Uma carta para João W. Nery: precisamos te pedir esperança

Primeiro homem trans a ser operado no Brasil pode dar importantes lições em momento marcado pelo medo

Fernando Frazão/Agência Brasil/Agência Brasil

atualizado 30/10/2018 19:45

Olá, João W. Nery,

Me permite te chamar só de João?

Esta carta é porque tá difícil escrever um necrológio hoje – eu era doido pra usar essa palavra, portanto, agradeço a oportunidade. Você morreu no dia 26 e eu não consigo fazer apenas um texto que relembre sua jornada. Agora eu preciso de um amigo. Alguém perto de mim o suficiente, para me lembrar: ainda não desaparecemos.

Você me entende e, por isso, colocou o nome da sua autobiografia de Viagem Solitária. Num momento como este, a sensação é de abandono completo. Não sei nem se dá para comparar como a gente se sente agora com a forma que você se sentiu ao fazer aquela cirurgia em 1977, em plena ditadura militar, como todos os textos sobre sua morte fizeram questão de frisar.

É irônico, pois, quando eles dizem isso, nunca parece que o mérito é seu por ter vencido essa batalha. Eles contam quase como algo que abona o horror daquele regime. Sinais, fortes sinais…

João, já que falam tanto da sua cirurgia durante a ditadura, como você fez para lidar com os apoiadores de um governo assassino do seu círculo íntimo? Aqueles que diziam te apoiar, mas queriam os nossos mortos? Quando eles percebem o nosso lado, tentam justificar dizendo “mas isso não é com você”. É com quem então?

Está difícil encarar as pessoas a favor de quem nos mata. Tá complicado dar bom-dia. A gente vai conseguir perdoar? A gente vive tempo suficiente para isso? Esta coluna viverá?

Mais do que nunca, este é um momento de fortalecer os laços (com quem te quer vivo). É ler, novamente, Devassos no Paraíso, Viagem Solitária, o seu livro a ser lançado sobre velhice, Homens Elegantes, Amora. Uma amiga me falou: neste Natal, só dará livros de presente, porque ainda acredita na educação. Eu aderi à ideia. Farei isso pelos outros e por mim. E ter alguém para chorar quando precisa, porque às vezes será necessário. Chorar significa que ainda importa.

Algumas vezes falei que, no mundo de fake news, devemos olhar para a ficção. Assim, percebi que O Conto da Aia não é a história de um regime teocrático opressor. É sobre a resistência da June. A história é dela! A história é sua, meu guerreiro.

“Desta terra nada vai sobrar, a não ser o vento que corre sobre ela”.

Um abraço úmido de lágrimas.

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