Cosmeticorexia: o perigo da obsessão precoce pelo skincare em meninas
Com rotinas de até 10 produtos e forte influência das redes sociais, crianças buscam pele perfeita e acendem alerta médico
atualizado
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Nas redes sociais, basta digitar “crianças e skincare” para encontrar centenas de meninas, algumas com apenas 3 ou 4 anos, gravando vídeos do tipo “arrume-se comigo” depois da escola. Elas exibem cosméticos e mostram suas rotinas diárias com entusiasmo.
Diferente das décadas passadas, em que sabonetes prometiam apenas combater espinhas, hoje o público infantojuvenil utiliza produtos sofisticados e caros. A busca pelo visual coreano glass skin — uma pele milimetricamente lisa e translúcida — gerou um novo termo médico: a “cosmeticorexia“.
O fenômeno transformou o setor em uma indústria multibilionária. Um levantamento feito pela marca Pai, marca de produtos para a pele, com 1,5 mil crianças de 9 a 12 anos revelou que quase metade delas usa vários produtos semanalmente. O motivo? Metade afirmou que tenta corrigir o que enxerga como “problemas” na própria pele.
Abaixo, entenda os principais pontos dessa tendência e o que dizem os médicos especialistas.
Entenda a cosmeticorexia em 4 pontos principais:
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O comportamento obsessivo: é a preocupação excessiva e precoce com a pele. Segundo informações da BBC News, o professor e dermatologista italiano Giovanni Damiani investigou 55 pacientes de 8 a 14 anos e notou que os jovens com sinais do distúrbio usavam até 10 produtos por dia e não socializavam com a própria família sem maquiagem.
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Os riscos físicos: o uso de ingredientes fortes como retinol, vitamina C e ácidos esfoliantes agride a pele jovem. Os danos clínicos incluem desde dermatite de contato, alergias e ressecamento severo até queimaduras químicas e sensibilidade solar aumentada.
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O impacto mental: a busca por uma imagem irreal gera ansiedade e insegurança, transformando texturas naturais em defeitos. O transtorno dismórfico corporal (TDC) afeta cerca de 1% dos jovens, sendo 22,5 vezes mais comum em adolescentes do que em crianças, e 7,3 vezes mais frequente em meninas.
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A recomendação médica: para crianças e adolescentes, basta uma rotina simples. Os especialistas indicam apenas um limpador suave, hidratante (não comedogênico se houver acne) e protetor solar de amplo espectro, além de cobrarem maior regulamentação das marcas.
O que dizem os especialistas
O aumento da vaidade infantil é visível nos consultórios médicos. A dermatologista Natasha Crepaldi explica que essa busca constante por uma pele considerada perfeita ultrapassa os limites do que é saudável.
“Trata-se de um comportamento que vai além do autocuidado saudável e envolve uma busca constante por uma pele considerada perfeita, muitas vezes influenciada por padrões irreais vistos nas redes sociais. Isso preocupa porque crianças e adolescentes ainda estão em fase de desenvolvimento físico e emocional.”
A médica relata que as jovens chegam aos consultórios replicando rotinas complexas que copiam da internet, mesmo sem possuir nenhuma queixa real na pele:
“O que mais chama a atenção é que muitas pacientes chegam utilizando rotinas complexas, inspiradas por influenciadoras digitais, sem apresentar qualquer necessidade dermatológica específica. Em muitos casos, a preocupação está mais relacionada à busca por um padrão estético do que a um problema de pele real.”

O perigo biológico dessa exposição desnecessária é detalhado por Ademar Schultz, dermatologista e professor de Medicina do Ceub. Ele alerta para o perigo de misturar tantos passos e ativos químicos:
“Os principais riscos incluem dermatite de contato, vermelhidão, irritação, sensibilidade solar aumentada e até queimaduras químicas. Ingredientes comuns como retinol, ácidos esfoliantes (AHA e BHA) e vitamina C não foram adequadamente testados em crianças, e seu uso sem supervisão médica pode causar danos à barreira cutânea ainda em desenvolvimento.”
O professor acrescenta que o hábito de aplicar uma grande quantidade de cremes cria um cenário de alto risco para o surgimento de alergias precoces:
“A tendência de usar múltiplos produtos simultaneamente (até 10 produtos diários) aumenta exponencialmente a exposição a potenciais irritantes e alérgenos.”

Essa pressão estética sobre as crianças, que antes afetava apenas faixas etárias mais maduras, também é criticada no ambiente acadêmico. Brooke Erin Duffy, professora e pesquisadora de redes sociais da Universidade Cornell, aponta a mudança de foco do mercado:
“Mulheres na faixa dos 30 e 40 anos são alvo há muito tempo de empresas de skincare, que nos dizem que envelhecer é um problema e nos vendem uma solução. Mas esta é uma mudança significativa. Agora, meninas estão sendo submetidas à mesma pressão.”
Para mitigar o avanço do problema, Natasha Crepaldi defende que a indústria cosmética e as plataformas digitais precisam agir de forma ética e urgente com o público infantojuvenil:
“As marcas precisam comunicar de forma responsável quais produtos são adequados para cada faixa etária e evitar estimular preocupações estéticas precoces. O skincare deve ser apresentado como uma ferramenta de saúde e proteção da pele, e não como uma forma de alcançar padrões de perfeição. A responsabilidade da indústria, das plataformas digitais e dos responsáveis é fundamental nesse processo.”







