Em junho de 2017, Cevilha Moreira dos Santos, 45 anos, foi acusada de cometer um crime grave. Ela sequestrou um bebê em uma agência de emprego no Conic, no Setor de Diversões Sul, e acabou presa e condenada. Quase dois anos depois, a mulher foi encontrada morta em casa na madrugada desta segunda-feira (11/3), em Sobradinho.

O crime, tratado como feminicídio, ocorreu na residência onde ela vivia com o companheiro, Macsuel dos Santos Silva, 35. O homem não tem antecedentes criminais e é suspeito pelo assassinato, segundo informações da Polícia Civil do DF. Ele fugiu do local e está sendo procurado pelos investigadores.

Segundo a PCDF, a vítima tinha marca de facada no peito, sangue na boca, no nariz, e estava com a língua inchada quando foi encontrada em casa. Vizinhos da quitinete onde o casal morava na Quadra 5 de Sobradinho ouviram barulho de briga no imóvel, pouco antes do assassinato.

O chefe da 13ª Delegacia de Polícia (Sobradinho), Hudson Maldonado, ouviu, na tarde desta segunda, testemunhas que possam ajudar a elucidar o feminicídio. “Estamos tentando entender ainda.
Já sabemos que ele era agressivo e havia brigas anteriores”, disse o policial ao Metrópoles.

Segundo a segurança Márcia Ribeiro, 50 anos, vizinha de Cevilha, a mulher e o companheiro se mudaram para o lote subdividido em residências no sábado (9). Desde então, não interagiu com ninguém.

Os vizinhos viram a movimentação da Polícia Militar por volta de meia-noite de domingo (10) na residência do casal. Os policiais bateram na porta do imóvel, mas ninguém atendeu. Foram embora e voltaram 30 minutos depois. A corporação confirmou a informação, mas disse que recebeu mais de um chamado para o caso e, em um deles, o denunciante informou o conjunto errado da casa.

Entenda o caso
Em 29 de junho de 2017, Cevilha foi acusada de sequestrar Valentina, 3 meses, no Setor de Diversões Sul. A mãe, a diarista Arlete Bastos, 29, deixou a criança com ela enquanto fazia exame admissional para uma possível vaga de emprego.

A promessa era de um emprego com salário de R$ 1 mil. Tudo mentira. A mulher fugiu com a menina assim que Arlete entrou no consultório para fazer o exame. Cevilha foi identificada por imagens das câmeras de segurança do prédio e encontrada, sete horas depois, em Planaltina de Goiás, no momento em que tentava escapar em um táxi.

Em novembro de 2017, a 1ª Vara Criminal de Brasília condenou Cevilha a dois anos e seis meses de reclusão. Na decisão, a juíza Marina Correa Xavier diz que a mulher deveria cumprir a pena, inicialmente, em regime semiaberto e pagar 15 dias-multa.

Ela foi condenada pelos crimes de subtração de incapaz e falsificação de documento público, versados nos artigos 148 e 297 do Código Penal, respectivamente. Em fevereiro de 2018, quando progrediu para o regime aberto, Cevilha começou a se relacionar com Macsuel. Até as 17h, ele não havia sido localizado.

Segundo o delegado Hudson Maldonado, Cevilha sofria agressões constantes do companheiro. Aos conhecidos, disse que não procurava a polícia porque dependia financeiramente de Macsuel. O policial descreveu o relacionamento de ambos como “romance macabro”.

Na época do sequestro, Cevilha se relacionava com Neilson Souza Silva, 35. À polícia, ele disse na ocasião que a mulher simulava a gravidez de uma menina. Também contou que o casal namorava havia três anos, mas não residia na mesma casa.

Cevilha, de acordo com o companheiro, não chegou a usar barriga falsa, mas sempre estava com vestidos largos. Detalhe: durante nove meses, não deixava o companheiro tocá-la.

Logo depois do sequestro, na tentativa de ficar com Valentina, a mulher providenciou uma Certidão de Nascimento falsa, mas que tinha erros grosseiros, segundo o delegado. O documento foi emitido em Sobradinho, mas estava com carimbo de um cartório do Gama, embora “Isabele”, o falso nome que ela deu para a menina na certidão, tivesse nascido em 26 de fevereiro de 2017.

Neste 2019, o Metrópoles inicia um projeto editorial para dar visibilidade às tragédias provocadas pela violência de gênero. As histórias de todas as vítimas de feminicídio do Distrito Federal serão contadas em perfis escritos por profissionais do sexo feminino (jornalistas, fotógrafas, artistas gráficas e cinegrafistas), com o propósito de aproximar as pessoas da trajetória de vida dessas mulheres.

O Elas por Elas propõe manter em pauta, durante todo o ano, o tema da violência contra a mulher para alertar a população e as autoridades sobre as graves consequências da cultura do machismo que persiste no país. Desde 1° de janeiro, um contador está em destaque na capa do portal para monitorar e ressaltar os casos de Maria da Penha registrados no DF. Mas nossa maior energia será despendida para humanizar as estatísticas frias, que dão uma dimensão da gravidade do problema, porém não alcançam o poder da empatia, o único capaz de interromper a indiferença diante dos pedidos de socorro de tantas brasileiras.

Colaborou Eric Zambon