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As repercussões do caso Harvey Weinstein continuam acontecendo em várias partes do mundo. Desde outubro de 2017, quando um artigo do The New York Times revelou assédios e estupros cometidos pelo cineasta, movimentos feministas focados em expor abusos no âmbito profissional ganharam ainda mais força. No Brasil, os denunciados em massa da vez são os fotógrafos.

No final de junho, um perfil do Instagram foi dedicado a expor os assédios de Juliano Coelho. O fotógrafo pediu desculpas antes de deletar suas redes sociais. Semana passada, outra página chamou atenção. A @fotografosabusadores foi tirada do ar na quinta-feira (5/7), mas, em pouco tempo, conseguiu expor 15 fotógrafos, dentre eles Klaus Mitteldorf, Caio Rabelo, Bruno Dantas e Carlos Irineu.

Alguns deles tiveram a mesma postura de Juliano e apagaram todas as redes sociais. Outros continuam impunes e seguem postando fotos normalmente. Vale notar que a maioria dos acusados tem algo em comum: eles fazem retratos sensuais de mulheres jovens – nuas ou seminuas. É no processo de produção dessas imagens que as vítimas afirmam terem sido assediadas.

Em certos casos, o assédio começava nas mensagens. Garotas menores de 18 anos revelaram para a página @fotografosabusadores terem sido convidadas para posar nuas. Quando negavam e revelavam a idade, os fotógrafos denunciados davam continuidade aos comentários inadequados.

Reprodução

 

Para outras, o comportamento abusivo acontecia durante e depois da sessão de fotos. A fotógrafa Débora, que também já atuou como modelo, relata ter sofrido assédio por parte do fotógrafo Bruno Dantas. “Posei para ele três vezes. Na primeira, fui com outra modelo e o namorado dela e não aconteceu nada de estranho. Achei o Bruno um cara tranquilo”, lembra.

Débora conta que o segundo ensaio foi na casa do fotógrafo. Bruno teria feito comentários inadequados e perguntas íntimas para a modelo, questionando se ela tinha namorado e a chamando de linda várias vezes enquanto clicava as fotos. “No caminho até o metrô, ele continuou me perguntando da minha vida, estava incomodada em responder. Ele começou a me abraçar, a passar a mão pelo meu ombro e me puxar para perto. Ele me chamou para sair e eu falei que tinha namorado e ele sabia, pedi para ele não fazer isso. E ele insistiu e ficou me abraçando”.

Ao chegar em casa, Bruno teria mandado mensagens para Débora pedindo desculpas. “Falei que não podia fazer isso comigo nem com outras meninas. Foi um toque nele”. Senti uma obrigação falar isso, justifiquei com ‘homem é assim, abusa mesmo, é escrachado e precisa de alguém para pegar na mão e dizer que está errado’, me senti culpada”, conta.

“Avisei à ele que alguém podia se sentir assediada com esse comportamento. Expliquei: se você se sentiu atraído pela menina, espera o ensaio acabar e manda uma mensagem depois. Se você falar na hora, ela se sente mal e vulnerável, ela está nua com você no ambiente, não é legal”. Quando Bruno chamou a fotógrafa para posar pela terceira vez, ela esperava dele um tratamento diferente e respeitoso, mas ela afirma ter continuado sendo assediada pelo fotógrafo.

Débora lembra ter sido chamada de linda e gostosa durante o ensaio e da insistência de Bruno para ter “uma chance” com ela. Depois disso, ela cortou a relação com Bruno.

Em 2016, o fotógrafo fez um post falando sobre assédio, pedindo para as modelos terem cuidado com quem trabalham, e recebeu denúncias nos comentários. Confira as mensagens trocadas:

Machismo na profissão
O preconceito no meio da fotografia não se restringe só a assédios, mas pode ser visto também em como as mulheres são tratadas na profissão. A fotógrafa Thaís Marin afirma receber várias “dicas” não solicitadas e já passou por momentos desconfortáveis.

Para Thaís, outro problema dos profissionais homens é a intenção ao fotografar. “Meus colegas falam que clicam para montar o portfólio deles. Meu propósito é retratar a pessoa na foto e que ela se senta bem, não é para mim”. Ela observa que o comportamento influencia no assédio, porque o fotógrafo está preocupado em fazer a imagem só para ele.

O desconhecimento de quem posa pelas primeiras vezes também é uma forma de abusar da situação. “Quando você não sabe qual lente a pessoa está usando, onde ela está focando e se a direção não é educada, você transforma uma experiência engrandecedora em algo traumático”, conta. Para combater isso, Thaís focou em fotografar mulheres de forma confortável e empoderadora. A maioria das clientes dela nunca foi modelo antes e vem de um contexto de machismo e relações tóxicas.

A fotógrafa fala que suas freguesas preferem trabalhar com mulheres, tanto pelo conforto quanto pela empatia da profissional. “Principalmente agora com denúncias de assédio, abuso sexual, está ocorrendo um levante de mulheres. Uma resposta natural dessa situação é a busca de ensaios feitos por fotógrafas para evitar abusos e assédios”.

Veja na galeria, fotos feitas por Thaís Marin:

 

A fotógrafa Ethi Arcanjo, especializada em ensaios femininos e entusiasta da imagem como uma maneira de valorizar a autoestima da mulher, também usou seu perfil pessoal para se posicionar contra os assédios.

“Sofro junto ao ver tantas mulheres traumatizadas, ainda mais envolvendo uma ferramenta tão bonita e poderosa que é a fotografia. Sinto muito por todas. Sei que para muitos deve ser excitante imaginar tal cena: um fotógrafo com uma mulher nua na frente dele, os dois sozinhos em um estúdio frio, aquela musica sensual rolando, o fotógrafo se aproxima, ajeita o cabelo dela e PÁ, ela fica caidinha por aquele homem tão irresistível. Seria um roteiro de filme pornô perfeito, não? Mas coleguinha da mente educada por esse tipo de conteúdo, na vida real existe muita mulher prestes a ter a sua vida marcada. Tem alguém ali prestes a não ter mais paz. Ter que viver em terapias e se entupindo de medicações. Tem alguém ali que foi invadida sem permissão e que dificilmente vai ficar relaxada quando alguém se aproximar novamente. Tem alguém ali que futuramente não terá carinho algum ao olhar aquele ensaio. Não tem nada de estimulante nisso”.

No post, ela ainda compartilha uma série de orientações sobre como um ensaio humanizado pode ser.