Tricô vira ferramenta poderosa de autocuidado na pandemia

Os trabalhos manuais se consolidaram como um instrumento de escape e superação em tempos de distanciamento

atualizado 29/05/2021 15:34

TricôGetty Images

Cá estamos a caminho do 15º mês de pandemia de Covid-19. A essa altura, em meio a tantos medos, dúvidas e tristezas, manter o brilho no olhar e a capacidade de arquitetar planos futuros é um desafio quase unânime. É importante se agarrar a qualquer atividade que suspenda, ainda que provisoriamente, as angústias e incertezas que insistem em assolar o peito.

Quem diria que, no meio de todo esse caos, um par de agulhas, alguns novelos e uma dose generosa de empenho e paciência seriam a linha tênue entre a loucura e a sanidade para um bocado de gente? Muitas pessoas encontraram nos trabalhos manuais – sobretudo, durante a pandemia –, uma forma de distração e autocuidado. A prática alivia o estresse e a ansiedade, exercita a concentração e ainda permite desacelerar em tempos em que o mundo está tão apressado.

Viviane Basile atesta o aumento da procura pelas manualidades no último ano. Desde 2019, a jornalista e empreendedora é dona da Casa da Vivi, uma das principais lojas especializadas em fios, tecidos e acessórios para tricô, crochê e costura da capital, que também ministra aulas, cursos e oficinas.

“A ideia da Casa sempre foi ser um espaço de acolhimento, por isso esse nome. Queria receber as pessoas, servir um café, estar perto e tricotar com elas. Sempre acreditei nas atividades manuais como um trabalho coletivo”, afirma.

Viviane Basile
Viviane Basile é a mente por trás da Casa da Vivi, uma das principais lojas especializadas em fios, tecidos e acessórios para trabalhos manuais da cidade

Com a crise sanitária, a agenda frenética de cursos precisou migrar, rapidamente, para o digital. Para a surpresa de Vivi, isso só fez com que as turmas crescessem. “Muita gente começou a tricotar conosco durante a quarentena. Começamos a agregar pessoas de fora de Brasília e a comunidade cresceu, firme e unida”, conta.

“Sempre acreditei nas atividades manuais como um trabalho coletivo”

Viviane Basile

Só durante o ano de 2020, desde o começo da pandemia, foram mais de 120 alunos matriculados em, aproximadamente, 30 turmas de cursos on-line ministrados pela Casa. “Em um momento de tanta tristeza e solidão, é muito gratificante saber que estamos proporcionando bem-estar para as pessoas por meio do tricô”, garante Vivi.

Reinventando o luto

Foi em uma dessas turmas que Vivi “esbarrou” com Camila Martins, uma de suas alunas. A jornalista, que já bordava, mora no Suriname há pouco mais de três anos, e embarcou na onda dos cursos on-line para aprender tricô, ainda no início da pandemia. “Tinha parado de trabalhar, dado à luz há pouco tempo e estava em um país onde não conhecia ninguém. As manualidades foram o início do que eu considero uma jornada de autoconhecimento. Encontrei nelas um lugar de calma e uma oportunidade de ter momentos só para mim – algo que é difícil quando temos filhos pequenos”, explica.

Camila Martins
A jornalista Camila Martins embarcou em uma jornada de autoconhecimento e reinventou o luto por meio do tricô

Em agosto de 2020, Camila perdeu o pai para a Covid-19. Morando longe de casa e impossibilitada de voltar para o Brasil, ela não pôde se despedir dele, nem contar ou oferecer suporte para a família durante o momento delicado. Então, mais do que nunca, se jogou no seu novo hobby.

“Foi aí que eu vi que o trabalho manual me deu uma comunidade e me salvou. Não conseguia pensar na minha perda sem desmoronar. Mas, ali, nos encontros on-line, eu tinha a sensação de que nada de ruim estava acontecendo”, recorda. “Não sei se vivi o luto da melhor forma, só sei que o tricô, sem dúvidas, me deu forças para que eu não parasse naquele lugar”, resume.

Camila constatou, da maneira mais difícil, os efeitos terapêuticos que as práticas manuais carregam. Graças a elas, a jornalista conseguiu reinventar a dor e superar o momento difícil que estava vivendo. “Encontrei, no tricô, um jeito de me refazer e de me reconectar, comigo e com as outras pessoas. A atividade te permite trabalhar coisas dentro de você com as quais, às vezes, você nem está sabendo lidar”, reflete.

Tecendo uma rede de apoio

Recentemente, a arquiteta e artista plástica Alessandra Louçana também descobriu, nas manualidades, um caminho de reaproximação e resgate de suas raízes. Para ela, as agulhas sempre foram sinônimo de casa, calor e segurança, principalmente, por causa da avó tricoteira, com quem viveu durante a infância, em São Paulo. Há 15 anos, a neta de dona Nena mora em Roraima com o marido e os filhos.

Alessandra Louçana
A arquiteta Alessandra Louçana descobriu, nas manualidades, um caminho de reaproximação e resgate de suas raízes

Apesar de já ter certa afinidade com o bordado e o crochê, Alessandra nunca tinha se arriscado no tricô. O confinamento foi a oportunidade que lhe faltava para se reconectar com a atividade ancestral. “Já estava enjoada de pintar. Decidi, então, buscar os talentos manuais que estavam adormecidos em mim. Na verdade, foram eles que me chamaram”, ri.

Quem deu à arquiteta as boas-vindas a esse universo foi a Potira, um coletivo brasiliense de manualidades que busca recuperar o costume de mulheres se reunirem em círculo para tricotar e compartilhar saberes e experiências. “Nosso objetivo é criar uma rede de apoio de mulheres e resgatar a essência feminina, que é coletiva”, afirma a professora e artesã Rachel Bessa, há mais de 20 anos à frente da iniciativa.

Rachel Bessa
Por meio do coletivo Potira, Rachel Bessa busca criar uma rede de apoio de mulheres através das manualidades

Com um dos projetos mais populares do coletivo, O Manto, Rachel conduz as parceiras em uma jornada de investigação interna e autoconhecimento. Durante cinco luas, cada mulher tece seu próprio manto, enquanto leem, em grupo, o clássico literário de Clarissa Pinkola, Mulheres Que Correm Com Os Lobos. “São mulheres se redescobrindo, percebendo seus ciclos e aferindo como precisamos umas das outras”, elabora a empreendedora.

Coincidentemente, o manto foi a primeira peça tricotada por Alessandra. Além das trocas valiosas que pôde ter com as mulheres durante os encontros on-line, a artista plástica garante que a trama também serviu para driblar um pouco a saudade que está do calor dos abraços e da família, que mora longe. “Fiquei feliz em ter descoberto esse novo mundo”, encerra.

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