Com sangramento, João de Deus é levado da cadeia para UPA em Goiás

"O paciente deve retornar à unidade prisional após a realização dos exames", destaca Diretoria-Geral de Administração Penitenciária de Goiás

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atualizado 10/01/2019 13:52

O médium João de Deus foi levado a uma Unidade de Pronto-Atendimento (UPA), na tarde desta quarta-feira (2/1) após passar mal no Núcleo de Custódia, no Complexo Prisional de Aparecida de Goiânia (GO), onde está preso desde o dia 16 de dezembro por relatos de abusos sexuais de centenas de mulheres durante os atendimentos na Casa Dom Inácio de Loyola, na cidade de Abadiânia (GO).

A Diretoria-Geral de Administração Penitenciária de Goiás (DGAP) informou, por meio de nota, que o líder espiritual teve um sangramento na urina durante uma consulta de rotina nas celas. A equipe médica o encaminhou à unidade de saúde. “O paciente deve retornar à unidade prisional após a realização dos exames”, destaca a nota.

Segundo Ronivan Peixoto de Morais Júnior, advogado de João de Deus na área cível, a ida do médium ao hospital não será acompanhada por nenhum defensor. O advogado responsável pela área criminal, Alberto Zacharias Toron, foi procurado para comentar o fato, mas não retornou até esta publicação.

Denúncia
O Ministério Público de Goiás (MPGO) apresentou à Justiça no dia 28/12 a primeira denúncia contra João Teixeira de Faria por violação sexual e estupro de vulnerável.  A acusação do MPGO foi feita com base em quatro casos relatados entre abril e outubro deste ano, sendo dois por violação sexual e dois por estupro de vulnerável.

Outros 10 que prescreveram são relatados no documento para ajudar na comprovação do modo de agir do médium. Cinco vítimas também constam da denúncia, mas os depoimentos delas precisam de diligências para serem confirmados.

O médium prestou o primeiro depoimento no MP no dia 26/12. Ele afirmou que não se lembra das mulheres que o acusam de violência sexual, uma vez que atendia aproximadamente 1,5 mil pessoas por sessão. Também negou ter praticado qualquer tipo de abuso contra suas seguidoras, segundo o advogado Alberto Toron.

O Ministério Público já coletou 78 depoimentos formais de mulheres que se dizem vítimas do líder espiritual. No dia 10 de dezembro, foi criado o denuncias@mpgo.mp.br, endereço de e-mail com finalidade única de receber denúncias. Mais de 600 mensagens já chegaram ao MPGO.

Do total, 260 se apresentam como vítimas em potencial. Onze residem no exterior: quatro nos Estados Unidos, três na Austrália, uma na Alemanha, uma na Bolívia, uma na Bélgica e uma na Itália. Funcionário da Casa Dom Inácio de Loyola, Chico Lobo afirmou que o local está funcionando normalmente, apesar da prisão.

Prisão
João de Deus cumpre prisão preventiva desde o dia 16 de dezembro, em Aparecida de Goiânia (GO). O Tribunal de Justiça de Goiás (TJGO) determinou o bloqueio de R$ 50 milhões em bens do médium. A decisão tem o objetivo de garantir eventuais indenizações. O dinheiro será usado para reparação das vítimas, caso o líder espiritual seja condenado por abusar sexualmente das denunciantes, bem como para evitar ocultação e dilapidação patrimonial.

De todo o valor bloqueado, R$ 20 milhões estariam destinados às mulheres, e R$ 30 milhões iriam para danos morais e coletivos. A medida cautelar foi assinada pela juíza Marli de Fátima Naves e determina que sejam bloqueados os veículos e imóveis não apenas do médium mas também da Casa Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia.

João de Deus conseguiu pelo menos uma vitória na Justiça. O TJGO concedeu habeas corpus liminar ao acusado pela prática do crime de posse ilegal de cinco armas de fogo encontradas em seus imóveis durante o cumprimento de mandados de busca e apreensão no dia 18 de dezembro, mas ele vai continuar preso, pelo menos por enquanto.

A decisão diz respeito apenas à ação pela posse ilegal das armas e munição, portanto, não tem relação com as centenas de denúncias por abuso sexual que pesam contra ele.

“Assim, ao que me parece, a decisão que decretou a prisão preventiva nos autos em que se apura a prática do pretenso delito de posse irregular de arma de fogo de uso permitido é genérica e, portanto, carece de fundamentação”, decidiu Wilson Safatle Faiad, juiz substituto do TJGO.

O magistrado ressaltou “questões humanitárias” e reforçou que o réu é idoso e está extremamente debilitado por motivo de várias doenças graves.

Ao fixar a fiança de R$ 1 milhão para que o médium responda, em casa, à acusação de posse ilegal de arma e munição, o juiz citou os diversos imóveis, as sete fazendas, o laboratório farmacêutico e uma renda mensal de R$ 60 mil de João de Deus.

A defesa do líder espiritual se manifestou por meio de nota. “Continuaremos firmes no propósito de conseguir sua liberdade, para que ele possa se defender e, principalmente, cuidar de sua saúde, que requer cuidados médicos indispensáveis.”

Durante 2019, o Metrópoles se dedicará a escrever todas as trajetórias de vida das mulheres que vão sangrar enlaçadas em relacionamentos nocivos. O olhar feminino e sensível das profissionais envolvidas no projeto irão humanizar as estatísticas frias, incapazes de criar empatia. Só ela pode interromper a indiferença diante das agressões à mulher. Um contador em destaque na capa do portal marca diariamente esses casos a fim de lembrar que há um longo caminho para acabar com esse ciclo de violência.

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