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Pai, Pai: livro de João Silvério Trevisan traz dolorida vivência LGBT

Obra indicada ao Jabuti narra convivência do autor com seu pai, violento e alcoólatra

atualizado

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Pedro Stephan/Divulgação
[Orelha] (c) pedro stephan joão silvério trevisan
1 de 1 [Orelha] (c) pedro stephan joão silvério trevisan - Foto: Pedro Stephan/Divulgação

“Tudo que meu pai me deu foi um espermatozoide”. Com esta frase que entrou para a lista das aberturas de livros inesquecíveis – como as de Anna Karenina e Cem Anos de Solidão –, é do livro Pai, Pai, último romance de João Silvério Trevisan. Aqui, João destrincha suas dores de convivência com seu pai, José Trevisan, violento e alcoólatra, que o elege como vítima primeira por conta da homossexualidade do autor.

O livro, que nasceu em um momento de depressão, começa em tom quase de acusação. Denuncia a violência sofrida por ele, sua mãe e seus irmãos que tinham vergonha de viver em tal situação. A morte da avó paterna e a falência do bar e da padaria pela administração desastrosa de José levou-o ao alcoolismo.

O segundo terço é uma viagem sobre a juventude do autor, fazendo José quase desaparecer do relato, mostrando o rompimento das existências de João e José, fazendo o primeiro descobrir que ele não era a relação dos dois. Aliás, que ele não era só aquela relação. Mas José some apenas fisicamente, pois João parte para o seminário com a sombra do pai sempre presente. Estando longe, João descobre a arte (cinema, literatura e música) e o afeto, ato raro demais na vida daquela criança.

Há até uma reflexão a respeito da vida afetiva de homens gays que cultivam o fantasma do pai (morto ou vivo) e o ostentam na sala como o troféu das suas sobrevivências, mas que na verdade são as chagas abertas das suas vivências.

Companhia das Letras/Divulgação

Entretanto, na parte final, João descobre o tom do perdão. Saem as acusações e a voz vociferante e entram as construções frasais compreensivas e reconfortantes – para o pai e para o filho. Por ser um grande escritor, por mais dolorosa e hemorrágica a lembrança ou constatação, o lirismo da sua escrita mostra seu imenso talento, que levou o livro à coroação de ser indicado ao Prêmio Oceanos – dedicado a romances em língua portuguesa em todo o mundo – e ao Jabuti, maior prêmio de literatura do Brasil.

E o que poderia terminar no mais fundo fosso do inferno, pois assim parece com seu início, como na Divina Comédia, o fim nos leva até o céu da conciliação e do perdão ao encontrar “a sorte de um amor tranquilo” aos 70 anos de idade. Sem dúvidas, uma bênção.

João nos ensina que não há perdão que não seja mútuo. Perdoar é também perdoar-se. É o tipo de construção que só a prosa poética deste escritor tão terno, que configura entre os nossos grandes nomes ainda vivos da literatura, pode dar conta. Assim como só ele para ser lúcido ao analisar a atual situação do Brasil, inclusive politicamente, e mesmo assim terminar nos deixando uma sensação positiva de que a batalha não está terminada e que ainda vale a pena lutar.

Pai, Pai também é um relato íntimo para conhecer a formação do artista e do homem que criou tão belas obras. E para vocês terem noção de quão íntimo é, em uma entrevista, ao contar várias passagens tristes e felizes do livro, o autor chora quase todas as vezes. Quer dizer, ali estão pontos importantes da sua existência.

Se a primeira frase é irretocável e perfurante como a estocada de uma adaga, de lâmina banhada pelo veneno da mágoa, a última é de chorar por sua beleza estética e poder de cura que, se não cicatriza, alivia. “Meu pai me deu um espermatozoide, e assim eu gerei um pai.”

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