Uma boa vida: aos 90 anos, mineira lança livro sobre tricô e memórias

Livro de lançamento da tricoteira Anita Guimarães reúne técnicas de trabalhos manuais e saudosos relatos da movimentada vida da autora

atualizado 19/06/2021 10:51

Capa – Dona AnitaArquivo Pessoal

Ao abrir a câmera do celular, dona Anita Guimarães cumprimentou o Metrópoles com o bom e velho modo mineiro: um caloroso e simpático sorriso no rosto, exalando sabedoria e com olhos azuis translúcidos cheios de afeto, humor e curiosidade. Em menos de cinco minutos de papo, a tricoteira, envolta em um aconchegante cachecol de crochê de grampo confeccionado por ela, já tinha decorado o nome do repórter, reparado que ele é canhoto e dado valiosas dicas para quem deseja se aventurar pelo universo dos trabalhos manuais.

Dona Anita nem se lembra mais de como era a vida antes das agulhas. Seu contato com as manualidades começou aos sete anos de idade, quando aprendeu crochê com a mãe, que sempre a incentivou a ter genuíno interesse por absolutamente tudo que a cercava. Depois, vieram outras mestras vestidas de tias pelo caminho, que ensinaram a ela mais habilidades e técnicas. Desde então, a tricoteira autodidata não perdeu uma oportunidade sequer para descobrir alguma novidade, honrando aquele compromisso firmado com a mãe, lá na infância, de se manter atenta, sensível e curiosa ao mundo.

Em 2019, aos 90 anos de idade, dona Anita decidiu compartilhar a paixão e a riqueza do fazer manual, além da sabedoria adquirida ao longo de toda uma longeva vida. Assim, nasceu Seguindo a Linha – Trabalhos manuais tecidos pela vida, o livro de lançamento da autora que, mesmo beirando um século de vivências e histórias, segue tendo invejável e inspiradora sede de mundo.

“Uma movimentada vida”

Filha de um agente de estação da linha férrea da antiga Central do Brasil e de uma dona de casa, Anita Guimarães nasceu em Engenheiro Corrêa, distrito de Ouro Preto, em Minas Gerais. Desde pequena, sempre teve um temperamento inquieto e sanguíneo, habituada a passar os dias ao ar livre e em movimento, pulando, correndo e desbravando a natureza mineira junto dos seus seis irmãos.

A pedagogia com a qual foi educada foi a dos afetos. Aos sete anos de idade, depois de fugir da missa de uma capelinha, em Barbacena, para jogar futebol com os primos, acabou rasgando a saia enquanto defendia o gol. Envergonhada, voltou para casa à espera de uma bronca da mãe, mas, para sua surpresa, a matriarca sentou junto dela e a ensinou a remendar a peça. Foi a primeira vez que ela teve contato com um trabalho manual. “Ela aproveitava essas oportunidades para nos ensinar”, relembra a mineira.

Por causa do trabalho do pai, Anita e os irmãos cresceram acostumados a ir de uma cidade a outra ao longo da juventude. Por esse motivo, a moça nunca se intimidou com mudanças, e, tendo a oportunidade de conviver com várias pessoas, ampliou o catálogo de histórias vividas.

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Presença assídua na cena artística, religiosa, esportiva e social da região, Anita se decidiu, desde cedo, pela carreira honrada de professora. Com seu jeito delicado e amoroso, possui, até hoje, inúmeros ex-alunos saudosos de seus ensinamentos espalhados pela cidade de Itabirito.

“Tive uma infância excelente e uma mocidade prazerosa. Vivi uma movimentada vida”, resume, orgulhosa.

Durante toda a vida, os trabalhos manuais a acompanharam, sendo generosamente compartilhados com quem se dispusesse a aprender. Enquanto atuava como docente, dona Anita construiu uma família bonita e grande: com seu primeiro e único namorado, com quem casou ainda na mocidade, a tricoteira teve seis filhos – um deles, gerado aos 50 anos.

A família cresceu e segue aumentando: antes da pandemia, a casa de dona Anita era o ponto de encontro de uma penca de netos e netas – são nove, no total –, que ajudam, de bom grado, a terna avó a se manter atualizada da tecnologia e da internet.

Seguindo a linha

Conhecendo, brevemente, parte da rica jornada de dona Anita, fica fácil compreender o por que de ela ter escrito um livro aos 90 anos. “Fiquei pensando: ‘Eu sei fazer tanta coisa… podia ensinar para alguém.’ Eu já tinha ensinado muito, mas queria deixar oficialmente registrada a minha relação com os trabalhos manuais. Comentei isso com meus filhos e eles me incentivaram muito”, revela.

Foram cinco incansáveis anos de muito trabalho e pesquisa, por parte dela, da família e da dezena de profissionais envolvidos, até que o livro de dona Anita viesse ao mundo. Reunindo memórias da autora e ensinamentos sobre alguns métodos de trabalhos manuais, Seguindo a Linha – Trabalhos manuais tecidos pela vida é um convite amoroso a todas as pessoas que desejam aprender, passo a passo, a arte do fazer das mãos. O livro encoraja os leitores, sobretudo, a refletirem sobre o poder do exemplo, do convite e da busca constante pelo conhecimento na formação integral do ser humano.

“Queríamos fazer um registro brasileiro sobre manualidades que abordasse como esses trabalhos vão se costurando com as histórias das famílias. Então, entrelaçamos algumas técnicas [manuais] com relatos de histórias que a minha mãe viveu”, explica João Paulo Guimarães, filho de Anita, que assina a revisão e produção geral da obra.

O livro, de 154 páginas, possui fotos de arquivo da mineira, infográficos e ilustrações exclusivas em aquarela e nanquim. No total, são abordadas, de forma didática e acessível, oito técnicas manuais, entre tricô, crochê, trançados, nhanduti e macramé. A ideia é que qualquer pessoa, ainda que não tenha muita familiaridade com as manualidades, possa compreender os conceitos tratados e dar início às atividades.

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Publicar um livro aos 90 anos foi um grande e memorável feito, é verdade. Mas, dona Anita considera a obra, acima de tudo, um lembrete de algo que ela nunca perdeu de vista: o valor imensurável do fazer manual em sua vida.

“A atividade manual me deu prazer e convivência; me enalteceu e me valorizou. Por causa dela, sinto que fui útil, e isso é muito bom e significativo pro ego da gente [risos]. É uma companhia que nunca me deixa ver as horas passarem, e compartilhá-la foi um grande prazer”, finaliza.

Para conferir mais informações sobre a simpática dona Anita, bem como sobre o livro Seguindo a Linha, acesse o seu perfil no Instagram ou o site da editora.

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