Hotéis incorporam agenda climática aos negócios e redesenham a hospedagem
Empreendimentos brasileiros têm investido em energia limpa, eficiência energética e novas práticas para avançar na descarbonização

A experiência de uma viagem sustentável não se limita à escolha do destino ou ao meio de transporte. A hospedagem também entrou na agenda de descarbonização do turismo, levando hotéis e redes brasileiras a rever processos, investir em energia limpa e buscar alternativas para reduzir as emissões de gases de efeito estufa. De iniciativas na operação a projetos estruturais, o setor começa a incorporar a agenda climática aos negócios e a redesenhar a maneira de receber viajantes.
Mas, na prática, o que significa tornar um hotel zero carbono e quais empreendimentos brasileiros já estão investindo nessa transformação?
De acordo com Rui Medeiros, diretor de operações da Atrio, empresa que entrega um ecossistema de soluções em hospitalidade para ativos como hotéis e resorts, um hotel neutro não é necessariamente um empreendimento que deixou de emitir gases de efeito estufa.
“Na prática, o processo começa pela mensuração das emissões, por meio de um inventário que identifica as principais fontes de carbono da operação. A partir desse diagnóstico, o hotel deve implementar ações para reduzir suas emissões e neutralizar aquelas que ainda não puderam ser eliminadas”, explica o executivo.
Para ele, a lógica, portanto, deve ser: medir, reduzir e neutralizar. A compensação não deve substituir o esforço contínuo de redução das emissões da própria operação.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesAinda segundo Medeiros, entre as principais fontes de emissão na operação hoteleira estão a climatização, o aquecimento de água, o consumo de gás em cozinhas e outros equipamentos, a energia elétrica e os gases refrigerantes utilizados nos sistemas de refrigeração.
“Quando ampliamos a análise para toda a cadeia de valor, também entram fatores como lavanderia terceirizada, alimentos e bebidas, resíduos, compras, fornecedores e transportes”, complementa.
Ele cita a Atrio como exemplo, destacando a substituição dos sistemas de aquecimento de água a gás por bombas de calor elétricas. Além de reduzir o consumo de combustíveis fósseis, a iniciativa tem proporcionado ganhos de eficiência operacional e contribuído para a redução de custos.
“O Brasil ainda possui uma vantagem importante nesse processo por contar com uma matriz elétrica predominantemente renovável, o que torna a eletrificação de determinados consumos particularmente interessante para a descarbonização”.
Rui Medeiros, diretor de operações da Atrio
Exemplos concretos
Na Atrio, a descarbonização já faz parte das iniciativas adotadas em empreendimentos como o Ibis Santos Valongo e o Novotel Santos Gonzaga, que iniciaram o processo de certificação como Hotéis Neutros de Carbono em 2022 e renovaram o reconhecimento em 2026.
Segundo Rui Medeiros, desde o início do projeto, os hotéis realizam inventários de emissões, ações de neutralização e medidas para reduzir progressivamente a pegada de carbono das operações.
O executivo destaca que o envolvimento dos investidores foi fundamental para viabilizar as mudanças, que incluem modernização de equipamentos, sistemas de climatização e aquecimento de água. A participação dos colaboradores também é indispensável, com práticas de uso eficiente dos equipamentos, controle de consumo, gestão de resíduos e manutenção preventiva.
“Mais do que obter uma certificação, o desafio é transformar a descarbonização em parte permanente da gestão do empreendimento”, afirma Rui.
Investimentos e desafios da descarbonização
A modernização de hotéis tradicionais envolve desafios financeiros, tecnológicos e operacionais. Segundo Rui, muitos empreendimentos foram projetados com tecnologias que já não atendem às atuais demandas de eficiência energética. A substituição de sistemas de climatização, aquecimento de água, iluminação e automação pode exigir investimentos expressivos.
Além disso, como os hotéis funcionam 24 horas por dia, as intervenções precisam ser planejadas para minimizar impactos na experiência dos hóspedes e na operação. Outro desafio é alinhar proprietários, investidores, operadoras e bandeiras, que nem sempre são os mesmos agentes, em torno dos investimentos e dos benefícios esperados.
Para Rui, a descarbonização também depende de uma mudança cultural. O acompanhamento de indicadores, a manutenção preventiva e a capacitação das equipes são necessários para incorporar a sustentabilidade à rotina dos empreendimentos.
Em relação aos custos, o executivo explica que não existe um valor médio aplicável a todos os hotéis. Enquanto empreendimentos econômicos, com 100 ou 150 apartamentos, apresentam determinadas necessidades, resorts com piscinas, lavanderias, grandes cozinhas e áreas de lazer demandam soluções diferentes.
A recomendação é avaliar cada empreendimento individualmente e estabelecer etapas de investimento. Medidas como iluminação LED, ajustes de temperatura, controle de vazamentos e programação de equipamentos podem gerar economias com aportes menores. Já a substituição de sistemas de climatização, a instalação de bombas de calor, a geração fotovoltaica e a automação predial exigem investimentos mais elevados.
Na Atrio, a substituição de sistemas de aquecimento de água a gás por bombas de calor é um exemplo de iniciativa que combina redução do consumo de combustíveis fósseis e ganhos de eficiência operacional.
O prazo de retorno financeiro varia conforme o investimento, o perfil de consumo e a infraestrutura existente. Por isso, segundo Rui, o payback deve ser calculado individualmente para cada projeto.
Energia, água e resíduos na hotelaria
A redução da pegada ambiental dos hotéis também depende de ações relacionadas ao consumo de água, à gestão de resíduos e à eliminação de plásticos descartáveis. Rui ressalta, porém, que cada iniciativa atua sobre impactos ambientais diferentes.
“No caso das emissões de carbono, a eficiência energética, os sistemas de climatização e aquecimento de água, os combustíveis e os gases refrigerantes estão entre os principais pontos de atenção. A energia solar e outras fontes renováveis contribuem diretamente para reduzir as emissões associadas ao consumo energético”, diz.
A economia de água, por sua vez, ajuda a preservar os recursos naturais e a reduzir a energia utilizada no bombeamento e, principalmente, no aquecimento. Na gestão de resíduos, as prioridades são diminuir a geração, ampliar a reciclagem e incentivar a economia circular. Já a eliminação de plásticos descartáveis contribui sobretudo para reduzir a produção de resíduos, embora não represente, isoladamente, uma estratégia de descarbonização.
Nos hotéis de Santos, as ações incluem redução da vazão de chuveiros e torneiras, reutilização de toalhas, uso de dispensers para amenities, diminuição de plásticos descartáveis, iluminação LED, equipamentos de climatização mais eficientes, energia renovável e gestão de resíduos.
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O ibis Santos Valongo também desenvolve iniciativas de economia circular. Por meio de uma parceria com a EcoFábrica Criativa de Santos, equipamentos eletrônicos que poderiam ser descartados receberam uma nova destinação.
Para Rui, a sustentabilidade precisa ser compreendida como um conjunto de medidas integradas. Enquanto algumas mudanças são percebidas diretamente pelos hóspedes, como a redução de plásticos descartáveis, outras ocorrem nos bastidores, a exemplo da modernização dos sistemas de aquecimento de água e climatização.
Essas intervenções menos visíveis, segundo o executivo, podem proporcionar ganhos ambientais e financeiros expressivos, reforçando o papel da eficiência operacional na descarbonização da hotelaria.
