteris do filme, e também sua radical reinvenção.

Wagner não esconde a intenção mimética da obra: o filme de Dreyer é recontado na mesma ordem sequencial dos eventos, e sua técnica de ilustração, bem delineada e polida, cremosa e plástica, procura replicar os efeitos de etérea luminosidade que o grande diretor de fotografia polonês Rudolph Maté imprimiu em película. Várias das poses, olhares e gestos do filme, além das falas nos letreiros, também são idênticas. Neste sentido, o quadrinho surge como um tipo de adaptação autoral.

O Martírio de Joana Dark Side, no entanto, não quer ser apenas isso. Como numa espécie de realidade aumentada dentro da mídia, o autor insere, provocando a narrativa de Dreyer, distorções, glitchs e falhas na diegese. Intervenções de seres e personagens, além de falas inventadas e falas contemporâneas, invadem o espaço “sagrado” que está no filme para nos tragar para a era em que estamos vivendo, distinta tanto do século 15 quanto de 1928. O próprio final da história é reconfigurado numa abominação de terror que me lembrou aquele bizarro filme Sob a Pele, de Jonathan Glazer.

Além disso, é importante mencionar o esmero na recriação de O Martírio de Joana D’Arc para os quadrinhos: no filme, Dreyer baseia toda sua linguagem em uma montagem inédita sobre a ideia do primeiro plano. Como diria seu contemporâneo Jean Epstein, “o primeiro plano é a alma do cinema”. Porém, a unidade do quadrinho não é o plano, e sim a página. Wagner William, com seus quadros vazados que parecem inspirados em Will Eisner, transforma esta sintagmática de rostos em uma coleção maravilhosa de faces em cada um de seus arranjos. São variações infinitas no mesmo tema. Exercício de reimaginação de uma mídia para outra.

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Mas mesmo isso não parece ser o propósito final deste estranho quadrinho. O que mais impressiona é William deslocar o sentido original do filme, piedoso e transcendental, para um discurso político sobre a liberdade feminina, usando praticamente as mesmas palavras e imagens. Por trás do véu de alucinação e esquizofrenia que paira sobre atuação de Falconetti, sobrevivem palavras e gestos que dizem muito, e fortemente, à realidade de hoje.

Afinal, Joana D’Arc foi um ser de pura resiliência que ousou capitanear uma guerra com trajes masculinos, sendo rejeitada e torturada pela sua condição feminina. Sua ousadia foi querer ser, enquanto mulher, uma escolhida de Deus, e se recusar (até à morte) a se sujeitar a um discurso clerical e político que, mais do que nunca, representava o establishment patriarcal que a queria manter em seu devido lugar, chamando-a de bruxa. No final das contas, o discurso identitário sobrevive à motivação religiosa, passados os séculos. São coisas de histórias universais, que enriquecem o imaginário qualquer época. Coisas da imortalidade da arte.

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