“Cabeça quente”, disse à família homem que matou tia com rodo na garganta

Após ser preso na cidade pernambucana de Ouricuri, autor do crime bárbaro enviou áudio a parentes avisando que iria pagar pelo que fez

Hugo Barreto/MetrópolesHugo Barreto/Metrópoles

atualizado 13/08/2019 14:12

Minutos após ser preso por policiais civis, o homem que matou a tia no Paranoá com requintes de crueldade, na última quinta-feira (08/08/2019), enviou mensagens de áudio para familiares dizendo que cometeu o crime porque estava de “cabeça quente” e que, agora, pagaria pelo crime. Fábio do Vale, 38 anos, decidiu tirar a vida de Maria Almeida do Vale, 68, porque ela teria “falado mal” dele e também para se vingar do primo, com quem havia se desentendido algumas vezes.

Após o feminicídio, o suspeito fugiu para o Sertão de Pernambuco, mas foi identificado, preso em operação conjunta entre a 6ª Delegacia de Polícia (Paranoá) e a Polícia Rodoviária Federal (PRF) e reconduzido ao DF.

Já em poder dos policiais, o suspeito pediu autorização para enviar uma mensagem à família (ouça áudio abaixo). Em poucas palavras, disse que teria tomado a decisão de forma tempestuosa e que seria julgado pelo crime. Sem demonstrar remorso, narrou aos investigadores como impôs sofrimento à vítima: “Quando entrei no quarto, ela se preparava para dormir, estava só de camisola. Então, usei um rodo para espancar seu rosto diversas vezes. Depois, enfiei o cabo de madeira na garganta dela para ela parar de gemer”.

Fábio confessou que pretendia passar algumas semanas pulando de cidade em cidade para despistar a polícia. No entanto, a logística montada pela PRF, que contou com várias barreiras policiais e abordagens a ônibus de turismo, fez com que o suspeito fosse localizado antes de chegar ao seu destino. “Por várias vezes, chegamos a desviar do itinerário que ele tomava, pois chegou a descer de alguns ônibus e mudar a rota, mas o trabalho feito em conjunto com a PRF e com a Divisão de Operações Aéreas (DOA) foi um sucesso e conseguimos fazer a prisão”, disse a delegada-chefe da 6ª DP, Jane Klébia.

As diligências só serão concluídas após peritos do Instituto de Criminalística (IC) finalizarem os laudos de local e médicos legistas terminarem o exame cadavérico. Os policiais querem entender toda a dinâmica da morte de Maria Almeida, já que muitas informações repassadas pelo suspeito não batem com alguns indícios, como marcas de sangue no banheiro e machucados nos pés, joelhos e cotovelos identificados na vítima. Apesar de o quarto onde o crime ocorreu ser muito pequeno, as marcas remetem ao fato de que possivelmente o corpo tenha sido arrastado.

 

O crime

Aos policiais, Fábio contou detalhes do crime macabro durante o regresso ao DF. Após matar a tia, pegou peças de roupa para vestir o cadáver. O objetivo seria camuflar os hematomas e estancar os sangramentos. Frio, ainda enrolou um pano no rosto de Maria Almeida e, depois, escondeu o tecido dentro de um capacete. “Ele passou um ano nutrindo ódio pela tia e pelo primo até consumar o feminicídio”, disse Jane Klébia.

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Preso na 6ª DP, suspeito relatou detalhadamente o crime macabro
A prisão

Vale foi preso pelos agentes da PRF na estação rodoviária de Ouricuri (PE), distante cerca de 620 quilômetros da capital do estado, Recife, na noite de sexta-feira (09/08/2019). Ele estava dentro de um ônibus interestadual no momento da abordagem.

Veja:

Feminicídio

Na noite de sábado (10/08/2019), o crime foi reclassificado como feminicídio pela Polícia Civil do Distrito Federal. De acordo com a delegada Jane Klébia, a mudança do status da ocorrência se deu em função do vínculo familiar – Maria Almeida era tia de consideração – e da condição de fragilidade da vítima, uma idosa com dependência financeira.

Maria morava em Minas Gerais e estava em Brasília para visitar os familiares. Voltaria para a terra natal no dia em que foi assassinada. Momentos depois do crime, Fábio embarcou em um ônibus com destino ao Piauí e depois pegou outro coletivo em direção a Pernambuco.

Veja imagens da prisão:

 

Com o apoio da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) e da PRF do Piauí, os policiais conseguiram descobrir o itinerário da viagem e localizar o homem em Ouricuri. Ele informou que de lá seguiria para Caruaru, no Agreste de Pernambuco e, em seguida, para Alagoas. O suspeito foi detido e encaminhado para a delegacia de Polícia Civil da região.

Crime

A vítima passou quatro dias no DF. Ela dormia nos fundos da casa dos parentes, em uma espécie de barracão, quando foi atacada. O homem estava no quarto ao lado. A família estava na residência da frente, mas ninguém ouviu nada. Maria foi achada morta com capacete e uma camisa na cabeça, enrolada em cobertores. No tronco, uma calça de moletom do acusado.

O criminoso levou R$ 600 da própria mãe e R$ 200 da vítima. O homem seria dependente de cocaína, segundo a família. Ele usa drogas desde os 13 anos de idade, de acordo com informação dos parentes.

Uma moradora do condomínio disse que soube do crime por acaso. “Vim na casa de outra vizinha e vi os carros da polícia. Eu conheço os pais dele [do suspeito]. São bem tranquilos, educados”, frisou. “Triste demais”, disse outra.

Alcenir Ribeiro dos Santos, 54, é um dos parentes do acusado. Ele contou que todos ficaram abalados. “É um ajudando o outro, na medida do possível. Conheço o Fábio desde menino, o apelido dele era Pipoca. Ele sempre foi tranquilo, o mal que ele fazia era para ele mesmo. Desde adolescente, tem muito conflito com drogas. A gente demora a acreditar. O conheço desde garotinho, tentamos levar pra igreja… Uma pessoa em sã consciência não faria isso que ele fez”, ressaltou.

O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) chegou a ser acionado para prestar socorro à vítima, mas quando a equipe chegou ao local Maria já estava sem os sinais vitais.

Neste 2019, o Metrópoles iniciou um projeto editorial para dar visibilidade às tragédias provocadas pela violência de gênero. As histórias de todas as vítimas de feminicídio do Distrito Federal serão contadas em perfis escritos por profissionais do sexo feminino (jornalistas, fotógrafas, artistas gráficas e cinegrafistas), com o propósito de aproximar as pessoas da trajetória de vida dessas mulheres.

O Elas por Elas propõe manter em pauta, durante todo o ano, o tema da violência contra a mulher para alertar a população e as autoridades sobre as graves consequências da cultura do machismo que persiste no país.

Desde 1° de janeiro, um contador está em destaque na capa do portal para monitorar e ressaltar os casos de Maria da Penha registrados no DF. Mas nossa maior energia será despendida para humanizar as estatísticas frias, que dão uma dimensão da gravidade do problema, porém não alcançam o poder da empatia, o único capaz de interromper a indiferença diante dos pedidos de socorro de tantas brasileiras.

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