Homem performático é o novo “esquerdomacho”? Entenda a tendência
Especialistas explicam como a tendência do homem performático ganhou espaço na internet e representa uma crise de transição da masculinidade
atualizado
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A masculinidade tradicional abriu espaço para o chamado “homem performático” ou, em inglês, “performative male”. O termo ganhou força nas redes sociais ao descrever indivíduos que adotam “acessórios de consciência”, como ecobag, falas feministas e a leitura estratégica de autoras como bell hooks. Mais do que uma estética, representa a construção de uma imagem “sensível e desconstruída” que transforma identidade em espetáculo como forma de validação social.
Principais características do homem perfomático
- Busca constante por validação, seja likes, elogios ou aprovação social.
- Tem a intenção de se tornar mais simpático às mulheres progressistas.
- Quebra estereótipos “masculinos”.
- Passa a ser vulnerável, sensível e até delicado.
- É, em parte, equivalente à figura do esquerdomacho.

Por que virou tendência nas redes sociais?
De acordo com Theo Alarcon, psicólogo e sexólogo, o homem performático surge quando a desconstrução da masculinidade deixa de ser um processo ético de revisão de privilégios e se torna uma estratégia visual. O que mudou foi a percepção de que a masculinidade tradicional e agressiva se tornou um “mau negócio” em certos lugares.
“O homem percebeu que performar vulnerabilidade gera mais status e atratividade”, explica o psicólogo pós -graduado em sexologia e terapia sexual ao Metrópoles.
Theo acredita que o problema não está nos itens utilizados em si, mas em como são usados como objetos de manipulação da imagem para evitar questionamentos. “Isso permite que o indivíduo mantenha dinâmicas de poder e desresponsabilização afetiva enquanto sua aparência sinaliza o contrário.”
Renata Verna, médica psiquiatra do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, destaca alguns fatores que podem explicam a tendência do homem performático:
- Cultura da performance: atualmente, valor pessoal virou métrica (likes, seguidores, visualizações…).
- Redefinição da masculinidade: modelos tradicionais (provedor silencioso, emocionalmente fechado) estão sendo questionados.
- Muitos homens ainda não sabem exatamente qual papel ocupar — e a performance vira um atalho de afirmação.
- Algoritmos premiam exagero: quanto mais extremo, disciplinado ou produtivo, maior engajamento.
- Comparação social constante: redes sociais criam vitrines permanentes de sucesso.
“Não é que o comportamento masculino tenha ‘mudado’ radicalmente; ele se tornou exposto e curado para audiência”, afirma Renata.

Insegurança, validação externa ou pressão social?
Segundo o psicólogo e sexólogo Theo, a tendência do homem performático reflete uma busca por validação por meio do que a psicologia humanista chama de Locus de Avaliação Externo.
O senso de valor desse homem não vem de uma convicção interna, mas da aprovação da “plateia”. Na sexologia, vemos isso como a troca de um script (roteiro) sexual antigo por um novo. Não há uma mudança de consciência, apenas a adoção de um novo manual de instruções para ser aceito.
Theo Alarcon
A médica psiquiatra Renata Verna acrescenta que a performance excessiva costuma estar associada a questões como necessidade de validação externa, medo de parecer fraco, dificuldade de lidar com vulnerabilidade e autoestima dependente de reconhecimento.
“Do ponto de vista psicológico, quando identidade depende fortemente de aprovação externa, temos um funcionamento mais frágil. Isso não significa que todo homem que se cuida ou busca sucesso esteja inseguro. A diferença está em motivação interna (autonomia) x necessidade constante de aprovação e autenticidade x personagem”, esclarece a profissional.
Ela ainda acrescenta que “quando a imagem pública precisa ser sustentada o tempo todo, há grande risco de sofrimento psíquico”.
Interferência na vida íntima e nos relacionamentos
O comportamento performático pode inteferir em diferentes áreas. No caso da vida íntima, há um paradoxo: muita sinalização de afeto, mas pouca entrega real. Segundo o psicólogo Theo, a intimidade exige vulnerabilidade, e a performance exige controle.
“O relacionamento com um homem performático costuma ser marcado pela desresponsabilização afetiva. Ele usa o discurso da saúde mental e da liberdade para evitar o compromisso emocional. É o cara que ‘te entende perfeitamente’, mas desaparece quando a relação exige presença real ou cuidado”, alerta o expert.
Em relação à saúde mental, a psiquiatra Renata Verna cita impactos que vão desde ansiedade de desempenho constante, medo de fracassar publicamente e síndrome do impostor a exaustão emocional e dificuldade de intimidade real.
Relacionamentos saudáveis exigem imperfeição compartilhada — e performance constante impede isso.
Renata Verna
Crise da masculinidade tradicional?
Afinal, o fenômeno representa uma crise da masculinidade tradicional ou apenas uma nova forma de expressá-la? Para Theo Alarcon, psicólogo pós-graduado em sexologia e terapia sexual, o fenômeno representa uma crise de transição.
“As masculinidades tradicionais estão ruindo e isso é positivo, mas o homem performático ainda não é a resposta saudável que buscamos; é uma espécie de ‘gentrificação da masculinidade’: uma reforma estética que mantém as bases de privilégio intactas”, afirma o sexólogo.
Theo ressalta que não existe uma “verdadeira” masculinidade a ser alcançada, e sim múltiplas formas de masculinidades possíveis.
“O caminho saudável não é trocar um acessório por outro, mas buscar a congruência. As masculinidades saudáveis são aquelas que se validam na ética da responsabilidade e no cuidado real, e não na manutenção de uma fachada para consumo social”, finaliza.


























