Homem-Aranha no Aranhaverso é um lindo sonho delirante

O filme mergulha no surreal e incrível mundo dos quadrinhos

Divulgação

atualizado 07/02/2019 8:45

Uma história de super-heróis não passa de, na melhor das hipóteses, um Lindo Sonho Delirante (aquele antigo disco do cantor Fábio). Fantasia-se com o voo, com uma liberdade radical e excitante, com uma forma infalível de justiça. E não esqueçamos que um herói precisa, literalmente, de se fantasiar. Qualquer busca por nexo ou ética que faça o mínimo de sentido numa história do gênero vai falhar, fragorosamente, pois parte dos pressupostos errados.

É por isso que os filmes de super-heróis, por mais que tenham se convertido em racionais máquinas de produzir sequências de ação, não conseguem atingir um nível de alumbramento alucinatório como o que podemos ver na animação Homem-Aranha no Aranhaverso. É o tal fator lindo sonho delirante. A abstração do desenho e a maleabilidade da linguagem icônica ilustrada (e não fotografada), permitem que qualquer coisa faça sentido, ou que não fazer sentido se torne o sentido. É o pedestal surrealista que segura toda história em quadrinhos, e muita gente não consegue perceber isso, relegando esse fator a um imaginário “infantil”.

Sony/Divulgação

 

Homem-Aranha no Aranhaverso vai fundo nessa premissa básica dos quadrinhos e das animações, permitindo que algo cafona e obtuso como super-heróis sejam o baluarte da cultura cinematográfica na atualidade. Sabe como é: num quadrinho, um rato pode falar, um bilionário pode decidir se vestir de morcego e combater o crime nas ruas, ou dois camponeses sozinhos podem derrotar toda uma legião romana. Essa psicose rompe com qualquer atitude aristotélica verossímil, com qualquer representação linear e realista, ignorando regras de um “pacto de suspensão da descrença”.

Vejamos: esse desenho animado se utiliza de uma lenga-lenga (muito popular hoje em dia), tipo física quântica for dummies, para justificar que diversos Homens-Aranha apareçam e colidam justamente no universo do jovem negro/latino do Brooklyn Miles Morales. Quem orquestra esse choque de mundos é um gargantuesco Rei do Crime, que procura prevenir a morte de sua esposa e filho buscando versões alternativas deles no multiverso.

Uma sacada à la Grant Morrison que foi muito bem pensada para as versões Ultimate do Homem-Aranha nos quadrinhos.

A piração cheia de visões possíveis do herói – há até um “Old Man” Peter Parker que prenuncia um futuro decadente ao Aranha – dá margem também a uma alucinante e quase epiléptica contrapartida visual, com direito a retículas e efeitos com técnicas diversas, incluindo um verdadeiramente frutífero (e isso é raro) diálogo com a linguagem dos quadrinhos. Em certo momento parece que fomos parar dentro de um caleidoscópio, tamanha a vertigem de pequenos e grandes recursos, que homenageiam coisas diversas: Katsuhiro Otomo, os Irmãos Fleischer, Ralph Bakshi e o Batman de Bruce Timm.

Mas não é só no visual que o desenho permite soluções histéricas e reconfortantes para quem (agindo sabiamente) não leva os super-heróis a sério: aqui, o Rei do Crime pode ter a megalomania de querer controlar o multiverso; o Homem-Aranha pode usar disparadores de teia mecânicos inventados por ele sem que alguém (Tony Stark por exemplo) questione como isso é possível; e até mesmo a Tia May pode operacionalizar uma base interdimensional. Aqui, Thanos certamente poderia motivar seu genocídio apenas por estar apaixonado pela entidade da Morte, sem sociologismo de quinta série.

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Homem-Aranha no Aranhaverso é o melhor filme sobre o herói

 

Como fan service, Homem-Aranha no Aranhaverso é também dedicado, mas sem vulgaridade. Escritores (Stan Lee, Bendis) e artistas (Ditko, Romita e Romita Jr., Bill Sienkiewicz) são homenageados, enquanto outros filmes do herói são parodiados, criando um perfeito circuito de intermidialidade e derrubando de vez a ideia de que super-heróis precisam sempre ser “rebootados”, que a mitologia já não está aí ao alcance de todos. Fãs devem (imagino) ir às lágrimas com as versões do Homem-Aranha Noir, do famigerado Homem-Aranha 2099, etc., que aparecem na animação.

Lindo sonho delirante. São palavras perfeitas para se descrever os quadrinhos de super-herói da chamada Era de Prata (anos 1950 e 1960) dos comics americanos. Eles popularizaram histórias inocentes e livres de superseres que, com a companhia de seus parceiros supercães, viajam diariamente para outras dimensões, enfrentam coisas como pirulitos gigantes e combatem o crime de sunga na praia.

Uma razão anárquica que parece reconhecer o ridículo dos super-heróis, mas ao mesmo tempo não dá a mínima para isso, e que segue surfando a onda. O Homem-Aranha nasceu nesse contexto. E é bom vê-lo finalmente de volta ao lar.

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